As confederações continentasis Uefa (Europa), Concacaf (América do Norte e Central) e AFC (Ásia) divulgaram uma carta conjunta contra Gianni Infantino, presidente da Fifa, nesta segunda-feira, 10, aumentando a pressão para que o mandatário renuncie ao posto. Infantino enfrenta uma grande crise, após a divulgação da proposta FFE, que visava “vender” a Copa do Mundo para investidores privados.
Na carta, as confederações afirmam que Infantino tentou enganar membros da Fifa e de suas entidades, o que causou uma “quebra na confiança” com o presidente. O comunicado também insinua que por conta disso, o suíço deve abandonar o posto.
“A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de reter ou exigir que o poder seja mantido. Trata-se de um dever de servir à família do futebol que deposita sua confiança nessa liderança. Quando essa confiança é quebrada por meio de uma fraude, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado”, escreveram Uefa, AFC e Concacaf”, afirma a carta assinada pelos três presidentes e três secretários-gerais das entidades.
As três entidades também criticaram o pedido de desculpas feito por Infantino, após o fracasso da FFE. Segundo a carta, o presidente da Fifa não reconheceu a sua “grave falha de julgamento” durante o processo. Outro ponto detonado pelas confderações foi a reunião de emergência realizada no Marrocos, que segundo o comunicado contou apenas com membros específicos escolhidos por Infantino.
“A própria carta da Fifa também confirma que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança realizada no Marrocos. Nenhum membro do Conselho da Fifa ou das Associações-Membro foi convidado a participar. Apenas o Comitê de Gestão, composto por altos funcionários empregados pela Fifa, esteve presente”.
VAle destacar que embora as três confederações representem o pensamento das entidades que as compõem, existem “rachas” internos. A Federação de Futebol do Catar, por exemplo, embora parte da AFC, é apoiadora de Infantino. Entre os membros da Concacaf, a Federação Mexicana de Futebol também saiu em defesa do presidente da Fifa.
Por que Infantino está nas cordas?

Gianni Infantino discursa no palco do 75º Congresso da Fifa – Daniel Duarte/AFP
Pesam contra Infantino a má repercussão da ideia de criar FFE (Fifa Forward Enterprise), uma empresa para vender ações da entidade a investidores; a acusação de chantagem do presidente da Federação da Jordânia; a campanha do ex-presidente Joseph Blatter para a sua saída, e a péssima repercussão do Caso Balogun na Copa do Mundo.
A proposta da FFE, divulgada na última semana, envolveria criar uma empresa privada, que operasse a comercialização e organização das principais competições da entidade. Infantino chegou a afirmar que a venda de ações aumentaria o repasse para cada federação filiada, de 8 milhões para 20 milhões de dólares, com arrecadação total de US$ 4,2 bilhões (R$ 21,5 bilhões).
A ideia não foi bem recebida pela Uefa, que inclusive ameaçou um boicote das competições da Fifa. A Conmebol havia prometido estudar o assunto em conjunto com as suas federações.
O The Times também menciona uma possível saída de Infantino, como aconteceu com o seu antecessor Blatter. Para Infantino cair, existem duas possibilidades: a renúncia ou uma destituição de seu cargo a partir da votação das federações-membro.
O príncipe Ali bin al-Hussein, presidente da federação da Jordânia, chegou a dizer que a pressão sobre as associações membros para apoiarem a reeleição de Infantino “equivale a chantagem”. “Não o apoiamos antes e certamente não o apoiaremos agora”, publicou Prince Ali no X. “Mas toda a situação configura chantagem e nos recusamos a ceder a isso.”
Até o momento, apenas um pequeno número de países ofereceu seu apoio público a Infantino. Nem mesmo a Arábia Saudita, que foi eleita sede da Copa do Mundo de 2034 após forte aproximação com Infantino , declarou seu apoio até o momento.
Ainda de acordo com o Times, opositores de Infantino já planejam o período pós-eleitoral e a possibilidade de haver uma mudança na estrutura, alternando a presidência da Fifa entre os presidentes das confederações a cada quatro anos. Uns apoia a mudança, enquanto outros temem que ela concentraria muito poder nas mãos de um único diretor executivo.
Leia a carta das confederações na íntegra
Prezada Família do Futebol,
O futebol é a maior paixão compartilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição.
