A crise financeira que atinge o Santos ainda está bem longe de ser estancada.
Apesar de ter programado para esta sexta-feira, 2, o pagamento de uma parte dos direitos de imagem dos atletas – atualmente são dois meses em aberto, cerca de R$ 30 milhões -, o clube ainda corre contra o tempo para acertar irregularidades no recolhimento do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) dos jogadores e evitar problemas ainda maiores. A informação foi inicialmente noticiada pelo Blog Soul Santista e confirmada por PLACAR.
O atraso de dois meses ou mais do FGTS por um clube de futebol configura uma falta grave ao empregador e permite com que o atleta peça rescisão indireta do seu contrato.
Além disso, o Estatuto Social do Peixe estabelece em seu Artigo 68, inciso 6º, que a falta do pagamento de tributos, salários, encargos trabalhistas e direitos de imagem pelo período também pode desencadear um processo de impeachment, caso denunciado pelos conselheiros.
A última data de pagamento do direito trabalhista aos atletas foi realizada em 15 de julho, relativo à CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) de junho. Depois disso, os valores que deveriam ser pagos em 20 de agosto e 20 de setembro não ocorreram.

Santos não recolheu as últimas parcelas do FGTS – Reprodução
O cálculo do valor corresponde a 8% do salário bruto dos jogadores registrado em carteira. De acordo com o último balancete financeiro apresentado ao Conselho Deliberativo, até maio o montante mensal em carteira era de R$ 14,2 milhões.
Com isso, cada parcela custaria, em média, R$ 1,1 milhão, um total de R$ 2,2 milhões, mas vale lembrar que há incidência de juros e multa pelo atraso.
A ideia da direção santista é de saldar a dívida em uma operação conjunta ao pagamento de uma parcela da imagem dos atletas nesta sexta-feira, 2, antes do clássico contra o São Paulo.
A estratégia do clube para isso é um tanto quanto curiosa: adiar o repasse de valores devidos ao Coritiba e ao lateral-direito JP Chermont pela venda do atleta ao Sharjah FC, dos Emirados Árabes Unidos.
A negociação envolvendo o atleta foi fechada inicialmente em 2,5 milhões de dólares (R$ 12,9 milhões), montante que agora ficará inteiramente com o Peixe.
O clube, com isso, só empurrará para frente uma dívida com o não repasse de 10% ao Coritiba por conta da “taxa de vitrine” firmada no empréstimo – de 250 mil dólares (R$ 1,2 milhão) – e de 2,3 milhões referentes aos 20% da parte do jogador, que já havia cedido 5% de seu percentual na negociação, aumentando a fatia do Santos de 75% para 80% na divisão dos direitos econômicos.
Mais dificuldades sem bet
Com o contrato de patrocínio com a Novibet congelado, que ocupava o espaço máster da camisa, o clube se lançou ao mercado em busca de um novo acordo para a propriedade do uniforme. PLACAR apurou, contudo, que as primeiras investidas foram consideradas desanimadoras.
Na última semana, o Santos conversou a Cimed – que já patrocina Palmeiras e Cruzeiro, além de ser uma das marcas envolvidas desde 2016 com a seleção brasileira -, mas ouviu da empresa do ramo farmacêutico que não há orçamento de marketing previsto para investir este ano na maior propriedade do uniforme. Nem mesmo para acordos pontuais.
A ideia de usar do bom relacionamento de Neymar pai com gestores da Cimed para fechar um acordo não prosperou, assim como a consulta a outras empresas, uma delas do mesmo ramo e a outra uma fabricante de carros elétricos.
Recentemente, a Cimed também respondeu negativamente a uma oferta do Fluminense, que perdeu outra casa de apostas, a Superbet, para acordo pontual visando as semifinais da Libertadores.

Santos tem dificuldades para encontrar um patrocínio para o espaço máster da camisa – Raul Baretta/Santos FC
A possibilidade de a Cimed surgir como a “salvadora da pátria” dos clubes se deu após um vídeo publicado por João Adibe Marques, CEO da companhia, nas redes sociais. No registro, ele falava sobre “o sonho de patrocinar todos os clubes do Brasil” e, na sequência, afirmava “não ter limite de patrocínio”.
A empresa mapeia neste momento um outro espaço da camisa – na lateral, perto das axilas – que envolveria a costura de um acordo bem diferente ao de somente exposição da marca.
A ideia discutida com diversos clubes da Série A é para um trabalho conjunto envolvendo a marca Super, contemplando o desenvolvimento de uma linha de produtos próprios das agremiações e o repasse de royalties. Isso se encaixaria no termo “sem limite” usado por Adibe, já que os ganhos estariam atrelados ao volume de vendas.
Chapéu na mão
A situação de caixa no Santos é considerada dramática e ainda beira um colapso.
Agora com as duas últimas parcelas dos direitos de imagem dos jogadores vencidas – a mais recente na última segunda-feira, 21 -, o clube admite publicamente não ter dinheiro para quitar as pendências, tampouco um prazo definido.
Nos corredores da Vila Belmiro, uma pessoa ligada à atual gestão afirmou à PLACAR que o Peixe está de “chapéu na mão” — expressão utilizada para quem vai pedir ajuda a alguém em condição superior — e ainda sem alternativas no mercado.
O caos financeiro afeta até mesmo prestadores de serviços essenciais, como a World Sports, empresa responsável pela manutenção do criticado gramado da Vila Belmiro, que estava há cinco meses sem receber. A dívida com a empresa foi amortizada, mas ainda segue em aberto.
Apesar dos bons resultados recentes dentro de campo, o cenário não é nada animador. Há cerca de um mês, alvinegro recorreu à Federação Paulista de Futebol (FPF) para tentar antecipar parte das receitas do Paulistão e aliviar o fluxo de caixa. O pleito, contudo, não avançou. À PLACAR, o clube negou a movimentação.
Pesa contra o clube o fracasso no planejamento esportivo de risco e a recente eliminação na Copa Sul-Americana. Mesmo ciente de que se tratava de uma estratégia agressiva, o Santos investiu para trazer nomes de peso na última janela de transferências com o objetivo de alcançar as semifinais e a decisão do torneio, mas acabou caindo para o Atlético Mineiro nos pênaltis, após vencer o jogo de ida por 2 a 0.

Atualmente no Tigres-MEX, Joaquim jogou pelo Santos entre 2023 e 2024 – Raul Baretta/Santos FC
Só por não avançar à semifinal, o Peixe deixou de faturar 800 mil dólares (cerca de R$ 4,1 milhões), valor que facilmente superaria a casa dos R$ 5 milhões se somada a bilheteria. Caso fosse campeão, o prêmio chegaria a 10 milhões de dólares (R$ 50 milhões).
Recentemente, o Santos sofreu dois revezes judiciais: o primeiro envolve o técnico português Pedro Caixinha, divulgado pelo site Uol, em que a Corte Arbitral do Esporte (CAS) confirmou a punição aplicada pela Fifa e manteve a condenação de R$ 15 milhões no processo relativo à demissão.
A última foi do zagueiro Joaquim, em que a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) condenou o Peixe a pagar uma dívida milionária ao Cuiabá por conta de valores envolvendo a compra e a venda do defensor.
De acordo com sentença completa do processo, à qual a PLACAR teve acesso, o Peixe terá uma dívida 49,6% maior do que o valor que deveria arcar originalmente pelo defensor, totalizando uma diferença de R$ 6.483.110,53 a mais para os já sofridos cofres santistas.








