Lionel Messi fará seu último jogo pela Argentina nesta terça-feira, 6 de outubro, em amistoso contra Benin no Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, com ingressos esgotados. Assim chegará ao fim uma trajetória gloriosa, que, para muitos, fez o camisa 10 alcançar o que parecia impossível: superar Diego Armando Maradona como o maior ídolo argentino.
Pela seleção principal, Messi somou 125 gols e 65 assistências em 207 partidas, que fazem dele o recordista em todos os quesitos. Campeão do mundo em 2022 e vice em 2014 e 2026, La Pulga ainda detém os títulos das Copas América de 2021 e 2024, Finalíssima 2021, além da Olimpíada de Pequim-2008.
Em recente eleição de PLACAR, Messi já superou Maradona. A edição de março de 2026 elegeu os 100 Maiores Jogadores de Todos os Tempos, em uma votação com 40 jornalistas brasileiros e estrangeiros.
A coroa seguiu com Pelé, que se despediu da seleção brasileira 55 anos antes de Messi, mas Messi superou Maradona antes mesmo do vice na Copa de 2026, em uma disputa parelha, que terminou em 150 pontos a 149 a favor de Dieguito, contando apenas os votos de estrangeiros, e em 198 a 175 a favor de La Pulga entre os brasileiros.
“Messi combina a genialidade natural de Maradona com um profissionalismo implacável e uma inteligência tática adequada ao futebol moderno”, avaliou o jornalista inglês Nizaar Kinsella. “Dieguito foi o maior ídolo da história do esporte, ninguém foi tão amado. Em Nápoles e na Argentina, você sente no ar a gratidão das pessoas por ele”, considerou Mauro Cezar Pereira.
O argentino Diego Borinsky acredita que a longevidade fez de Messi ligeiramente superior a seu antecessor: “Nunca vi alguém fazer o que ele fez com a bola com tamanha velocidade, em tão pouco espaço e por tanto tempo”.
A edição 1533 de PLACAR, já pode ser adquirida em versão digital em nosso app e física nas bancas de todo o país e em nossa loja no Mercado Livre.
Confira, abaixo, os perfis de Messi e Maradona na edição.
GÊNIO ABSOLUTO
Por: Luiz Felipe Castro
Em tempos de uso desenfreado da inteligência artificial, em que nos vemos obrigados a duvidar da autenticidade de tudo que surge em nossas telas, vídeos antigos de um garotinho canhoto de uniforme vermelho e preto, enfileirando marcadores em campos surrados, causam ainda mais espanto: será mesmo que Messi já nasceu craque? Aparentemente, sim. Seja no Grandoli, equipe amadora de Rosário, seja nas categorias inferiores do Newell’s Old Boys, time do coração da família, em La Masia ou na final da Copa do Mundo, a bola sempre esteve grudada ao pé esquerdo do garoto batizado em homenagem ao cantor americano Lionel Richie. É dom puro, uma graça divina que quase foi desperdiçada.
Aos nove anos, Messi descobriu uma deficiência na produção de hormônios do crescimento, cujo tratamento tinha custo elevado. Chegou a barbarizar em testes no River Plate, mas o gigante de Buenos Aires não se dispôs a bancar as necessidades do craque-mirim. Foi aí que entrou o Barcelona. Na Catalunha, Messi teve o acompanhamento necessário e virou um gênio. Não cresceu tanto assim (1,70 m), mas, com tamanho talento, estava destinado à glória. Recebeu convite para defender a Espanha, mas foi enfático: “soy argentino”. Teve a sorte de ter Ronaldinho Gaúcho, no auge, como seu mentor, e superaria seu mestre brasileiro em tudo, especialmente em efetividade e longevidade. De perfil discreto, formou uma bela família com seu amor de infância, Antonella, e se tornou uma unanimidade, basicamente pelo que falou… com os pés. Messi tem quase 900 gols, mais de 400 assistências e 46 títulos, um recorde. É o maior ídolo e artilheiro (672 gols) do Barcelona. A cada tento, ergueu as mãos para o céu em agradecimento à avó Célia, a maior incentivadora, morta em 1998.
