Mikel Oyarzabal nem de longe figurava entre as estrelas da seleção da Espanha antes do início desta Copa do Mundo. Muito pelo contrário.

Na surpreendente estreia espanhola na competição, o empate sem gols contra Cabo Verde, o jogador da Real Sociedad virou o alvo favorito dos críticos por conta de um recorde negativo, um tanto quanto curioso: o de ser o primeiro atleta, desde 1966, a não tocar na bola durante os primeiros 30 minutos de jogo. A observação foi feita pelo site de estatísticas Opta e alcunhada pelo jornal espanhol Marca de “modo fantasma”. Ele nada justificou.

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Bancado como titular pelo técnico Luis de la Fuente para a partida seguinte, diante da Arábia Saudita, seis dias depois, o atacante de 29 anos precisou de apenas 24 minutos para mostrar por que é tão respeitado pelo treinador e pelos companheiros de equipe. Marcou dois gols e deu uma assistência para Lamine Yamal no período e nem voltou para o segundo tempo, preservado para a entrada de Ferran Torres.

“Oyarzabal é um grande entre os grandes. Finalmente, estamos começando a reconhecê-lo na Espanha, meu Deus”, disse o comandante espanhol. Até ali, o camisa 21 havia marcado 15 vezes nas últimas 15 aparições pelo país. Mesmo assim, ainda bem pouco reconhecido.

Jogador foi das críticas na estreia ao modo decisivo a partir do segundo jogo - Lavandeira Jr/EFEJogador foi das críticas na estreia ao modo decisivo a partir do segundo jogo - Lavandeira Jr/EFE

Jogador foi das críticas na estreia ao modo decisivo a partir do segundo jogo – Lavandeira Jr/EFE

“Ele é alguém muito inteligente e isso se reflete em seu jogo, em sua interpretação da partida. É um dos melhores jogadores entre as quatro linhas. Poucos jogadores entendem de futebol como ele”, elogiou De la Fuente.

Neste domingo, 19, a partir das 16h (de Brasília), no MetLife Stadium, enquanto os olhares estarão atentos à disputa entre os craques Lionel Messi, da Argentina, e Lamine Yamal, jovem astro espanhol, Oyarzabal surge novamente como candidato a boa surpresa.

“Ele tem um perfil muito discreto no início, sendo reserva do Morata ou de qualquer outro atacante por muito tempo, mas teve o seu talento notado porque, como diz o próprio De la Fuente, é um jogador que entende o jogo perfeitamente. Acho que a maior virtude que ele tem é a leitura das partidas, dos momentos, dos movimentos, das defesas. Talvez não seja tão brilhante esteticamente e esteja longe de ser uma superestrela, mas se encaixa muito bem com o resto da equipe porque ele melhora os outros com seus movimentos e com sua maneira de tabelar e se associar com eles”, analisou à PLACAR o jornalista Aritz Gabilondo, redator-chefe do jornal AS.

Judô, natação e carreira universitária

Nascido em Eibar, pequeno município espanhol de cerca de 30 mil habitantes localizado no País Basco – região entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França -, o jogador teve boa parte da infância longe do futebol.

Por influência do pai, praticou judô e natação antes de chegar às categorias de base do clube que leva o mesmo nome da cidade. Aos 15, foi para a Real Sociedad para iniciar uma relação de amor que já dura mais de uma década.

Jovem, meio-campista durante a sua primeira temporada como profissional - Gorka Estrada/EFE

Jovem, meio-campista durante a sua primeira temporada como profissional – Gorka Estrada/EFE

“A verdade é que ele é um líder absoluto dentro do clube. Desde muito jovem ele era, digamos, chamado de ‘o escolhido’. Estreou muito novo na Sociedad, o que é um pouco incomum porque o clube costuma lapidar seus talentos com bastante calma, mas ele já era muito maduro. E teve, até aqui, uma carreira que eu acho que já é histórica na Real Sociedad”, afirmou Gabilondo.

Oyarzabal estreou com a camisa txuri-urdin (azul e branco no idioma basco) na temporada 2015/16, depois de apenas 13 partidas pelo time B. Firmou-se rapidamente. Ao final da temporada já era titular absoluto, condição que mantém até hoje. Curiosamente, ele dividiu o início da carreira no futebol com a acadêmica, já que cursou Administração e Direção de Empresas pela Universidad de Deusto. A formação veio durante o período da Covid-19.

City? Barcelona? ‘Não, obrigado’

Destaque e capitão da Sociedad, foi a partir da temporada 2017/18 que o jogador passou a chamar a atenção de outros clubes pela facilidade em marcar gols, e também de organizar e entender o jogo. Barcelona e Manchester City surgiram como os principais candidatos a levá-lo.

Só nos últimos anos, o clube faturou alto com a venda de astros como Alexander Isak (Newcastle), Robin le Normand (Atlético de Madrid), Álvaro Odriozola (Real Madrid), Iñigo Martínez (Athletic Bilbao), Asier Illarramendi (Real Madrid), Diego Llorente (Leeds) e Mikel Merino (Newcastle), mas Oyarzabal preferiu ficar.

