Condenado na última terça-feira, 22, pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) a pagar uma dívida milionária ao Cuiabá por conta de valores envolvendo a compra e a venda do zagueiro Joaquim, hoje no Tigres-MEX, o Santos ganhou mais um enorme pesadelo financeiro neste fim de temporada.
De acordo com sentença completa do processo, à qual a PLACAR teve acesso, o Peixe terá uma dívida 49,6% maior do que o valor que deveria arcar originalmente pelo defensor.
De R$ 13.061.725,50, o montante total saltou para R$ 19.544.836,03, totalizando uma diferença de R$ 6.483.110,53 a mais para os já sofridos cofres santistas.
O Santos ainda precisará desembolsar aproximadamente R$ 400 mil só para recorrer da decisão no Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA). O prazo para isso é de dez dias, contados a partir da intimação expedida pela secretaria da CNRD.
Caso o clube não se manifeste por um recurso nem pague o que deve, a Divisão de Regulação da CNRD poderá analisar a aplicação de sanções, com base nos parágrafos 1º ao 5º do inciso 3 do artigo 56 do Regulamento da Câmara Nacional de Resolução de Disputas (RCNRD), que preveem:
I – bloqueio e repasse de receita ou premiação econômica que tenha direito de receber da CBF
ou de federação;
II – devolução de premiação econômica que a parte tenha recebido por conquista em competição
organizada pela CBF;
III – proibição de registrar novos atletas, por período determinado não inferior a seis meses nem
superior a dois anos;
IV – proibição de registrar novos atletas por um ou dois períodos completos e, se for o caso,
consecutivos de registro internacional;
V – suspensão dos efeitos ou cancelamento do Certificado de Clube Formador;
No processo, em disputa desde maio de 2025 no órgão da CBF – que tem competência para desfazer conflitos entre participantes do futebol nacional, seguindo os estatutos e regulamentos da confederação e da Fifa -, os valores saltaram pela soma de punições.
Ao Cuiabá, o Santos deveria pagar R$ 6.154.300,00 referente à última parcela da compra do atleta, além de R$ 1.941.300,00 e R$ 4.966.125,50 do percentual de repasse da venda ao Tigres, totalizando os R$ 13.061.725,50.

Estava prevista em contrato, no entanto, a incidência de 30% de multa por inadimplência nos repasses. Com isso, o valor sobe para R$ 18.569.171,54, e ainda são acrescidos ao montante R$ 47.205,92 a título de custas processuais e R$ 928.458,57 aos patronos do Cuiabá a título de honorários de sucumbência – valores que a parte perdedora em um processo judicial deve pagar ao advogado da parte vencedora.

Em nota, o Cuiabá afirmou que espera receber o valor total de forma imediata, embora o Peixe ainda possa recorrer. O Dourado diz que “não aceitará em silêncio o uso de recursos e expedientes processuais com o único objetivo de adiar mais uma vez o que é devido há quase dois anos”.
O clube do Mato Grosso ainda lembra o histórico de não pagamentos do Santos, citando as cobranças movidas pelo Arouca, de Portugal, e pelo Monaco, da França, que só foram quitadas depois de o clube receber a punição do transfer ban pela Fifa. “No mesmo período, seguiu contratando”, criticou.
O Cuiabá também mencionou as dívidas de outros clubes, como Corinthians, Grêmio e Sport. O valor total ultrapassa os R$ 40 milhões.
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Chapéu na mão
A situação de caixa no Santos é considerada dramática e beira um colapso. Agora com as duas últimas parcelas dos direitos de imagem dos jogadores vencidas – a mais recente na última segunda-feira, 21 -, o clube admite publicamente não ter dinheiro para quitar as pendências, tampouco um prazo definido.
Nos corredores da Vila Belmiro, uma pessoa ligada à atual gestão afirmou à PLACAR que o Peixe está de “chapéu na mão” — expressão utilizada para quem vai pedir ajuda a alguém em condição superior — e ainda sem alternativas no mercado.
O caos financeiro afeta até mesmo prestadores de serviços essenciais, como a World Sports, empresa responsável pela manutenção do criticado gramado da Vila Belmiro, que está há cinco meses sem receber. A dívida com a empresa é de quase R$ 500 mil.
Apesar dos bons resultados recentes dentro de campo, o cenário não é nada animador. Há cerca de um mês, alvinegro recorreu à Federação Paulista de Futebol (FPF) para tentar antecipar parte das receitas do Paulistão e aliviar o fluxo de caixa. O pleito, contudo, não avançou. À PLACAR, o clube negou a movimentação.
Pesa contra o clube o fracasso no planejamento esportivo de risco e a recente eliminação na Copa Sul-Americana. Mesmo ciente de que se tratava de uma estratégia agressiva, o Santos investiu para trazer nomes de peso na última janela de transferências com o objetivo de alcançar as semifinais e a decisão do torneio, mas acabou caindo para o Atlético Mineiro nos pênaltis, após vencer o jogo de ida por 2 a 0.
Só por não avançar à semifinal, o clube paulista deixou de faturar 800 mil dólares (cerca de R$ 4,1 milhões), valor que facilmente superaria a casa dos R$ 5 milhões se somada a bilheteria. Caso fosse campeão, o prêmio chegaria a 10 milhões de dólares (R$ 50 milhões).
Devedor, eu?
A sentença da CNRD também revela um roteiro de tentativas frustradas do Santos de justificar a dívida.
Tudo começou quando o clube paulista deixou de pagar a última parcela de 1 milhão de euros (R$ 6.154.300,00) referente à compra de Joaquim, vencida em 30 de janeiro de 2025.
Em julho de 2024, o Santos vendeu o atleta ao Tigres, mas optou por não repassar a fatia que pertencia ao time mato-grossense no prazo contratual, em 12 de fevereiro e 5 de março de 2025. Durante o processo, a defesa usou diversas teses para tentar diminuir a dívida.
O clube alegou que a multa contratual de 30% pelo atraso era “abusiva” e tentou compará-la a rendimentos do mercado financeiro para justificar que os valores eram desproporcionais, citando cláusulas penais variáveis entre 2% e 5%, com limite de 10% para casos expecionais.

