Os principais clubes de futebol de São Paulo temem a perda de receitas devido a dois projetos de lei na Câmara Municipal que visam restringir a publicidade de empresas de apostas. As novas regras focam, sobretudo, em proibições de anúncios em camisas e limites para visibilidade no entorno dos estádios. Com isso, os clubes de São Paulo correm risco de perder R$ 1 bilhão com essas restrições.

As restrições propostas pelo governo federal visam regular o mercado, mas geram preocupação imediata sobre a sustentabilidade do fluxo de caixa atual. O impacto financeiro ameaça não apenas os grandes clubes, mas especialmente as equipes de menor porte que dependem substancialmente desses aportes. A articulação paulista busca, portanto, dialogar com os órgãos reguladores para ajustar os prazos e condições das novas regras. A preocupação é evitar uma crise orçamentária no futebol do estado.

“O PL que pretende restringir a publicidade das bets em São Paulo é uma medida de flagrante inconstitucionalidade e profunda contradição. Ao atingir empresas legalmente autorizadas pela União, a proposta não prejudica apenas os clubes paulistas: afeta toda uma cadeia econômica que inclui agências de publicidade, empresas de mídia, veículos de comunicação e outros fornecedores”, inicia Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da ANJL e sócio do Betlaw, escritório de advocacia especializado no setor de jogos e apostas.

“Ao mesmo tempo, enfraquece o mercado regulado sem enfrentar o verdadeiro problema: o jogo ilegal. Combater quem cumpre a lei enquanto quem a viola continua operando é uma inversão completa de prioridades — e, na prática, favorece o mercado ilegal”, finaliza.

O mercado de apostas esportivas, anteriormente sem regulação específica, tornou-se o maior anunciante do futebol brasileiro nos últimos anos. As mudanças visam proteger o consumidor e garantir a integridade esportiva, mas trazem desafios comerciais significativos. As conversas da federação focam em harmonizar as normas com a realidade econômica do esporte.

Os clubes paulistas aguardam um desfecho que concilie a regulação do mercado com a manutenção das receitas essenciais. A movimentação busca assegurar que os contratos atuais, cruciais para o orçamento da temporada, não sejam rescindidos de forma abrupta. A FPF continua monitorando os desdobramentos para defender os interesses financeiros do futebol de São Paulo.

“O debate sobre os limites da publicidade é legítimo e faz parte do amadurecimento de um mercado que passou a ser regulamentado recentemente. A discussão, porém, não deveria ser apenas sobre permitir ou proibir anúncios. A publicidade também exerce um papel importante de orientar o consumidor. Ela ajuda as pessoas a identificar quais operadores são licenciados, cumprem a regulamentação brasileira e investem em mecanismos de jogo responsável, prevenção à fraude e proteção ao usuário”, analisa João Fraga, CEO da Paag, empresa de tecnologia que oferece plataforma de gestão de risco para o mercado de bets.

Especialistas analisam os impactos que uma lei como essa pode ter nos clubes da capital, especialmente Corinthians, Palmeiras e São Paulo

Para especialistas em gestão e finanças esportiva, o impacto de uma lei como essa pode ser devastador nas contas dos clubes, com a perda de estimados R$ 350 milhões de reais anuais em Corinthians, Palmeiras e São Paulo.

“Essa perda será especialmente maior se não for previsto na lei um período de transição, ou ele for muito curto para encontrar outro patrocinador e com o mesmo nível de valores negociados pelos patrocínios. A lei terá um impacto negativo nas contas dos clubes de forma bem ampla, considerando o nível de envolvimento das bets com o patrocínio do futebol no Brasil, neste momento”, afirma Moises Assayag, sócio diretor da Channel Associados e especialista em finanças no esporte, especialmente nas áreas de reestruturação financeira e operacional.

Para Pedro Lopes, advogado que é sócio-fundador do PPLlaw, escritório jurídico, e também da Chenus Holdings, empresa de investimento no esporte, o projeto poderá afetar os contratos de patrocínio em vigor, impactando as receitas dos clubes da capital.

“Como consequência, é possível que equipes profissionais de cidades que não restrinjam esse tipo de publicidade passem a contar com alguma vantagem competitiva, sobretudo em razão da relevância que tais contratos representam para os clubes atualmente”, acrescenta.

Já Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo, uma medida como essa tem impacto direto no planejamento comercial de todos os envolvidos.

“Estamos falando de clubes, federações, confederações, estádios e demais espaços ligados ao futebol, que já trabalham com contratos de patrocínio de médio e longo prazo. O mercado de apostas se tornou uma fonte relevante de receita para o futebol, então qualquer restrição à exposição dessas marcas precisa ser analisada também sob a ótica da sustentabilidade financeira de todos os envolvidos, do cumprimento dos contratos já firmados e, consequentemente, da segurança jurídica”, analisa.

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