Neste início da temporada 2026/2027, o Manchester City foi considerado culpado de cometer 115 violações dos regulamentos financeiros da Premier League.
Entre as acusações, a liga comunicou que o clube organizou contruniatos “falsos” com diversos parceiros comerciais, registrou contas inexistentes, ocultou a verdade da situação financeira e violou os limites de gastos tanto da Premier League quanto da Uefa.
Além de cometer múltiplas violações de seus deveres de cooperação e boa-fé com a Liga. A partir desse cenário, os seus rivais pedem as devidas punições e a Liga diz que irá analisar qual medida será aplicada. A perda de pontos, a suspensão da liga e o rebaixamento são algumas delas que o clube pode sofrer.
“Esta é uma medida importante por parte da Premier League e mostra que os clubes, por maiores e mais relevantes que sejam, não estão livres para atuar como quiserem, com essa ‘criatividade’ financeira. Todos estão sob escrutínio. O futebol, hoje em dia, especialmente no futebol inglês, tem movimentado patamares enormes de dinheiro”, afirma Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças no esporte.
Sanções pelo descumprimento das regras do Fair Play Financeiro não são algo incomum no futebol europeu. O Chelsea passou por uma situação semelhante, na qual foi multado em 10,75 milhões de libras por violar as regras do Fair Play Financeiro da Premier League entre 2011 e 2018.
Outro caso emblemático aconteceu na temporada 25/26, quando o Leicester City foi rebaixado para a EFL League One, a terceira divisão do futebol inglês, em que sofreu uma redução de seis pontos após descumprimento das regras de lucro e sustentabilidade do Fair Play Financeiro e caiu de divisão no final da temporada.
O Sheffield Wednesday passou pela mesma situação, em que perdeu 18 pontos e entrou para a história negativamente como o time mais precoce a ser rebaixado na história do futebol inglês, com 13 rodadas antes do fim da competição.
Na temporada 23/24, o Everton perdeu dez pontos na Premier League por violar as regras de rentabilidade e sustentabilidade da liga. A Juventus também enfrentou sanções da Uefa e da Serie A na temporada 22/23. A Velha Senhora teve 10 pontos retirados na liga italiana e, no ano seguinte, foi removida da Conference League e recebeu uma multa de 20 milhões de euros.
“O caso do Manchester City, caso sejam referendadas todas as 114 acusações que foram provadas no julgamento de primeira instância, mostra uma leniência absurda por parte da Premier League, que, durante nove temporadas, praticamente fechou os olhos a inúmeras e contínuas infrações aos regulamentos financeiros. No Brasil, a primeira tarefa fundamental que a agência terá será garantir a adimplência dos clubes com relação às dívidas originadas das atividades do futebol. Para que isso seja efetivo, a agência deverá ter condições de tomar todas as medidas necessárias para punir os clubes que continuarem em situação de inadimplência, ainda que essas medidas sejam bastante duras, como a perda de pontos e, em casos extremos, até mesmo rebaixamento de divisão”, afirma Eduardo Carlezzo, advogado especializado em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados.
No futebol brasileiro, casos como esse são raros e o caso recente mais emblemático envolveu o Cruzeiro. Em 2020, o clube mineiro foi punido pela Fifa, após o não pagamento de uma dívida com o Al-Wahda, dos Emirados Árabes Unidos, referente à compra do volante Denílson, e iniciou a Série B com menos seis pontos. Apesar disso, a tendência é que as punições fiquem mais presentes no Brasil, principalmente com o novo Fair Play Financeiro.
“Durante muito tempo, os clubes brasileiros se acostumaram a fazer altos gastos em contratações e acumular dívidas sem sofrer qualquer tipo de punição esportiva, algo que já acontece há anos na Europa. Agora, com o Fair Play Financeiro em vigor no Brasil, a tendência é que, caso as equipes mantenham uma gestão temerária, medidas como essas se tornem cada vez mais frequentes”, explica Veridiano Pinheiro, diretor executivo da FutPro Expo, evento anual que reúne clubes, entidades, empresas e profissionais ligados ao futebol.
O primeiro caso registrado de punição por Fair Play Financeiro aconteceu com a Ponte Preta em junho de 2026, quando o clube foi excluído do Programa de Apoio à Reestruturação Financeira de Clubes da Série B (PARF-B) por causa dos atrasos salariais.
“É uma mudança importante na gestão dos clubes brasileiros porque estabelece limites e cria um meio de fiscalizar para evitar que os gastos sejam maiores que os cofres dos times. A tendência é que os clubes precisem ter cada vez mais planejamento, controle de custos e, principalmente, responsabilidade na formação do elenco para a temporada. O objetivo dessa regra é fazer com que os clubes se adequem aos imprevistos que surgem durante o ano e reduzir o risco de que os problemas financeiros comprometam os clubes a longo prazo”, explica Pedro Weber, especialista em finanças no esporte e CEO da NextPlay, empresa da Chenus Holdings.
Implementado em janeiro de 2026, o Fair Play Financeiro da CBF está em um período de transição que se estende até 2030. No ano passado, apenas três clubes da Série A seriam aprovados nos critérios do modelo regulatório da CBF: Flamengo, Palmeiras e Juventude.
“Estamos há três anos consecutivos com superávit, resultado de uma gestão baseada em responsabilidade e no nosso próprio modelo de ‘Fair Play Financeiro’. Nosso compromisso é preservar o equilíbrio financeiro, independentemente do desempenho esportivo, com processos focados no crescimento sustentável das receitas. Com a consolidação oficial do modelo de Fair Play Financeiro introduzido pela CBF, a tendência é que os clubes avancem para um cenário rigoroso e de segurança, algo que o Juventude já vem colocando em prática”, afirma Fábio Pizzamiglio, presidente do Juventude, que conquistou a Certidão Negativa Federal. Este documento comprova que o clube está com a situação fiscal e tributária regularizada e não possui dívidas pendentes.
No Brasil, o modelo aplicado terá foco em quatro quesitos: controle de dívidas em atrasos dos clubes, equilíbrio financeiro na operação, controle de custos com o elenco e controle das dívidas de curto prazo. Caso ocorra o descumprimento, os clubes podem sofrer sanções que incluem: advertência pública, multa, retenção de receitas, transfer ban, dedução de pontos, rebaixamento e não concessão ou cassação da licença.
“A introdução do Fair Play Financeiro e da sua agência fiscalizadora são fundamentais para a continuidade do futebol brasileiro. Hoje, a maioria dos clubes enfrenta graves dificuldades financeiras, tanto na Série A quanto na Série B, salvo raras exceções. A inflação salarial se apresenta como a principal causa para a instabilidade econômica dos clubes. A Série B, por exemplo, possui receitas sete vezes inferiores às da Série A, porém continua pagando salários de patamares semelhantes a mesma”, destaca Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá, que finaliza: “A criação e, principalmente, a aplicação efetiva do modelo regulatório da CBF são medidas que trarão benefícios substanciais a médio prazo, podendo, inclusive, evitar uma crise financeira generalizada no futebol brasileiro”.





