Há na cartilha de La Masia, o famoso centro de formação de jovens talentos do Barcelona, premissas consideradas inegociáveis. A maior delas, sem dúvida, envolve a posse de bola.
A regra por lá é aparentemente simples: o elemento central do futebol não deve ser lançado à frente sem critério. O time avança em blocos, sempre mantendo as linhas e os jogadores próximos e, com isso, controla a todo o instante o ritmo do jogo.

Lionel Messi conhece como poucos a escola que fez do clube catalão uma referência, com times históricos, como o do tiki-taka liderado por ele em campo e comandado por Pep Guardiola entre 2008 e 2012, vencendo 13 títulos.
Formado pelo Barça desde os 13 anos, quando encontrou na Catalunha o tratamento para uma deficiência de crescimento, com aplicações diárias de hormônio de crescimento sintético, mantido por vários anos até chegar ao profissional, Messi aprendeu como poucos os segredos da escola que liderou ao lado de Xavi Hernández, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, Jordi Alba, Cesc Fábregas e tantos outros.
Neste domingo, 19, no MetLife Stadium, naquele que pode ser considerado o seu “último tango” em Copas do Mundo, acabou por provar do próprio veneno. Na derrota por 1 a 0 na prorrogação da final da Copa do Mundo 2026, Messi mal viu a bola.
“Ilhado” em meio ao exército vermelho de espanhóis, que com menos de dez minutos de jogo já tinham exatamente o dobro do número de passes trocados pelos argentinos, o camisa 10 parecia assistir, como um espectador de luxo, ao sucesso da escola que o fez por tantas vezes o Bola de Ouro.
Foram apenas seis toques na bola nos primeiros 25 minutos, a pausa do coolling break – a pior marca em todos os 33 jogos em que ele iniciou em Mundiais. Messi, que sempre enfileirou adversários, foi protagonista em tabelas, desta vez só assistia.
Até este domingo, seu pior registro havia acontecido em um jogo contra a Bélgica, pelas quartas de final do Mundial disputado no Brasil. Apesar da vitória, Messi esteve “sumido” no início da partida.
Em se tratando de finais, contra a Alemanha, em 2014, Messi finalizou quatro vezes e passou em branco. No Catar, foram cinco diante dos franceses, com dois gols marcados. Mas diante dos espanhóis, nem sequer foi possível uma tentativa.
É justo dizer que não se trata só de Messi. A Argentina de Lionel Scaloni se viu completamente envolvida pelo rival desde o primeiro minuto de jogo – forçando o goleiro Dibu Martínez a realizar uma série de defesas importantes, evitando a derrota nos 90 minutos. Foram somente duas finalizações – ambas no último tempo da prorrogação – contra vinte dos campeões, que ainda teve dois gols anulados.

Messi extenuado no gramado do MetLife Stadium, em Nova Jersey – Ronald Wittek/EFE
Segundo estatísticas do Sofascore, a única tentativa a gol dele foi travada. Messi ainda teve 54 ações com a bola, acertando os três dribles que tentou, perdendo a bola em 16 oportunidades.
A despedida de Messi não saiu como o planejado, mas também não apaga a melhor versão do genial camisa 10 aos 39 anos.
Pela primeira vez na competição em que quebrou recordes em série ele se viu com presa fácil, sem conseguir ajudar. Em todos os outros sete jogos, havia participado ou com gol ou assistência – foram oito bolas na rede e quatro passes decisivos. E, claro, momentos sublimes.
O choro ao fim da partida sinaliza que Messi provavelmente finda nos Estados Unidos uma era gloriosa, com um legado gigantesco em Copas, tal qual foi a sua carreira pelos clubes. Sucumbir para os espanhóis – e para a escola que tão bem conhece – só prova que os gênios também são de carne e osso. Apesar de por muitas vezes não parecer.









