O empate sem gols com o São Paulo na última quarta-feira, 4, na Vila Belmiro, deixou lições importantes para o técnico Clarence Seedorf, que viu encorpar uma já considerável lista de erros capitais acumulados em apenas 25 dias de trabalho no novo clube.

Em Santos, por exemplo, custaram caro ao holandês substituições que influenciaram diretamente no desempenho da equipe, a principal delas envolvendo Memphis Depay.

Melhor durante todo o primeiro tempo, tendo criado as chances mais claras, finalizado 17 vezes ao gol de Rafael e conseguindo encurralar o rival, a opção pela entrada do veterano camisa 10 aos 16 minutos do segundo tempo foi como um tiro no pé.

Recuperado de um edema no bíceps femoral da coxa direita, o jogador estava visivelmente em rotação abaixo dos demais. E o pior: entrou como um meia, centralizando, deslocando Vitinho para o lado direito, que fazia boa partida exatamente na função que era ocupada por Rodrigo Garro.

Agrava ainda mais o teste de Memphis como meia armador o fato de o holandês jamais ter correspondido como um típico camisa 10 – ele já havia sido testado desta forma, sem sucesso, sob o comando de Ramón Díaz.

Além de Memphis, o ímpeto corintiano esfriou de vez quando o treinador trocou André Luiz por Carrillo. O jogo, que era controlado pelo Corinthians, passou a ser favorável para o São Paulo, que quase venceu a partida.

Vitória: novidades estranhas e pouca velocidade

Apesar de oficialmente ter comandado o clube em somente três jogos, a conta até aqui é de quatro partidas – com dois empates, uma vitória e uma derrota – já que contra o Vitória, quando acompanhou a equipe da arquibancada da Neo Química Arena, Seedorf  havia treinado o time por cinco dias.

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Na “estreia”, novidades causaram estranheza e problemas: as opções de Vitinho aberto pela direita e de Jesse Lingard pela esquerda. Vitinho vinha atuando preferencialmente pelo lado esquerdo, enquanto Lingard já não oferece no atual momento da carreira a velocidade necessária para ocupar um corredor do campo.

O resultado foi um time lento e com pouca capacidade de atacar o espaço. O técnico explicou depois que os atletas foram escolhidos pelo desempenho nos treinos e pela condição física.

Saldo final: um empate em 1 a 1 e menos dois pontos que podem ser cruciais na luta contra o Z-4.

Vasco: trocas desmontam a equipe

No segundo jogo, com Seedorf finalmente à beira do campo, outro erro de peso: a escolha de Dieguinho como ponta direita, enquanto Kaio César, melhor opção para o setor, começou novamente no banco.

A aposta em Dieguinho fazia parte da política de Seedorf de premiar o desempenho nos treinamentos. O treinador repetiu que precisava de jogadores prontos para interpretar suas ideias e que todos do elenco deveriam se sentir parte do projeto.

Em compensação, a boa decisão do treinador foi avançar algo pedido há tempos no clube: avançar o lateral-esquerdo Matheus Bidu para a função de ponta. Deu certo, com o jogador marcando o segundo gol corintiano.

O problema apareceu no gerenciamento do resultado. Com o Timão vencendo por 2 a 1, Yuri Alberto e Bidu, que incomodavam o Vasco pela velocidade nas pontas, foram substituídos nos minutos finais. O técnico explicou que Yuri estava desgastado, que Bidu pediu para sair e que era necessário reforçar o meio diante da pressão vascaína.

Sem a velocidade na frente, o Corinthians perdeu a possibilidade de manter o rival recuado. A equipe passou a defender mais perto da própria área, sofreu o empate aos 44 minutos e levou a virada na sequência.

Mirassol: o básico que funciona

A vitória por 2 a 0 sobre o time paulista mostrou que Seedorf não precisa reinventar o Corinthians. O técnico fez o básico que funciona: escalou Kaio César pela direita, manteve Garro como articulador, deixou Bidu mais avançado pela esquerda e preservou Yuri Alberto no comando do ataque, com dois volantes dando sustentação.

A formação ofereceu equilíbrio e uma vitória tranquila. Bidu apareceu na segunda trave para abrir o placar; Kaio César, agora titular, marcou um belo gol; Garro encontrou espaços para organizar as ações da equipe, enquanto Yuri participou da construção e deu referência ao ataque.

A vitória encerrou uma sequência de dez jogos sem triunfo. Não foi uma atuação de grandes invenções, mas justamente por isso funcionou como um contraponto aos dois primeiros jogos.

Psicologia, treinos e ‘aula’ de jornalismo

Enquanto tenta construir um Corinthians mais intenso dentro de campo, Seedorf trabalha nos bastidores para recuperar a força mental da equipe com métodos questionados. O primeiro deles é a presença ativa a psicóloga Anahy Couto no dia a dia no CT Joaquim Grava.

Além disso, o treinador abriu os treinos aos jornalistas e ampliou a rotina de entrevistas. Mas, ao mesmo tempo, vetou perguntas, interrompeu respostas de jogadores e repreendeu jornalistas — em um dos episódios, afirmou que eles eram “hóspedes” no CT.

Seedorf durante a entrevista coletiva no CT Joaquim Grava – Reprodução

A estratégia de comunicação do Corinthians para reduzir vazamentos e criar uma narrativa de união, mas o tom controlador produz o efeito oposto quando o time ainda não entrega resultados.

“Eu achei que vocês tinham aprendido”, disse o técnico depois dos episódios com Rodrigo Garro e Memphis Depay.

O técnico, agora, terá 12 dias livres para trabalho até a próxima partida diante do Botafogo, no dia 18 de novembro, na Neo Química Area. O Brasileirão ficará paralisado por conta da Data Fifa.

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