No futebol de seleções, há países que se tornam conhecidos por ter um estilo de jogo bonito, seleções que se eternizam por meio da conquista de taças e nações cuja história e paixão pelo esporte transcendem a falta de glórias. A Escócia, que entra em campo na noite desta sexta-feira, 19, partir das 19h (de Brasília), para enfrentar Marrocos em Boston (acompanhe o jogo aqui), pertence a esta última categoria.
Berço de alguns dos capítulos mais importantes da evolução da modalidade e dona de uma cultura futebolística rica (que data desde a era do futebol primitivo, na Idade Média), a seleção escocesa vive nesta Copa do Mundo de 2026 uma oportunidade de ouro: alcançar, pela primeira vez, o mata-mata de um grande torneio de seleções.
É um pouco surreal o fato de isto jamais ter acontecido. A Escócia é uma nações fundadoras do futebol moderno, participante do primeiro jogo internacional da história, em 1872 (0x0 com a Inglaterra), e presença constante em Copas entre as décadas de 1970 e 1990. Seus dois principais clubes, Rangers e Celtics, possuem títulos continentais e protagonizam uma rivalidade reconhecida em todo o globo como um dos clássicos mais interessantes e disputados de todo o futebol, o Old Firm Derby. Os torcedores escoceses têm a fama de serem tão boêmios quanto apaixonados, sempre marcando presença em grande número nas partidas da seleção.

Lance do gol de César Sampaio, no jogo contra a Escócia, na abertura da Copa de 1998 (Pisco Del Gaiso)
Apesar disso, o currículo boleiro escocês evidencia um vexame que sangra o orgulho do exército tartan (apelido dado aos fanáticos pela seleção escocesa): 8 participações em Copas do Mundo, 4 participações em Eurocopa (1992, 1996, 2020 e 2024), sempre eliminada na fase de grupos.
Seu melhor momento em mundiais ocorreu na Copa de 1974, disputada na Alemanha Ocidental: o time do técnico Willie Ormond contava com destaques do futebol britânico, como Denis Law (ídolo do Manchester United), Kenny Dalglish (ídolo do Liverpool) e Billy Bremner (ídolo do Leeds United) e terminou a competição sem ser derrotada: vitória magra sobre o Zaire e empates com Brasil e Iugoslávia. A equipe acabou eliminada pelo critério do saldo de gols, na primeira eliminação invicta da história do torneio.

Placar repercute Brasil 0 x 0 Escócia, Copa de 1974
Neste ano, os escoceses querem fazer diferente. Após 28 anos de ausência, a Escócia estreou nesta Copa vencendo o Haiti por 1 a 0 e assumiu a liderança do Grupo C. A vitória encerrou um jejum histórico: a Escócia não vencia uma partida de Copa do Mundo desde 1990. O futebol apresentado foi bastante dúbio, com o Haiti dominando as ações da partida de forma surpreendente em grande parte do embate, porém isso pouco importou para os milhares de escoceses que fizeram a festa nas arquibancadas do Gilette Stadium. O técnico Steve Clarke se mostrou aliviado na entrevista coletiva: “Todos nos disseram que era um jogo que precisávamos vencer, e nós vencemos. Quando você vence um jogo decisivo, tem de ficar satisfeito consigo mesmo”.
1998 ‘vibes’
Nesta sexta-feira, diante de Marrocos, novamente em Boston, os escoceses podem dar um passo gigantesco rumo a uma classificação inédita. A vitória sobre a seleção africana os levaria aos seis pontos e deixaria a equipe muito próxima da confirmação matemática entre os classificados da chave. O contexto o confronto ainda mais simbólico: na Copa do Mundo de 1998, na França, a última partida da Escócia antes do longo hiato foi uma acachapante derrota em 3 a 0 para Marrocos. O atacante Salaheddine Bassir foi o carrasco bretão na ocasião, fechando a goleada com um golaço. Curiosamente, esse mesmo time de Marrocos havia sido derrotado por 3 a 0 pela seleção brasileira, que sofreu bem mais para superar a Escócia na estreia daquele mundial (vitória por apenas 2 a 1).
Vinte e oito anos e seis Copas do Mundo depois, os dois países voltam a se encontrar em circunstâncias semelhantes, mas contextos diferentes. Marrocos chegou até as semifinais da última Copa do Mundo e, após enfrentar alguma turbulência na Copa Africana de Nações de 2025 (o que provocou a troca de técnico: saiu Walid Regragui, entrou Mohamed Ouahbi), voltou a apresentar um ótimo futebol, tendo dominado o Brasil em diversos momentos do empate em 1 a 1 no último dia 13.
Já a Escócia vive o ápice de uma reconstrução que viabilizou participações consecutivas na Eurocopa e que culminou na emocionante classificação para este mundial, consagrada pelo triunfo em 4 a 2 sobre a Dinamarca na rodada final das eliminatórias. O símbolo dessa transformação está em jogadores como o meia John McGinn, autor do gol da vitória sobre o Haiti; o lateral-esquerdo Andrew Robertson, capitão e líder da equipe, e o camisa 10 Scott McTominay, que foi de volante coadjuvante no Manchester United a herói do povo de Nápoles.
A última rodada deste grupo C terá Brasil x Escócia, no próximo dia 24 de junho. Dependendo dos resultados desta sexta-feira, o confronto entre brasileiros e escoceses pode valer a liderança da chave ou definir quem acabará sendo eliminado.
Para um país que ajudou a construir a história do esporte, mas que sempre viu as fases eliminatórias pela televisão, estas partidas carregam um peso muito maior do que um simples confronto de primeira fase. Elas representam a chance da Escócia converter seus 153 anos de tradição em resultado e, finalmente, escrever o capítulo que falta na relação de amor dos escoceses com o futebol.











