O encerramento do calendário nacional feminino em 2026 deixa um panorama de transformações técnicas e estruturais no país. O torneio que terminou com título do São Paulo e fim da hegemonia do Corinthians combinou a maior ocupação de arquibancada já registrada na categoria a mudanças táticas relevantes entre os favoritos, além de desempenhos individuais decisivos no ataque e na defesa. Abaixo, confira cinco acontecimentos centrais que ajudaram a pautar a Série A1 e o retrospecto do acesso na Série A2.
1. A apoteose do São Paulo: título inédito e o MorumBIS histórico
A conquista do primeiro Brasileirão Feminino pelo São Paulo foi consolidada no maior palco possível. O Tricolor coroou uma campanha consistente ao desbancar o favorito Corinthians no agregado por 3 a 2. A festa do título inédito veio acompanhada de uma marca histórica: 49.405 torcedores no MorumBIS, estabelecendo o novo recorde absoluto de público de uma partida de futebol feminino entre clubes na América do Sul e transformando a tarde decisiva em um marco de ocupação e celebração da modalidade.
O destaque da noite foi a goleira Carlinha que, após falhar no gol de empate do Corinthians ainda no primeiro tempo, entregou uma performance de gala para os quase 50 mil torcedores presentes, com direito a pênalti defendido e escapadas espertas para defender de fora da área.
2. A derrocada do Corinthians e o trabalho aquém de Emily Lima
Pela primeira vez em sete anos, a hegemonia das Brabas ruiu no cenário nacional. Mais do que a perda da taça na grande decisão, o enredo passou diretamente pela área técnica. A comandante Emily Lima não conseguiu fazer a equipe atingir a mesma fluidez e intensidade que marcaram as eras anteriores do time. Sob sua liderança, o Corinthians oscilou em momentos-chave, teve atuações burocráticas no mata-mata e entregou um rendimento tático claramente aquém da expectativa gerada pelo peso e pela qualidade do elenco.
Emily Lima se mostrou muito vocal nos bastidores ao reclamar do tempo de descanso que as Brabas teriam entre a semifinal e o jogo de ida da decisão, além de falar constantemente da arbitragem. O clima de “contra tudo e contra todos” como motivação que se criou ao redor do elenco, no entanto, não superou as limitações técnicas impostas pelas escolhas táticas da própria treinadora.
O Corinthians foi derrotado na NeoQuímica Arena pela primeira vez na história e foi insuficiente para reverter o resultado no jogo de volta. Gabi Zanotti, estrela e camisa 10 do time, disse em entrevista que não se pode falar em quebra de hegemonia até que outra equipe chegue a 10 finais seguidas e vença cinco títulos de Libertadores.

Gabi Zanotti, a veterana referência do Corinthians . Foto: ©Rodrigo Gazzanel / Ag. Corinthians
- A ascensão do Bahia e o paredão Yanne contra Bia Zaneratto
A grande surpresa competitiva da Série A1 foi o Bahia, que quebrou barreiras ao ser a primeira equipe nordestina a alcançar a semifinal desde a reestruturação do futebol feminino. O ponto alto dessa caminhada foi a eliminação do Palmeiras nas quartas de final, com contornos dramáticos: a vice-artilheira do campeonato, Bia Zaneratto, teve a bola decisiva nos pés em uma cobrança de pênalti e parou na goleira Yanne. O lance consolidou a arqueira tricolor como um dos maiores destaques individuais do torneio e carimbou a afirmação do projeto baiano entre as potências do país.
Yanne tem 23 anos e é natural de Salvador, Bahia e cria da base do Vitória. Foi grande destaque na base da Ferroviária e voltou ao estado natal para defender as cores do Bahia em 2024. Na temporada de 2026, aparece pelo menos no top 5 das principais estatísticas para goleiras, sendo o primeiro lugar em defesas por jogo – 1.10 – e defesas dentro da área – 12. A goleira tricolor coroou a grande fase na carreira ao ser chamada pelo técnico Arthur Elias para a seleção brasileira principal, integrando o grupo convocado para os amistosos contra a Argentina que serão disputados no Rio Grande do Sul e em Pernambuco.
