Na terra de Joan Miró, Antoni Gaudí e Salvador Dalí, outro gênio, este da bola e nascido na longínqua Rosário, vem dominando as conversas entre amigos e familiares na Catalunha. O destino foi caprichoso com Lionel Messi. O craque que chegou a Barcelona aos 13 anos para se tornar o maior artilheiro e ídolo da história do clube culé, vai em busca do bicampeonato da Copa do Mundo com a Argentina, aos 39 anos, no próximo domingo, 19, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, justamente contra a Espanha. O que levanta o debate: para quem os catalães vão torcer?

Não há resposta unânime para uma questão com tantas nuances. Mais do que a adoração por Messi, o que realmente pesa é o fato de a Catalunha ser uma comunidade autônoma, com cultura e idioma (catalão) próprios, da qual boa parte da população defende a independência do Reino da Espanha (ler mais abaixo).

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Em 2026, o caso ganhou novo condimento: a presença de nada menos que oito jogadores do Barcelona no elenco espanhol. São eles: Joan García, Eric García, Marc Cucurella, Pau Cubarsí, Grimaldo, Gavi, Dani Olmo e o astro Lamine Yamal. Até mesmo o único jogador do rival Real Madrid (Cucurella, recém-contratado junto ao Chelsea) é catalão e cria de La Masia, a famosa categoria de base blaugrana.

PLACAR ouviu catalães, que divergiram de opinião e detalharam curiosas camadas deste debate.

Para quem os catalães vão torcer?

Uma coisa é certa: há muitos catalães torcendo pela Espanha. A ciência comprova. Durante a semifinal contra a França, foram sentidos abalos sísmicos na região de Sabadell, na grande Barcelona, de acordo com o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC). O sismógrafo apontou três picos perceptíveis que coincidem com o momento dos gols de Mikel Oyarzabal, Pedro Porro e do gol anulado de Lamine Yamal. 

“Não posso dizer como pensam todos os catalães, mas em geral creio que apoiarão a Espanha, pela presença de jogadores do Barça e pela ausência de jogadores do Real Madrid. Também é certo que a admiração do Messi é geral e que se a Argentina ganhar vai doer menos por isso“, afirma o jornalista e escritor Santi Giménez, com passagens por As, Sport e Diari de Barcelona, com direito a uma provocação. “Politicamente, a situação não anda tão tensa como em 2017, mas os independentistas irão até a morte com a Argentina… ainda que nunca tenham visto uma partida de futebol em sua vida.”

Marc Marba, jornalista do canal Rac1, diz viver em um ambiente dividido. “É controvertido, no grupo de amigos e família há muito debate sobre isso. Sou catalão, muito culé, sócio do Barça desde criança, e mesmo no meu entorno não é algo claro, nem todos vão torcer pela Espanha ou pela Argentina”, admite. “Eu diria que a maioria dos catalães vai torcer pela Espanha, porque a grande representação deste time é o Barça. Ou seja, não ligam nem para Espanha nem para Argentina, mas querem ver catalães campeões. Mas há, sim, gente tão anti-Espanha, que ainda assim, torcerá pela Argentina”

Pau Ramírez, jornalista e correspondente catalão no Brasil há 17 anos, confirma a ojeriza pela Roja. “A Catalunha está praticamente dividida entre independentistas e os que se sentem espanhóis. Boa parte sempre torce contra a Espanha, como é o caso de 90% da minha família e amigos. Pode ser que tenha diminuído um pouco com a justificativa de ter muitos jogadores do Barça, mas um independentista raramente muda de ideia“, explica.

“Sempre tem fogos de artifício quando a Espanha ganha e também quando perde. Há também gente que não liga, que não compreende essa paixão toda pelas competições de seleção”, prossegue Ramírez, antes de uma bem-humorada confissão. “Cheguei a torcer pela primeira vez pela Espanha nesta Copa, mas só contra Portugal, porque não queria ver o Cristiano Ronaldo ganhar.” Ele conta que nos últimos dias tem rodado em grupo de WhatsApp de amigos uma montagem em que Messi aparece com a camisa da Argentina, a bandeira “estelada” da Catalunha e a mensagem em catalão: “Faça também por nós”.

Há ainda casos como o de Albert Rodríguez, que nasceu no município Mataró, onde o novo astro espanhol Lamine Yamal cresceu, e vive há 13 no Brasil. Ele diz torcer pela Fúria nesta decisão meramente por gosto esportivo. “Me identifico mais com a seleção espanhola, mas não por me sentir espanhol. Sou catalão e independentista, além de ser torcedor e sócio do Barça e amar o Messi, mas o futebol da Espanha me atrai mais”, explica.

