O futebol, também como a vida, é saber conviver com o imponderável, com o que não se consegue prever ou calcular. Nada mais justo assumir, então, que as histórias que permeiam esse ambiente também fujam ao controle humano. Memphis Depay, quando em sua carreira musical paralela à de jogador lançou a música “2 Corinthians 5:7” jamais poderia imaginar que o triunfo por 1 a 0 sobre o Rosario Central na noite desta quinta-feira, 20, aconteceria como foi.

A canção, lançada enquanto o holandês ainda era jogador do Lyon, foi batizada com o versículo da bíblia 2 Coríntios 5:7. “Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos”, diz o trecho, que sem muito exagero, pode relatar a experiência dos milhões de corintianos durante a classificação sobre o Rosario Central, a sexta em uma fase oitavas de final da Copa Libertadores da América.

O misticismo é sustentado também pela coincidência semântica entre o nome do livro Corinthians (Coríntios, na versão brasileira) e o clube Sport Club Corinthians Paulista. Mas chega, num salto temporal, em como o badalado Memphis mudou a semana, e talvez o ano, do Timão.

A forma com que voltou, sem jamais ter ido, numa novela absurda envolvendo sua renovação, transformou o ambiente alvinegro para a decisão diante do adversário argentino. Apto para jogar, mobilizou até mesmo a vestimenta dos mais de 46.000 torcedores que estiveram na Neo Química Arena. Da linha vermelha do Metrô de São Paulo às arquibancadas luxuosas do estádio, camisas com o nome e o número do atacante não faltaram. Sua famosa faixa na testa também adornou a cabeça de muitas crianças, crentes na capacidade decisiva do jogador.

Nesta quinta, aliás, Memphis estreou uma faixa com a estampa do momento em que subiu na bola na final do Paulistão de 2025 em que o Corinthians tirou o que seria o tetra do Palmeiras e encerrou um jejum de seis anos. Destes momentos que eternizam um ídolo.

ogadores do Corinthians comemoram a classificação contra o Rosario Central pela Libertadores (EFE/ Sebastiao Moreira)

Jogadores do Corinthians comemoram a classificação contra o Rosario Central pela Libertadores (EFE/ Sebastiao Moreira)

O toque decisivo de Memphis

Depay não começou a partida como titular. Sem ritmo de jogo, sem entrar em campo desde seus raros (e ruins) momentos pela seleção da Holanda na Copa do Mundo, o camisa 10 foi escalado como a “carta na manga” de Fernando Diniz. Talvez tenha errado, porque nenhum dos outros atacantes pôde desentalar o grito do torcedor no primeiro tempo.

A cada domínio errado de Pedro Raul, o torcedor do Corinthians se desperava. A cada perda de bola de Kaio César, a saudade de Memphis invadia o peito daqueles que fizeram Itaquera tremer no primeiro “Porópopó”. Na expulsão de Raniele, punido por mostrar os cravos de sua chuteira para as pernas de Enzo Copetti, nem mesmo a Fiel Torcida conseguiu subir o som.

Mas quando o holandês, durante a parada para hidratação, tirou seu colete e se aproximou do técnico para receber suas instruções, toda angústia valeu a pena. O corintiano, mais do que nunca e como sempre, viveu pela fé, e não pelo que via.

Tudo estava guardado para os minutos que aproximariam do olimpo alvinegro o atleta nascido na pequena cidade de Moordrecht. Ele substituiu Pedro Raul, tão logo transformou o clima do estádio e, em campo, entregou mais mobilidade ao setor ofensivo.

Entregou também confiança, bola no pé e domínio. Capacidade de reter a bola. E consciência de como a tratar em determinados momentos. No minuto 35 do segundo tempo, protagonista, não negou a responsabilidade de cobrar uma falta do lado esquerdo, na altura da intermediária. Partiu para a bola, bateu forte, em meia altura, perfeita para um leve desvio de Breno Bidon.

Breno Bidon marca gol da vitória do Corinthians sobre o Rosario Central - Sebastiao Moreira/EFE

Breno Bidon marca gol da vitória do Corinthians sobre o Rosario Central – Sebastiao Moreira/EFE

No fundo das redes a bola, no mais alto volume o estádio. No peito de Memphis Depay, o senso de urgência, da possibilidade de chutar para o alto uma bola apenas para deixar o tempo agir. Abdicando do jogo bonito, por entender que para o Corinthians, não há nada mais belo do que o orgulho de voltar a brigar pela América.

O ídolo desafiou até mesmo o batido roteiro do Timão na Libertadores. O excesso de vontade, o jogo amarrado, a expulsão tola. Tudo remetia aos momentos mais traumáticos para o torcedor, às eliminações tristes, aos anos de espera até a primeira taça, em 2012.

Mas Memphis ficou, ainda que o caos financeiro exigisse o contrário. Bateu o pé, engoliu sapos e aceitou viver o imponderável com o Corinthians, aquele que escolheu torcer. Entregou louros, autoestima e glória. Já é eterno no Parque São Jorge, em Itaquera, pelos três títulos conquistados e muitos outros fatores que as estatísticas não explicam. E agora, também, no curso de um rio que pode desaguar em Montevidéu, dia 28 de novembro de 2026.

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