4. A frustração do trio mineiro
O futebol de Minas Gerais desembarcou na Série A1 com três representantes e a expectativa de pelo menos um brigar forte na parte de cima da tabela, mas o desfecho da temporada reservou um roteiro amargo e desfechos acidentados para todos eles:
- O Cruzeiro teve a artilheira máxima da competição, Marília. No entanto, o brilho da sua goleadora esbarrou na falta de consistência coletiva do restante do elenco. O time oscilou contra adversários diretos no G-8 e acabou caindo de forma precoce logo nas quartas de final, sendo amplamente superado pelo Corinthians com um pesado 4 a 1 no placar agregado.
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Marília, artilheira do Brasileirão pelo Cruzeiro (Gustavo Martins/Cruzeiro)
- O Atlético viveu um dos anos mais tensos e instáveis de sua trajetória na modalidade. Com dificuldades crônicas no sistema defensivo, elenco enxuto e baixa pontuação ao longo das rodadas, as Vingadoras passaram a competição inteira na corda bamba e muito distantes da disputa pela classificação. O time fechou a primeira fase na 13ª colocação, assegurando a permanência na Série A1, mas deixando um evidente sinal de alerta sobre a competitividade do projeto.
- O América passou a fase classificatória em estado de alerta. As Spartanas sofreram com a irregularidade ofensiva, dependendo quase só de Dani Ortolan na frente, e perderam pontos cruciais em confrontos diretos. Se a vaga na elite ficou garantida no saldo de gols, o mérito foi também da goleira Sandy. Eleita a segunda melhor da posição no campeonato, ela fez defesas milagrosas, evitou goleadas maiores e foi a responsável direta pela permanência na Série A1.
5. A sobrevivência improvável do Tigrão
Apontado por quase todas as análises pré-torneio como um dos principais candidatos ao descenso, o Mixto-MT protagonizou uma das trajetórias de maior resiliência da temporada. A equipe cuiabana competiu no limite físico em cada confronto e construiu a permanência buscando pontos vitais fora de casa contra adversários diretos, como o importante triunfo diante do Juventude.
O ato final dessa batalha foi um teste de nervos: na rodada derradeira, encarando um time misto do São Paulo em pleno MorumBis, o Mixto viu as donas da casa abrirem o placar, mas foi extremamente guerreiro ao suportar o abafa tricolor com linhas baixas e escapes espertos. Mesmo saindo derrotado por 1 a 0, segurar a vantagem mínima foi decisivo para preservar o saldo de gols, fechar a competição em 14º lugar com 12 pontos e carimbar a permanência na elite da Série A1.
Os times que acabaram caindo para a Série A2 foram o Vitória, em 17° lugar com 7 pontos, e o Botafogo, na lanterna, com 5 pontos.
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[Bônus] Série A2: o rolo compressor do Vasco da Gama
Se a A1 teve emoção contra a degola, a Série A2 foi dominada de ponta a ponta pelas Meninas da Colina. O Vasco foi o grande destaque do ano no acesso: manteve uma sequência invicta devastadora na fase de grupos (com direito a goleadas como 8 a 0 no Itacoatiara), atropelou o Atlético Piauiense na semifinal com um implacável 8 a 1 no agregado e confirmou o título nacional em São Januário sobre o Itabirito-MG. Uma campanha incontestável que recoloca o Cruzmaltino na elite nacional de 2027 com moral e projeto fortalecido.
Toda a filosofia do Gigante da Colina nesta Série A2 foi se reencontrar com as suas origens para poder retornar ao topo. Tendo Pretinha, ídolo da instituição, como embaixadora da base vascaína, o clube decidiu relembrar grandes personagens de seu passado para formar uma estrutura sólida junto às novas meninas que defendem o Cruzmaltino.