Lionel Messi, craque da Argentina campeã da Copa do Mundo de 2022 - AFA / Divulgação
O que faz de Messi um real candidato ao trono, no entanto, não consta em planilhas de Excel. São os passes de primeira, o milésimo de segundo de que La Pulga precisa para observar a movimentação do companheiro e deixá-lo na cara do gol, a facilidade de mapear todos os 8 250 m² do campo. O gênio de Rosário enxerga coisas de que não somos capazes, nem de camarote, com replay em câmera lenta. É por isso que pode se dar ao luxo de caminhar pelo gramado, já preparando o golpe seguinte. Na Copa do Mundo, Messi mostrou uma nova faceta, mais sanguínea, provocadora… argentina. Deixou tontos com sua magia até mesmo os melhores e mais jovens defensores, como o croata Gvardiol. E, com apoio até de brasileiros, levantou a tão sonhada taça que lhe escapara em outros quatro Mundiais. Um gênio absoluto e sem fronteiras.

UM DEUS HUMANO
Por: André Avelar
Maradona sobe no palco de uma boate e, desconfiado das câmeras, ainda que em uma época de poucos celulares no início dos anos 2000, canta “La Mano de Dios”. A música, famosa no pop argentino de Rodrigo, é a síntese da fé maradoniana. “Em uma vila nasceu / foi desejo de Deus / crescer e sobreviver.” Todos ali conhecem além da letra. A esposa Claudia e a filha Dalma se entreolham sabendo da catarse que se arrastaria de Buenos Aires a Barcelona, passando por Nápoles. A cena está no Maradona por Kusturica, do cineasta de Gato Preto, Gato Branco.
O eterno camisa 10 adapta a letra e não esconde os passes errados. “Imagine o jogador que eu teria sido se não fosse a cocaína”, diz Diego, pego no antidoping na Copa de 1994, nos EUA. Copa que vira em 1986, no México, a genialidade de um gol antológico – cósmico e de outro planeta, na narração de Victor Hugo Morales – e outro de mão contra os ingleses, no contexto pós-Malvinas. Vitória sobre a Alemanha na final e a carreira coroada. Em 1990, xingou os italianos que o vaiavam e quase levou o bi.
Maradona era a própria culpa e foi descrito como “o mais humano dos deuses” pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano. Capaz de fazer malabarismos com qualquer objeto esférico, somou 346 gols na carreira e criou uma legião de fãs no Boca, no Barcelona e, sobretudo, pôs o Napoli no mapa. Pode não ter sido o maior, mas foi o mais amado dos craques. Mesmo após a sua morte por insuficiência cardíaca e respiratória, devotos cantam: “Seu sonho tinha uma estrela / cheio de gols e dribles / Maradona”.

Carta ao Leitor: É claro que tem debate

De forma espirituosa, com a genialidade de sempre, Pelé costumava responder assim a quem ousasse compará-lo a um argentino: “Primeiro eles têm de decidir quem é o melhor entre eles, se Di Stéfano, Sívori, Maradona ou Messi, para depois tentar competir comigo”. Só que a briga entre os hermanos parece ter sido resolvida e, gostemos ou não, o debate deixou de ser heresia, se é que um dia foi, depois da Copa do Catar, quando Lionel Messi implodiu o único senão de sua carreira. É craque, gênio, multirrecordista… e campeão do mundo. Pelé, Messi, Maradona, Cruyff, Cristiano Ronaldo e outras feras sentam-se à mesa que bem entenderem. Ofereçamos, então, um delicioso papo de boteco.
Nossa redação se deu conta, em um habitual passeio pelos 56 anos de acervo, de que já era hora de mexer nesse vespeiro e renovar nossa lista de maiorais. A última grande eleição do tipo havia sido em 1999, quando elencamos os 100 Craques do Século. Daquela vez, os jornalistas da casa debateram entre si para chegar ao veredito final. Repetimos a dose em 2026, capitaneados por Rodolfo Rodrigues, que elaborou uma lista larga com cerca de 150 nomes, levantou as estatísticas e comprou boas brigas com os colegas até fecharmos a relação centenária. Mas o top 10 merecia um júri mais amplo.
