Inglaterra e Argentina escreverão na próxima quarta-feira, 15, a partir das 16 horas (de Brasília), um novo capítulo de uma rivalidade histórica em Copas do Mundo. A partida no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, será válida pela semifinal.

De um lado, a Inglaterra passou pela Noruega; de outro, a Argentina avançou diante da Suíça. O resultado é que os dois se enfrentarão pela sexta vez na história das Copas, um novo marco nessa rivalidade que é sempre lembrada por polêmicas de arbitragem, tensão dentro e fora de campo relacionadas a questões geopolíticas e alguns dos gols mais inesquecíveis da história dos mundiais.

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O retrospecto atual pesa a favor da Inglaterra: 4 vitórias dos ingleses, uma dos argentinos e um empate com classificação sul-americana nos pênaltis. Confira toda a história detalhada do confronto na lista abaixo:

Rancagua, Chile – 1962: A primeira dança

Inglaterra e Argentina se enfrentam na Copa de 1962 (Reprodução / AFA)

Os dois países se encontraram pela primeira vez em um mundial na Copa de 1962, disputada no Chile, pela fase de grupos. A Inglaterra vivia um mundial de transição. O time já contava com uma boa base de jogadores: peças importantes da seleção campeã da copa seguinte, como o atacante Jimmy Greaves, o meia Bobby Charlton e os zagueiros Bobby Moore e Ray Wilson atuaram no torneio. Foi a última competição em que o English Team foi comandado por Sir Walter Winterbottom, o primeiro treinador da história da seleção, no cargo desde 1946. A expectativa de uma campanha melhor amainou com o revés sofrido para a Hungria na estreia. A vitória na partida seguinte, portanto, era crucial para avançar e reconquistar o otimismo da torcida.

Já a Argentina ainda atravessava a ressaca do chamado “desastre da Suécia” na Copa anterior: uma eliminação vexatória, ainda na primeira fase, ao perder de 6 a 1 para a Tchecoslováquia. Sem conseguir estabilidade na Era Pós Guillermo Stábile (técnico albiceleste desde 1939), os hermanos tiveram um ciclo complicado e chegaram até a Copa num clima de pessimismo diante das manias do técnico Juan Carlos Lorenzo. A estreia, uma vitória magra sobre a Bulgária, não empolgou a imprensa.

O resultado deste primeiro confronto foi uma vitória fácil dos bretões, que abriram 3 gols de vantagem com Ron Flowers, Greaves e Charlton. O atacante José Sanfilippo, figura maior da Argentina naquele mundial e falecido no último mês de junho, descontou. A derrota pavimentou o caminho da eliminação dos argentinos, que ainda empatariam sem gols com a Hungria. Já a Inglaterra avançou para a as quartas de final, onde teve sua caminhada encerrada pelo Brasil de Mané Garrincha, eventual bicampeão.

Wembley, Inglaterra – 1966: Nasce uma rivalidade

World Cup Quarter Final match at Wembley Stadium, England 1 v Argentina 0, the flashpoint as Argentina A histórica expulsão de Antonio Rattin na partida entre Inglaterra e Argentina na Copa do Mundo de 1966 (Daily Herald/Mirrorpix via Getty Images)

A histórica expulsão de Antonio Rattin na partida entre Inglaterra e Argentina na Copa do Mundo de 1966 (Daily Herald/Mirrorpix via Getty Images)

Quatro anos depois,  a Argentina chegou a Copa do Mundo sob renovada desconfiança de sua torcida, tendo recontratado Juan Carlos Lorenzo às pressas para liderar a selección no torneio. Contudo, o time surpreendeu, fazendo uma ótima primeira fase e se classificando sem sustos para  as quartas de final do mundial sediado pelos inventores do futebol.

A partida ficou marcada no imaginário boleiro dos dois países por acusações mútuas de comportamento inadequado. A imprensa argentina apelidou o jogo de  “El robo del siglo” (o roubo do século), por considerar que irregular o gol da vitória inglesa – marcado por Geoff Hurst, que estaria em posição de impedimento. Para piorar a situação, o capitão da Argentina — Antonio Rattín, ídolo do Boca, morto no último sábado — foi expulso após receber duas advertências do árbitro alemão Rudolf Kreitlein.

Rattín se recusou a deixar o gramado, procurando contestar verbalmente o juiz. O meia apontou para a braçadeira de capitão e solicitou um tradutor. O inglês Ken Aston, supervisor de arbitragem na Copa, entrou no gramado para intervir, o que só piorou as coisas devido ao sentimento de favorecimento aos donos da casa que pairava entre os jogadores sul-americanos. Por fim, Rattín deixou o campo de Wembley, não sem antes amassar com a mão a bandeirinha do Reino Unido no escanteio. Indignado com esta atitude, Alf Ramsey (técnico da seleção inglesa) proibiu seus jogadores de trocarem camisa com os sul-americanos, a quem chamou de “animais” em entrevista após o jogo.

Azteca, México – 1986: A mão de Deus e o gol do século

A rivalidade continuou na década seguinte, com alguns episódios controversos em amistosos disputados nos anos 70, mas nada comparável à contenda do duelo de 1966. Isso mudou na Copa de 1986. Apenas quatro anos após a guerra das Ilhas Malvinas, que deixou profundas cicatrizes nas relações entre Argentina e Reino Unido, o destino colocou novamente as duas seleções frente a frente, desta vez pelas quartas de final da Copa do Mundo do México.