“Esse debate não é sobre o Messi, é algo mais político, mas não é porque sou catalão que eu não possa torcer por uma seleção, ainda mais quando ela está representada por oito jogadores do Barça. Uma coisa é o que queremos na política e outra é o gosto por futebol, e a Espanha está jogando muito bem”, completa Rodríguez, que trabalha em uma multinacional suíça em São Paulo.

Jair Domínguez, apresentador da TV3, chegou a dizer nesta semana que “quero que a Espanha perca sempre, ainda que jogue contra 11 criminosos de guerra”. “Quero que ganhe a Argentina, não por sentimentalismo com Messi, mas por praticidade. Só se pode ganhar desta ótima Espanha com uma faca nas mãos. E os mais chulos desta Copa são os argentinos”, disse. Em espanhol, o termo chulo pode ter diversos significados, positivos ou negativos, mas neste caso parece ter sido usado no sentido de malandragem.

Messi não é unanimidade na Catalunha

Os entrevistados apontaram outro fator que torna o debate ainda mais interessante. Apesar dos 34 títulos, 672 gols e infinitas noites memoráveis no Camp Nou, Messi não é tão admirado assim por todos os culés. “Há sócios do Barça que têm um pouco de mágoa por ele ter saído pedindo mais dinheiro. Essas pessoas, ainda que não queiram torcer para a Espanha, tampouco querem torcer por Messi, então é uma esquizofrenia total”, explica Marc Marba.

Cria das categorias de base do Newell’s Old Boys, de sua cidade natal Rosário, Messi chegou ao Barcelona em 2000, aos 13 anos, época em que necessitava de um tratamento hormonal para crescimento, uma ajuda que nenhum clube argentino se dispôs a pagar. Chegou a receber convites da seleção espanhola ainda adolescente, mas optou por seu país de nascimento e coração. Jamais abandonou o sotaque rosarino, muito menos o idioma castelhano.

“O Messi é muito criticado por algumas pessoas por ter passado mais de 20 anos em Barcelona e nunca ter aprendido um misero bom dia em catalão. Nunca quis se integrar realmente. Nem era sua obrigação, mas tem gente que não gosta dele por isso. Não é meu caso, eu vou com o Messi onde ele estiver, hoje sou torcedor do Inter Miami e da Argentina”, pondera Pau Ramírez.

Enquanto colegas catalães de nascimento como Gerard Piqué e o técnico Pep Guardiola sempre se mostraram favoráveis à realização dos referendos independentistas (apesar de terem defendido a seleção espanhola), Messi sempre se manteve alheio aos debates políticos na região ao norte da Espanha.

Messi chegou a enfrentar a seleção catalã, equipe não reconhecida pela Fifa (ler mais abaixo) em um amistoso pela seleção olímpica argentina, em 2008, no Camp Nou. Os visitantes venceram por 1 a 0, com gol de Ezequiel Lavezzi.

Messi no amistoso contra a seleção catalã em 2008 (EFE)

Messi no amistoso contra a seleção catalã em 2008 (EFE)

A Catalunha é independente?

Com 7,5 bilhões de habitantes, a Catalunha é uma das 17 chamadas comunidades autônomas da Espanha. Ou seja, possui um governo regional autônomo, mas ainda subordinado ao Estado da Espanha. Em outubro de 2017, a Catalunha realizou um referendo para saber se a população queria ou não se separar do reino. De acordo com as autoridade locais, 90% dos 2,6 milhões de cidadãos que foram às urnas votaram a favor da separação.

A Suprema Corte da Espanha, porém, tratou a eleição como uma violação à Constituição e a declarou ilegítima. Responsáveis do governo regional da Catalunha foram presos e o presidente do governo destituído, Carles Puigdemont, teve de se refugiar em Bruxelas, na Bélgica.

A última manifestação pela independência da Catalunha, que ocorre todo 11 de setembro, data conhecida como Diada, contou com 28.000 participantes, menos de metade dos 62.000 de 2024, de acordo com as fontes policiais, confirmando uma tendência de desmobilização. O sentimento independentista é mais presente nas cidades menores do que na capital Barcelona, repleta de turistas e imigrantes.

Gerard Piqué e o filho, Milan, na festa do Dia da Catalunha, em Barcelona

Gerard Piqué e o filho, Milan, na festa do Dia da Catalunha, em Barcelona

“A repressão que houve em 2017 foi muito forte na Justiça, com a prisão de políticos, ativistas e do presidente que teve de se exilar na Bélgica, então isso enfraqueceu a presença de independentistas nas ruas e no parlamento, mas ainda somos muitos”, diz Pau Ramírez, que faz outra ressalva em alto e bom portunhol. “É claro que o aumento de imigrantes e de seus filhos nascidos na Espanha fez crescer a torcida pela seleção, pois eles se sentem espanhóis, mas um catalão independentista quer que a Espanha se f… sempre.”

