Reportagem publicada na edição 1540, o especial de Dia das Crianças, de outubro de 2026

Nas famílias Moutinho e Cispoletta, o futebol de botão é muito mais do que um simples passatempo; é uma tradição familiar que conecta pais e filhos. Os amigos Mário Moutinho (50) e Leandro Cipoletta (49) têm desfrutado da formação de seus herdeiros. “Se eu jogasse sem meu pai não teria o mesmo gosto”, relata Raul Moutinho, de 15 anos. “O que importa é a diversão, ganhando ou perdendo estamos tranquilos”, completa Gusttavo Cipoletta, de 14, minimizado o fato de já estarem jogando melhor do que os próprios pais.

No Bar dos Botões, localizado na Vila Anglo, Zona Oeste de São Paulo, as famílias encontraram um refúgio. O espaço criado em 2018 tem o futebol presente em cada detalhe da decoração e mistura o clima descontraído de um boteco à competitividade de um clube. Todas as terças, quintas e sábados rolam torneios nas cinco mesas instaladas. “É um espaço dedicado ao futebol como um todo. Conseguimos unir apaixonados por botão e apresentá-los a pessoas que nunca jogaram”, conta Luciano Araújo, proprietário do bar junto ao sócio Gabriel Tukunaga.

Basta um toque de imaginação para transformar a mesa de 1,87 m comprimento, 1,21 m de largura e 73 cm de altura (medidas máximas) em um mítico estádio lotado. E o que dizer da destreza necessária para tornar os inanimados “atletas” de acrílico em um autêntico artilheiro? Os goleiros são barras de 8,0 cm de largura, 3,5 cm de altura e espessura de 1,5 cm, que dependem do bom posicionado para reduzir o ângulo dos batedores.

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Mais do que um hábito apreciado no país há cerca de um século, o futebol de botão é um orgulho nacional, uma criação genuinamente brasileira. Não há consenso sobre quem teve a ideia primeiro, mas foi o ator e pintor carioca Geraldo Décourt quem se consagrou como o pai do Football Celotex, primeiro nome do jogo, em referência à placa de madeira usada por ele para fazer as primeiras mesas nos anos 1920. “Comecei jogando com botões de cueca, antes de passar para os da calça do uniforme escolar”, contou Décourt à PLACAR em 1991, sete anos antes de sua morte, aos 86 anos. O primeiro livro de regras foi escrito por ele em 1930 e rapidamente ganhou as ruas do Rio de Janeiro.

Nas décadas seguintes, já sob o nome de futebol de botão, novos materiais passaram a ser utilizados na confecção dos “atletas”, como cascas de coco, vidros de relógio, acrílico, entre outros. PLACAR contribuiu ativamente para a popularização da farra entre os anos 1970 e 1990, quando a revista trazia escudos dos clubes em suas páginas para serem recortados e colados nos botões.

“Uma das coisas mais legais da revista era ir colecionando os escudinhos. Foi por ali que eu conheci times diferentes. A Placar tinha times menores, do Amazonas, do Pará, ou outros times que não tinham a divulgação como existe no futebol hoje. Times da segunda, terceira divisão e estrangeiros”, conta Luciano Araújo, o dono do bar, que trabalhou na revista como designer.  O jogo foi oficialmente reconhecido como uma modalidade esportiva em 1988 pelo antigo Conselho Nacional de Desportos.

Brincadeira séria: campeonatos rolam de terças e quintas (Alexandre Battibugli/PLACAR)

Raul Moutinho é tetracampeão do torneio realizado no Bar dos Botões, enquanto o amigo Gusttavo Cispoletta celebrava a entrada no top 5 da liga. Mesmo pertencendo a uma geração que cresceu cercada de jogos digitais, a brincadeira manual é o que faz os olhos dos garotos brilharem. “O botão é mais prazeroso, é um lazer. O Fifa [jogo de videogame] é mais competitivo, você fica fissurado. Eu prefiro o botão, é um lazer mais tranquilo”, conta Gusttavo. “Mas se ele não vem ele fica louco. Temos de estar toda quinta aqui”, entrega Leandro sobre a paixão do filho.

Aos sábados, o bar recebe um número maior de famílias com crianças pequenas. O primeiro contato com o novo esporte costuma surpreender os pequenos. “É legal porque é um jogo que meu avô jogava e continua sendo igual. Isso também me faz sentir perto dele. Gosto de pensar em personalizar a ‘camisa’ do meu time de botão. Faria uma com unicórnios e corações, na paleta do arco-íris”, conta Mari Morishita, de 9 anos.

Brasil afora, o futebol de botão é jogado sob normas diversas. Na regra paulista, também chamada de 12 toques, as partidas têm duração de 20 minutos (dois tempos de dez minutos), com intervalo máximo de três minutos entre a primeira e segunda etapa. Ela estipula que o jogador que tiver a posse de bola terá direito a um limite coletivo de 12 toques, com cada botão tendo direito a três toques ou acionamentos consecutivos. Caso o jogador não consiga chutar a gol até o 12º toque, ele será punido com tiro livre indireto cobrado do local onde a bola estiver estacionada.