Com as duas seleções embaladas na competição e jogando num Estádio Azteca lotado, a tarde daquele 22 de junho reservava algo especial para o futebol: a picardia e a genialidade de Diego Armando Maradona. O camisa 10 albiceleste foi protagonista de uma das atuações mais emblemáticas da história dos Mundiais. Aos seis minutos do segundo tempo, Dieguito aproveitou a saída do goleiro Peter Shilton para tocar a bola com a mão esquerda e abrir o placar. O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser validou o lance, que eternizaria a expressão “La Mano de Dios”, “A Mão de Deus”.

Poucos minutos depois, Maradona marcou aquele que ficou conhecido como “gol do século”. Ele recebeu a bola de Héctor Enrique ainda no campo de defesa, driblou cinco jogadores ingleses e o goleiro antes de empurrar para as redes. Gary Lineker, artilheiro do torneio e goleador máximo da Inglaterra até a Copa de 2026, ainda descontou nos minutos finais, mas a vitória por 2 a 1 colocou a Argentina na semifinal e pavimentou o caminho para o bicampeonato mundial. Para os argentinos, foi uma espécie de revanche esportiva pela derrota de 1966 e, simbolicamente, pela rendição e as vidas perdidas no conflito das Malvinas. Para os ingleses, ficou o amargo sentimento de terem sido eliminados por um gol clamorosamente irregular e outro simplesmente inevitável.

Geoffroy-Guichard, França – 1998: Nova Expulsão Polêmica e Decisão nos pênaltis

Simeone, da Argentina, contra Seaman, da Inglaterra, na Copa do Mundo de 1998 (Alexandre Battibugli / Placar)

Doze anos depois, o clássico de sul-americanos versus europeus voltou a reunir duas gerações talentosas. A Inglaterra, do treinador Glenn Hoddle, apostava na juventude dos jovens astros do ataque Michael Owen, de 18 anos, e David Beckham, de 23, enquanto a Argentina, treinada pelo zagueiro campeão de 1978 Daniel Passarella, tinha nomes como o meia Ariel Ortega, o centroavante Gabriel Batistuta e o lateral-esquerdo Javier Zanetti como destaques.

Jogadores da Argentina, comemorando gol contra a Inglaterra (Alexandre Battibugli / Placar)

Válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo sediada pela França, a partida foi uma dos melhores daquela Copa. Batistuta abriu o placar de pênalti. Alan Shearer empatou da mesma forma e, antes do intervalo, os ingleses viraram a partida graças a um golaço do jovem Owen, que finalizou forte após linda jogada individual. Nos acréscimos da primeira etapa, Zanetti empatou em uma jogada ensaiada de falta que surpreendeu a defesa inglesa.

No segundo tempo, Beckham acabou expulso pelo árbitro dinamarquês Kim Milton Nielsen após dar um chute em Diego Simeone quando estava caído no gramado. Com um jogador a menos em Saint-Etienne, a Inglaterra resistiu até a disputa por pênaltis. Nas cobranças, os argentinos venceram por 4 a 3 após defesas de Carlos Roa e erros de Paul Ince e David Batty, avançando às quartas de final, onde seriam superados pela Holanda de Dennis Bergkamp. A imprensa inglesa elegeu Beckham como vilão da queda precoce; ficou famosa a manchete do tabloide “The Mirror”: “Dez leões heróicos e um garoto estúpido”.

Time to bring back this fantastic headline from 1998.

Beckham foi alvo da imprensa britânica após fracasso em 1998 (Reprodução / Internet)

Sapporo, Japão – 2002: A redenção de Beckham; o pesadelo de Verón e Bielsa

Marcelo Bielsa observa Inglaterra 1 x 0 Argentina em Sapporo, no Japão, Copa do Mundo de 2002 (.EFE/Lavandeira Jr.)

Em 2002, Inglaterra e Argentina chegaram ao Mundial da Coreia do Sul e do Japão cercadas de expectativa. Ambas eram vistas como “gerações de ouro”. Os ingleses encontraram dificuldades para se classificar para a Copa, mas graças ao gol histórico de David Beckham contra a Grécia, garantiram sua vaga para o mundial disputado na Coreia do Sul e no Japão. Já a Argentina de Marcelo Bielsa desembarcou na Ásia como uma das favoritas ao título após campanha dominante nas Eliminatórias Sul-Americanas.

Beckham comemora gol da Inglaterra contra a Argentina na Copa de 2002 (EFE/dpa/MATTHIAS SCHRADER/lmf/)

O único gol da partida saiu aos 44 minutos do primeiro tempo. Mauricio Pochettino  (hoje técnico dos Estados Unidos) derrubou Michael Owen na área, e David Beckham bateu com força, no meio do gol, convertendo o pênalti que garantiu a vitória inglesa por 1 a 0. O capitão da seleção vibrou muito na comemoração, pela superação do fantasma de 98. O jogo também ficou marcado negativamente para os argentinos pela péssima atuação do volante Juan Sebastián Verón, que na época atuava no futebol inglês. Pela atuação ruim no jogo, o ídolo do Estudiantes foi apelidado jocosamente de “sir John” e pivô de teorias conspiratórias que buscaram justificar o vexame que se confirmaria na rodada seguinte.

O resultado foi decisivo para o desfecho do chamado “grupo da morte”, que também contava com a Nigéria de Jay Jay Okocha e a Suécia de Henrik Larsson. A Argentina empatou sem gols com a Suécia na rodada seguinte e acabou eliminada ainda na primeira fase, um dos maiores fracassos da história da seleção em Copas. A Inglaterra avançou às oitavas de final, onde eliminou a Dinamarca, antes de cair diante da fortíssima seleção brasileira, futura pentacampeã mundial.

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