Marcelo Teixeira, presidente do Santos, admite que o clube busca recursos para pagar atrasados – Reinaldo Campos/Santos FC
Além disso, os advogados santistas tentaram diminuir as taxas de câmbio, pedindo que a conversão das moedas estrangeiras fosse feita os valores das respectivas datas, e ainda solicitaram o desconto de supostos “tributos” que sequer foram comprovados no processo.
O Santos ainda demorou a admitir no processo que já havia se acertado com o clube mexicano por meio de um “Acordo de Compensação” (originalmente chamado de “Compensation Agreement”). O documento só foi apresentado após o painel julgador intimar o clube, derrubando a desculpa santista de que ainda não havia recebido o dinheiro.
“Em 17.7.2026, o SANTOS apresentou o “Compensation Agreement” (cj. 042) com “tarjas” nas disposições que entende serem estranhas ao objeto deste Requerimento”, diz um trecho.
“E ao analisar as provas dos autos, o painel julgador constata que o SANTOS já recebeu todos os valores devidos pelo Tigres: USD 1,25 milhão em 4.2.2025 e USD 2,25 milhões em 15.12.2025, por meio de compensação acordada no Compensation Agreement. O SANTOS tinha até 48h após o recebimento para repassar cada parcela devida ao CUIABÁ, o que não fez”, completou em outro momento.
Como última cartada para evitar o pagamento imediato e escapar de sanções esportivas pesadas, o Santos tentou incluir a condenação no seu Plano Coletivo de pagamentos da CNRD. O pedido, porém, foi indeferido porque as próprias regras do plano não permitem a entrada de novos credores.
Santos contesta exposição do caso
“Em relação às obrigações envolvendo o Cuiabá E.C., contraídas em 2023, o Santos Futebol Clube esclarece que a questão vem sendo tratada pelos meios próprios e nos fóruns institucionais competentes, nos quais são apresentadas e analisadas as alegações e manifestações cabíveis de ambas as partes.
A exposição pública do caso não contribui para a sua solução, uma vez que não altera os trâmites legais a serem adotados.
O Santos FC entende a preservação das relações institucionais entre as agremiações é fundamental para a construção de soluções verdadeiramente sustentáveis para o futebol brasileiro.
O Clube reafirma seu compromisso com o cumprimento de suas obrigações financeiras e a resolução das dívidas dentro de limites de prazos e processos do planejamento, e com os princípios de responsabilidade e equilíbrio, que orientam o Fair Play Financeiro da CBF.
Da mesma forma, o Santos FC possui valores relevantes a receber de outros clubes do futebol brasileiro. No início de 2026, os créditos a receber pelo Clube decorrentes de diferentes operações alcançavam aproximadamente R$ 170 milhões, demonstrando que o endividamento entre as agremiações constitui um desafio estrutural do ecossistema do futebol brasileiro, e não uma realidade exclusiva de determinada entidade de prática desportiva”.