Ele pertence aos jogadores, aos torcedores, aos clubes, às Associações-Membro e a todas as instituições encarregadas de proteger seu futuro.
É nesse espírito, como Confederações que representam seus membros, que hoje nos manifestamos coletivamente.
O crescimento da última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de uma única pessoa. Foi resultado da Fifa, das Confederações, das Associações-Membro e dos milhares de indivíduos que dedicam suas vidas ao esporte.
A expansão dos torneios, a escolha das sedes das Copas do Mundo da Fifa de 2030 e 2034, a distribuição de recursos às associações. Tudo isso foram conquistas coletivas, acordadas e concretizadas em conjunto.
Não se trata de dinheiro. As Confederações já defenderam a distribuição responsável das vastas reservas existentes da Fifa para fortalecer ainda mais os investimentos no desenvolvimento das Associações-Membro.
Também não se trata de qualquer Associação-Membro perder o apoio que conquistou, apesar das tentativas de alarmismo dirigidas aos nossos membros para sugerir o contrário. Tampouco se trata de revisitar a expansão das competições, a distribuição de vagas na Copa do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas coletivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser respeitadas.
Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles eleitos para liderá-lo.
A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de reter ou exigir que o poder seja mantido. Trata-se de um dever de servir à família do futebol que deposita sua confiança nessa liderança.
Quando essa confiança é quebrada por meio de uma fraude, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado.
A recente carta da Fifa dirigida aos seus vice-presidentes e às 211 Associações-Membro reconhece que erros foram cometidos no processo. Ela trata a situação como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de julgamento. Uma proposta apresentada em um cronograma apressado, sem consulta significativa e conduzida em direção a um prazo final antes que as Associações-Membro pudessem analisar adequadamente seus termos, não é fruto de um simples descuido, mas de uma estratégia concebida para limitar o escrutínio.
A carta não reconhece que a própria proposta era inerentemente equivocada. Continua sem haver o reconhecimento de que a tentativa de vender participação em um interesse ligado à Copa do Mundo da Fifa representou uma grave falha de julgamento, não apenas um erro processual, mas uma violação fundamental da confiança das próprias instituições que a Fifa existe para servir.
A Fifa também se comprometeu a apresentar um relatório completo sobre esses acontecimentos ao Conselho, mais uma vez deixando de reconhecer que uma governança adequada diante de uma falha de julgamento tão profunda exigiria que essa análise fosse conduzida por uma terceira parte totalmente independente, e não pela própria Fifa, por seus funcionários ou por qualquer interessado dentro do futebol. A administração da Fifa não deve desempenhar nenhum papel na condução dessa revisão.
Conforme correspondências anteriores, todos os documentos e registros relevantes devem ser preservados de acordo com a comunicação da Uefa sobre preservação de documentos.
A própria carta da Fifa também confirma que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança realizada no Marrocos. Nenhum membro do Conselho da Fifa ou das Associações-Membro foi convidado a participar. Apenas o Comitê de Gestão, composto por altos funcionários empregados pela Fifa, esteve presente.
Essa reunião recente, na qual um número seleto de integrantes do Comitê de Gestão da Fifa, e não o Comitê completo, foi convocado para o exterior, em vez de a liderança se dirigir a Zurique para dialogar com o coração da Fifa, seus funcionários, apenas reforça essas preocupações e representa a continuidade do mesmo padrão de conduta que nos trouxe até este momento. Não é a conduta de um guardião do esporte, mas a de alguém que acredita que o jogo deve responder a ele.
Há silêncio onde deveria haver responsabilização, distância onde deveria haver transparência.
Essas não são as qualidades de liderança que o futebol merece. É por isso que adotamos esta posição: não de forma leviana e nem isoladamente, mas juntos e por dever para com o esporte que servimos.
A força do futebol sempre foi sua unidade. Apelamos para que essa unidade seja honrada agora, em favor de uma liderança que sirva ao futebol, e não que procure comandá-lo.
Atenciosamente,
SALMAN BIN IBRAHIM AL KHALIFA (Presidente da AFC)
VICTOR MONTAGLIANI (Presidente da Concacaf)
ALEKSANDER CEFERIN (Presidente da Uefa)
DATUK SERI WINDSOR JOHN (Secretário-geral da AFC)
PHILIPPE MOGGIO (Secretário-geral da Concacaf)
THEODORE THEODORIDIS (Secretário-geral da Uefa)








