Em 23 de junho de 1998, às 22h50 do fuso horário norueguês, a seleção do país nórdico alcançava uma vitória de virada sobre o favorito Brasil, no Stade Vélodrome, na cidade francesa de Marselha, pela última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo daquele ano. Apesar do avançado da hora, o resultado brilhante foi acompanhado de uma noite ainda iluminada em algumas regiões da Noruega. “Aconteceu no solstício de verão”, lembra o jornalista Marius Lien, autor do livro Miraklet I Marseille: Da Norge Slo Brasil (O Milagre em Marselha: Quando a Noruega Derrotou o Brasil, em tradução literal a partir do norueguês). “É o dia com mais luz do ano, o que significa que, em algumas partes do país, o Sol simplesmente não se põe.” O solstício em si ocorre no dia 21, mas a principal celebração do período é mesmo no dia 23.

Com isso, explica Lien, até mesmo ao sul do país, há claridade no meio da noite — o que proporciona maior atividade humana. “É muito especial, todo mundo sai para se divertir, fazer churrasco, festejar e aproveitar a praia e outros lugares. Naquele dia ficou ainda melhor, porque jogaríamos contra o Brasil.” Segundo o jornalista, os noruegueses são obcecados pela Amarelinha: “Depois da década de 1980 — com aqueles grandes times de 1982 e 1986 —, muitos passaram a torcer pelo Brasil. O Brasil sempre representou — junto com a Inglaterra — o que havia de melhor no futebol. Jogava o futebol mais bonito, mais elegante e mais técnico.”

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No entanto, a admiração também era acompanhada pelo orgulho de nunca terem perdido para os ídolos e pela necessidade de somar três pontos na tabela, já que vinham de dois empates contra Marrocos e Escócia. “Sentíamos que precisávamos dar a volta por cima. Isso gerou uma energia no time durante a partida que não tínhamos visto nos jogos anteriores”, aponta Lien. Uma carga tão grandiosa que, para ele, o elenco não foi capaz de sustentar contra a Itália, adversária que desclassificou a Noruega nas oitavas de final. “Foi algo enorme. Por isso, os jogadores não conseguiram se concentrar direito. E, nos anos seguintes, ficou claro que absolutamente todo mundo na Noruega lembrava exatamente onde estava sentado enquanto assistia à partida [contra o Brasil].”

O Brasil freguês

Ao todo, foram quatro duelos entre brasileiros e noruegueses:

  • Noruega 1×1 Brasil, (amistoso, 1988);
  • Noruega 4×2 Brasil, (amistoso, 1997);
  • Brasil 1×2 Noruega, (Copa do Mundo, 1988);
  • Noruega 1×1 Brasil (amistoso, 2006).

Com exceção da partida no Mundial da França, os três amistosos foram disputados na casa da seleção norueguesa, no estádio Ullevaal, em Oslo. No entanto, os mais emblemáticos são o segundo e, principalmente, o terceiro confronto, nos quais os Vikings se impuseram sobre a seleção comandada por Mário Jorge Lobo Zagallo. “Bolas longas, esse era o nosso sistema”, simplifica o ex-meio-campista e zagueiro noruguês, Vidar Riseth, titular em Marselha.

Vidar Riseth, ex-meio-campista e zagueiro da Noruega

Vidar Riseth, ex-meio-campista e zagueiro da Noruega (Reprodução/Facebook/vidar.riseth)

“Acho que foi por isso que a Noruega se saiu tão bem, por causa dos dois estilos diferentes: o Brasil jogava com a bola no chão, e nós jogávamos com bolas altas.” A estratégia proposta pelo técnico Egil Olsen, conhecido como Drillo, foi tão absorvida por aquele grupo, que eles tinham plena confiança no êxito sobre os então campeões do mundo: “A tática era jogar a bola por trás, pelo alto, para mim. Eu jogava do lado esquerdo, e eu marcava o Cafu, porque ele estava na direita. Eu sabia que ganharia dele no jogo aéreo 10 de 10 vezes, porque eu era melhor no jogo aéreo e ele era melhor no chão”, compara Riseth. “Jogavam a bola para mim, eu recebia e tinham muitos jogadores na área.”

Uma prova da fé norueguesa pode ser vista a partir do fato da equipe ter saído atrás no placar em 1998, com gol de Bebeto, aos 33 minutos do segundo tempo. “Esse era o nosso ponto forte: sabíamos que um jogo dura 90 minutos (ou mais). Mesmo que o Brasil marcasse primeiro, sabíamos que poderíamos virar o jogo no final — já tínhamos feito isso muitas vezes e nunca desistimos”, reforça o ex-jogador. “Quando eles marcaram, conversamos entre nós. Eu falei com o capitão [Frode Grodas] e com todos os outros e concordamos: ‘Não se preocupem. Vamos continuar trabalhando duro e o gol vai sair.’ E foi o que aconteceu.”