De perfil discreto, e até incomum no futebol atual, Oyarzabal vive longe dos holofotes - Lavandeira Jr/EFE

De perfil discreto, e até incomum no futebol atual, Oyarzabal vive longe dos holofotes – Lavandeira Jr/EFE

“Dá para dizer não ao Barcelona? Sim, dá. Claro que dá. Outros jogadores já o fizeram”, explicou o próprio Oyarzabal ao programa espanhol El Chiringuito. “Estou muito feliz em San Sebastián. Considero a Real Sociedad a minha casa. É um lugar onde posso viver a vida que quero, junto das pessoas mais próximas. Sempre disse que estou exatamente onde quero estar”, completou.

Essa forte ligação com a terra natal reflete a identidade do País Basco. Assim como na Catalunha, os movimentos nacionalistas na região ganharam força durante a ditadura franquista (1939 a 1975) e arrefeceram com o cessar-fogo permanente proclamado pelo grupo ETA em 2011. Os dois maiores clubes locais, Athletic Bilbao e Real Sociedad, são conhecidos reveladores de joias. Além de Oyarzabal, outros cinco nomes do elenco espanhol vieram da região: o goleiro Unai Simon, Merino, Nico Williams, Aymeric Laporte e Zubimendi.

Frustração e a lesão que o moldou

Convocado pela primeira vez para a seleção espanhola em maio de 2016, com Vicente del Bosque, Oyarzabal só voltaria a ser chamado em 2019, com Robert Moreno, e passou a ganhar mais espaço durante a passagem de Luis Enrique pelo comando do país.

Nome certo para a Copa do Mundo do Catar, uma grave lesão no joelho esquerdo – rompeu o ligamento cruzado anterior – sofrida em março de 2022 tirou do jogador a possibilidade de ser convocado para a competição disputada no final daquele ano. O problema ainda moldou para sempre a sua forma de jogar.

“No início, Oyarzabal tinha um perfil diferente do que vemos agora: jogava mais aberto pela ponta, com mais velocidade e mais drible. Essa lesão, que para muitos jogadores pode ser definitiva, o transformou. Fez dele um jogador que atua mais como centroavante, que entende muito melhor o jogo de costas para o gol e que continua aproveitando o faro que tem perto da área”, explicou o jornalista Aritz Gabilondo.

Camisa 10, capitão e craque da Sociedad, a única camisa que vestiu em toda a carreira - Juan Herrero/EFE

Camisa 10, capitão e craque da Sociedad, a única camisa que vestiu em toda a carreira – Juan Herrero/EFE

De volta no ciclo pós-Copa, com Luis de la Fuente, o jogador passou a ganhar uma função maior de protagonismo. Na decisão da Eurocopa, marcou um dos gols que deu aos espanhóis o título da competição na final contra a Inglaterra, no estádio Olímpico de Berlim, na Alemanha.

No entanto, quase viu novamente uma lesão comprometer a sua participação em um outro mundial. Desta vez, com um problema acusado em novembro do último ano nos isquiotibiais, grupo de três músculos na parte posterior da coxa esquerda. Retornou aos gramados em pouco mais de um mês.

Um jogador de decisão

Apesar das poucas finais na carreira, Oyarzabal pode ser tranquilamente chamado de “jogador de decisão”. O espanhol disputou duas Copas do Rei pela Real Sociedad, convertendo um pênalti em ambas as ocasiões. Pela Espanha, jogou duas finais de Nations League, uma de Euro e também esteve na decisão dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, marcando gols em todas as quatro.

Se balançar as redes de novo nesta Copa, ele ainda superaria a marca que antes era dividida por Emilio Butragueño e David Villa, que marcaram cinco gols cada nas edições de 1986 e de 2010, respectivamente. Com os gols anotados ao longo do torneio, ele soma cinco em sete partidas, igualando o recorde histórico.

“É um atacante que, como já aconteceu em outros casos de grandes times campeões, não tem tanto nome, mas no fim das contas é mais importante do que as pessoas pensam, com e sem a bola. Além disso, está marcando gols, então é uma aposta que deu muito certo. Houve um certo debate na Espanha no início porque as pessoas achavam que ter um atacante da Real Sociedad como o camisa 9 era quase uma ofensa, mas pelo que ele fez primeiro na Real, ganhando duas Copas do Rei e colocando o time na Champions League, e, acima de tudo, com a seleção, encerrou qualquer debate”, concluiu Gabilondo.

Se repetir o roteiro, a única resposta possível que Oyarzabal dará será com as mãos: um “M”, forma como comemorou o gol diante da França homenageando o filho Martin, de três anos. O jogador será pai de mais uma criança em breve, a gravidez foi anunciada pela esposa Ainhoa Larrauri durante a competição.

Em Dallas, Oyarzabal homenageou o filho Martin no gol que abriu caminho para a vitória sobre os franceses - Lavandeira Jr

Em Dallas, Oyarzabal homenageou o filho Martin no gol que abriu caminho para a vitória sobre os franceses – Lavandeira Jr

Fora isso, Mikel Oyarzabal seguirá o mesmo: deixará que a bola — e o alto QI futebolístico — fale por ele.

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