Ouvimos 40 jornalistas, da casa e de fora, brasileiros e estrangeiros, até chegar à seleção que você tem em mãos. Alguns deles visitaram o estúdio da PLACAR TV, em São Paulo, e gravaram seus depoimentos em vídeo. Os papos comandados pelo repórter André Avelar estarão disponíveis no YouTube e em nossas outras redes sociais ao longo deste mês. “Dá até dor na consciência por deixar alguns nomes de fora. É o que sempre digo: antes de reclamar das ausências, pense em quem você tiraria do meu time para colocar quem você quer. Não há espaço para todos”, diz Celso Unzelte, um dos editores da edição de 1999.
“Minha lista mudou bastante, e fico até surpreso comigo mesmo por ter conseguido admitir personagens novos em meu coração”, complementa Sérgio Xavier Filho, o diretor de redação da época. Vinte e sete anos atrás, o perfil de Pelé, o número 1, questionava: “Alguém tem alguma dúvida?”. A revista esportiva do Brasil começou a pensar no caso em uma corajosa edição de maio de 2012, cuja chamada de capa, “duelo dos deuses”, era acompanhada da constatação: “Pela primeira vez na história surge um jogador cujos feitos tornam possível uma comparação com Pelé”. Naquele tempo, Messi estava bem distante do Rei em todas as estatísticas. Mas seu nível de jogo não parava de subir e, como previu PLACAR, La Pulga teve uma trajetória mais longeva. A estimativa era de que o então ídolo do Barcelona pudesse alcançar o maior de todos em gols oficiais aos 37 anos. Pois ele o fez aos 34.
“Não concordo com essa coisa de que em Pelé não se mexe, que não podemos comparar com ninguém. Na Argentina, faziam o mesmo com Maradona. Não devemos tapar os olhos e ouvidos para essa discussão”, avaliou Gian Oddi, autor da reportagem de 2012. “Estamos falando de jogadores de futebol, não de deuses ou mitos, ainda que a mitificação de alguns nomes seja importante nesse debate. Realmente acredito que exista uma briga parelha”, completa o ex-placariano, mais um dos 40 eleitores. “Pelé é o número 1, sem dúvida nenhuma, e topo
qualquer briga com quem disser o contrário”, discorda Sérgio Xavier. 7
Todos concordam, porém, que interditar o debate não é o caminho mais inteligente. Pelé, que pendurou as chuteiras em Nova York, 26 anos antes da estreia do argentino pelo Barça, não é mais unanimidade, haja vista as recentes listas mundo afora. A revista britânica Four Four Two causou controvérsia em 2022 ao colocar o Rei em quarto lugar, com Messi, Maradona e CR7 no pódio. A presença de George Best em sétimo (alerta de spoiler: na nossa, o norte-irlandês foi o 25º) escancara que doses de protecionismo e imediatismo são inevitáveis.

No ano seguinte, a FFT refez suas contas, mas manteve o ídolo do Santos atrás de Messi, em segundo. A Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS) soltou sua lista em 2025, na mesma ordem. Até para preservar o legado real, precisamos falar sobre – e contextualizar devidamente – os feitos de Pelé, que fez tudo que os outros gênios fizeram, só que antes e mais vezes.
Há outros 98 nomes passíveis de discussão nas próximas páginas, sem falar em quem ficou de fora. Tentamos mesclar épocas, posições, estilos e nacionalidades e fazer justiça à biografia de ídolos, com estatísticas e curiosidades. Da última vez, Sérgio Xavier sofreu com as “cartas-bombas” que chegaram à redação para protestar contra nossas escolhas: “É impossível satisfazer a todos nesse tipo de edição”.
Desta vez, o guichê de reclamações está aberto nas mais variadas plataformas de PLACAR. Curta essa viagem no tempo nas próximas páginas, concordando ou discordando à vontade. O debate é sempre bem-vindo.