O movimento independentista nasce entre partido de esquerda, mas depois cresce junto à centro-direita e hoje até entre a extrema direita, com constantes ataques islamofóbicos e xenófobos. Desde agosto de 2024, a região é liderada pelo socialista Salvador Illa, e pela primeira vez em mais de 40 anos de democracia na Espanha, não há sequer um membro no governo regional catalão filiado a um partido separatista.

A seleção da Catalunha

A Catalunha é um dos casos mais emblemáticos entre seleções não filiadas à Fifa — e sua situação é marcada por conflito político, autonomia esportiva parcial e uma identidade nacional forte, mas sem reconhecimento internacional.

A Catalunha possui uma seleção regional, administrada pela Federació Catalana de Futbol (FCF), fundada em 1900. Ela organiza amistosos não-oficiais e partidas festivas, quase sempre contra seleções oficiais, como foi em contra o Brasil em duas ocasiões (2002 e 2004).

Apesar disso, a Catalunha não é filiada nem à Fifa nem à Uefa, o que significa que não disputa Eliminatórias nem torneios oficiais como Eurocopa ou Copa do Mundo.

Nos anos 2000, principalmente após 2010, a Federació Catalana e partidos catalães pressionaram por mais reconhecimento. Em 2004, por exemplo, a federação enviou pedido à Fifa e à Uefa para reconhecimento internacional, mas o pedido foi negado.

Seleção da Catalunha, em 2001, com Guardiola e Puyol na escalação - EFE/T.A./Toni Garriga.-

Seleção da Catalunha, em 2001, com Guardiola e Puyol na escalação – EFE/T.A./Toni Garriga.-

Em 2009, a Fifa chegou a permitir que a Catalunha jogasse amistosos com seleções filiadas. Foi uma exceção temporária e sem valor oficial, já que os jogos não contavam pontos no ranking.

Diversos estrelas catalãs, como Pep Guardiola, Xavi Hernández, Gerard Piqué e Cales Puyol, já atuaram pela seleção catalã e também pela espanhola (os três últimos foram campeões do mundo em 2010). Guardiola chegou a demonstrar arrependimento, enquanto Oleguer Presas, ex-lateral do Barça, é reconhecido na região por ter negado o convite do técnico Luís Aragonés.

“A presença de tantos catalães no elenco atual e no título de 2010 mostra o quanto somos fortes. Se a Catalunha tivesse uma seleção reconhecida pela Fifa, certamente disputaria o Mundial e iria muito mais longe que Escócia ou País de Gales (independentes do Reino Unido),”, diz Pau Ramírez, que lembra que, direta ou indiretamente, os atletas são induzidos a aceitar o convite da Espanha. De acordo com a legislação esportiva do reino, atletas que recusarem um chamado da Espanha sem apresentar uma justificativa razoável estão sujeitos a penalidades, desde multa até uma suspensão.

Situação semelhante acontece com o País Basco, região ao extremo norte da Espanha e no extremo sudoeste da França, cujas cidades mais conhecidas são Bilbao e San Sebastián. A seleção basca realiza alguns amistosos, e já contou com estrelas da seleção espanhola, como Xabi Alonso, novo técnico do Chelsea.

Os bascos, aliás, formam a base da atual seleção espanhola, com destaques como o goleiro Unai Simon e os atacantes Nico Williams e Mikel Oyarzabal. O principal clube da região de Euskadi, o Athletic Bilbao, só admite atletas nascidos no País Basco e, apesar disso, jamais foi rebaixado à segunda divisão espanhola.

“Há semelhança entre bascos e catalães no sentido de ter uma cultura própria e uma sociedade dividida entre torcer ou não pela Espanha, mas o País Basco já é praticamente independente, pois após anos de ataques do grupo terrorista ETA foram costurados acordos com o governo espanhol. A região tem uma autonomia financeira muito grande, é outra realidade, pois eles conseguem gerir o próprio dinheiro sem mandar para a Espanha”, opina Pau Ramírez. “O País Basco administra os próprios recursos, o que não existe na Catalunha e é um dos principais motivos da luta catalã.”

Com torcida ou não de catalães e bascos, a seleção espanhola desafiará a Argentina de Messi no domingo, 19 de julho, a partir das 16h (de Brasília), no Metlife Stadium.

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