Marius Lien e o livro que escreveu sobre Brasil 1x2 Noruega, em 1998

Marius Lien e o livro que escreveu sobre Brasil 1×2 Noruega, em 1998 (Fotos/Arquivo Pessoal)

Acontece que, para Marius Lien, a superioridade norueguesa até o momento tem mais a ver com a com o peso que cada adversário deu às partidas em questão: “Eu diria que nenhum dos jogos entre Brasil e Noruega teve realmente grande relevância para o Brasil. O jogo de 1998 foi super importante para a Noruega, mas o Brasil não precisava vencer”, ressalta. “Foi como Noruega contra França nesta Copa do Mundo: não valia nada. Tenho 100% de certeza de que o Brasil teria jogado de forma diferente se fosse um jogo importante para a seleção vencer.”

Ainda assim, o jornalista volta a citar o significado que o duelo adquire para a seleção norueguesa: “A Noruega ganha uma energia especial ao jogar contra o Brasil, dado o status elevado que o Brasil sempre teve. Para os noruegueses, isso foi especialmente importante em 1998, já que todos os jogadores da seleção da Noruega acompanhavam o Brasil quando eram crianças.” Inclusive, Lien conta que vários desses atletas foram ao vestiário brasileiro pedir autógrafos ao Zico, à época coordenador técnico. “Isso mostra o quanto eles respeitavam o Brasil e o quanto queriam vencê-lo.”

Brasil x Noruega, 2026

O quinto jogo da história entre Brasil e Noruega será pelas oitavas de final da Copa de 2026, no próximo domingo, 5, às 17h do horário de Brasília, no MetLife Stadium, região metropolitana de Nova Iorque/Nova Jersey.

Tanto Lien quanto Riseth atribuem favoritismo à seleção de Ancelotti, mas sem deixar de sonhar. “Tenho que acreditar que a Noruega vai vencer, né? Afinal, sou norueguês. Mas, claro, nosso lateral-direito teve dificuldades contra a Costa do Marfim e agora vai enfrentar o Vinícius Júnior, que está em excelente fase”, analisa o jornalista. “Por outro lado, na nossa esquerda, temos o Nusa, que vai dar trabalho ao Danilo. Talvez seja um duelo equilibrado nessa disputa entre ponta-esquerda e lateral-direito.” Já o ex-jogador reflete: “As táticas do Brasil e da Noruega são parecidas: os dois times querem manter a posse de bola. Então, é meio a meio, jogam de forma semelhante. Embora, claro, o Brasil seja o favorito.” Mas, ele projeta: “Sabemos que podemos vencer o Brasil, se o Brasil não estiver em um bom dia. Porque já fizemos isso antes, então acreditamos que podemos fazer de novo.”

No duelo jogador por jogador, apesar de verem Vini Jr. e companhia como superiores, a dupla também consegue exaltar os pontos fortes dos Vikings. “Se você olhar para o time de agora [em comparação ao de 1998], temos um meio-campo e atacantes melhores”, pontua Riseth. “Temos um dos melhores jogadores do mundo, o Haaland, e também Martin Ødegaard, como nosso capitão. Muitos bons jogadores atuando na melhor liga do mundo [Premier League], somos um time mais completo.”

Enquanto isso, Lien exalta o comandante norueguês: “Nosso técnico, o Ståle Solbakken, é muito, muito bom. O curioso é que ele era reserva em 1998 e, de certa forma, acabou ‘estreando’ como técnico durante aquele jogo”, revela. Isso porque, após o gol brasileiro, Drillo pretendia colocar o veloz Egil Østenstad, quando Solbakken interveio: “Começou a gritar: “Não, não, não! Temos que colocar o Jostein Flo’ — irmão do Tore André Flo, que marcou o primeiro gol”, explica o jornalista.

“Ele não estava nem de longe na forma física do Ronaldo. Tinha dois metros de altura, estava fora de forma e nunca teve muita técnica. Além disso, não tinha jogado nem um segundo no torneio.” No entanto, o pedido foi atendido. “Jostein Flo nem fez aquecimento, porque ninguém esperava que ele entrasse em campo. Mas, fez algumas boas cabeçadas e foi fundamental para criar aquele caos na área do Brasil, que resultou nos nossos dois gols.” Para Lien, essa história comprova a visão diferenciada do atual técnico da Noruega. “Isso pode acabar virando o jogo a nosso favor.”

Se a esperança vencerá o favoritismo, só o tempo dirá. No entanto, historicamente, a vantagem ainda é toda dos sonhadores.

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