Outra regra famosa é a carioca, também conhecida como três toques, cujas partidas têm duração de 40 minutos (dois tempos de 20 minutos), e determina que o jogador que tiver a posse terá direito a um limite coletivo de três toques, sendo que, no segundo lance, deverá passar a bola a outro. O chute ao gol só pode ocorrer quando o primeiro lance for executado no campo de ataque. Há ainda a chamada regra baiana, cujas partidas têm dois tempos de 25 minutos. Também conhecida como um toque, ela é dividida em dois tipos: liso, cujos botões são lisos na parte de baixo; e livre, no qual os botões são cavados na parte inferior. Nesta regra, o jogador só pode dar um toque no disco de polietileno, alternando a posse a cada movimento.

Pebolim, Totó, Fla-Flu… e Gulliver

Outro tipo de “futebol com a mão” forma parte importante da cultura brasileira – este um jogo coletivo, com diversos nomes país afora. Apesar de pebolim ser a nomenclatura oficial adotada pela federação nacional, este termo é mais utilizado em São Paulo. Totó é como chamam a brincadeira no Rio de Janeiro, partes de Minas Gerais e no Nordeste. Ironicamente, Fla-Flu (que faz referência ao clássico carioca Flamengo x Fluminense) é o nome da diversão no Rio Grande do Su, enquanto Pacau é adotado e no Paraná e em Santa Catarina.

Seja como for o nome, essa tradição começou longe dos tradicionais bares e salões de jogos onde costuma ser disputado atualmente. Sua origem mais aceita carrega as marcas da Guerra Civil Espanhola (entre 1936 e 1939). Ao ser ferido por um bombardeio em Madri e posteriormente hospitalizado, o poeta espanhol Alejandro Finisterre teria se sensibilizado ao ver outras crianças em recuperação e, inspirado no tênis de mesa, encomendou sua nova ideia a um amigo carpinteiro. A invenção foi patenteada na Espanha em 1937 e não demorou a atravessar o Oceano Atlântico.

Seja jogando individualmente (1 contra 1) ou em duplas (2 contra 2), o objetivo do pebolim é o mesmo de qualquer partida de futebol: marcar gols no adversário e evitar que você seja vazado. A duração de um jogo não é medida pelo tempo, mas pelo placar. Geralmente, vence quem marcar dez gols em uma partida. A disputa também pode ocorrer em 3 sets de 5 gols cada, vencendo quem ganhar dois sets, no famoso estilo “melhor de três”.

Apesar da contagem por gols, há um tempo máximo de posse estabelecido pela Federação Internacional do Futebol de Mesa, entidade que representa o pebolim mundialmente e organiza Copas do Mundo e outros campeonatos. O ataque e a defesa podem ficar, no máximo, 15 segundos com a bola, enquanto o meio-campo tem um limite de 10 segundos. A mesa de pebolim, assim como o futebol de campo, conta com 11 jogadores em cada equipe. A distribuição por time é feita em quatro barras: um goleiro; geralmente dois defensores; cinco meio-campistas; e três atacantes. No entanto, algumas mesas recreativas, conhecidas no Brasil como “mesas canoas”, contam com a formação tática 3-4-3. O pebolim também tem suas normas. Um dos motivos de maior discussão na hora do jogo entre amadores é a famosa “roleta”, movimento proibido no qual o jogador gira a barra desenfreadamente em 360º. Bater na mesa ou colocar a mão no campo enquanto a bola estiver rolando também não é permitido.

Se o clássico futebol de botão exigia maior paciência com palhetas, lixas e vidros de relógio, o Futebol Gulliver surgiu para tornar a paixão de mesa mais prática, lúdica e acessível. Assim como no tradicional jogo de mesa, o objetivo segue o mesmo: marcar mais gols que o adversário. Fabricado desde a década de 1970 pela tradicional fabricante brasileira Gulliver, o jogo é disputado em um campo de tecido, geralmente feito com feltro verde ou TNT com linhas do gramado estampadas em branco. O kit conta com duas metas de traves plásticas com redes vazadas, quatro bandeirinhas de escanteio e uma bola de plástico.

Em campo, os protagonistas do Futebol Gulliver são 11 bonecos de plástico, sendo dez na linha e um goleiro com haste traseira plástica para que seja movimentado de um lado para outro na linha do gol. Com uniformes e bases arredondadas, os atletas não são movidos por uma palheta, mas sim por petelecos ou impulsos diretos com os dedos na base. Graças ao formato semiesférico, os bonecos se inclinam ou deslizam pelo campo para chutar a bola.

As partidas do Futebol Gulliver geralmente são disputadas em dois tempos de 15 minutos cada, podendo ter uma duração específica combinada entre os jogadores. Para jogar, o boneco mais próximo da bola deve ser movido e ele tem duas opções de movimento: tocar a bola para outro jogador ou chutar para o gol. Caso opte pelo arremate à meta rival, o adversário deve ser avisado para que possa posicionar o goleiro. Neste jogo, o limite de toques pode variar dependendo de onde é jogado, mas costuma permitir de um a três.

Durante as Copas do Mundo, a Gulliver lançou edições temáticas e conjuntos licenciados de grandes clubes brasileiros, o que ajudou a impulsionar o jogo entre os anos 1970 e 1990. Atualmente, além da diversão no campo, os pequenos times plásticos tornaram-se relíquias disputadas por colecionadores esportivos.

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Capa da edição 1540 de PLACAR, dedicada ao Dia das Crianças

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