Ninguém vestiu tantas vezes a camisa do Corinthians quanto Wladimir Rodrigues do Santos. Foram 806 participações que fizeram do lateral-esquerdo um dos maiores ídolos do Timão em todos os tempos. Neste sábado, 29 de agosto, Wladimir completa 72 anos.
Cria das categorias de base alvinegras, Wladimir marcou época com sua técnica e regularidade. Diziam que não jogava mal. Ele defendeu o Corinthians entre e 1972 e 1987 e conquistou quatro Campeonatos Paulistas: 1977, 1979, 1982 e 1983.
Um dos líderes da chamada Democracia Corinthiana, Wladimir apareceu diversas vezes em reportagens de PLACAR, além de ter vencido quatro vezes o prêmio Bola de Prata de melhor lateral-esquerdo do país, em 1974, 1976, 1982.
Foi também protagonista de uma das fotos mais icônicas de nosso acervo. A gota de suor que escorria de seu rosto, captada pelas lentes do fotógrafo Ronaldo Kotscho, o Alemão, em 1982, simbolizou toda uma temporada de luta do atleta e de todo o elenco alvinegro.

Wladimir na estreia da fase final da Taça de Ouro de 1982: a gota de suor que está prestes a cair do queixo resume o que foi aquele ano do Timão – RONALDO KOTSCHO/PLACAR
Numa das várias vezes em que apareceu na capa da revista, em 7 de maio de 1982, Wladimir celebrou dez anos de Corinthians, e concedeu entrevista a Fabio Rocco Sormani, atual comentarista do programa Debate Placar. Na ocasião, o lateral se sentia amargurado com a falta de acertos financeiros efetivamente satisfatórios ao longo de uma década de serviços prestados e desabafou.
Leia abaixo, na íntegra, o texto, disponível no acervo digital de PLACAR.
ESTA ALEGRIA CUSTOU 10 ANOS
A fiel o elegeu ídolo predileto, mas o clube jamais soube recompensá-lo na justa medida. Dez anos de serviços, oito contratos que mal conseguiram remediar sua situação financeira. Os tempos mudaram, felizmente: com a abertura corintiana, Wladimir se vê assinando, enfim, o primeiro grande contrato de sua vida. E sorri
Por FÁBIO ROCCO SORMANI
Dez anos de Corinthians. Plantado na entrada gradeada do vestiário, Wladimir passeia o olhar pelas arquibancadas de cimento, pelas lúgubres tribunas que parecem abrigar fantasmas. Nesse momento ele se dá conta de que, claro, dez anos se passaram e alguns desses fantasmas já povoam sua memória. Ou não seria Wladimir um personagem decisivo para se contar a história do Parque São Jorge, desencarnada e viva, dos anos de jejum aos tempos de Sócrates, de Vicente Matheus a Valdemar Pires. Do sufoco à abertura.
Por exemplo. Aquele trauma de dezembro de 1974, no Morumbi, quando cem mil fiéis reproduziram o Maracanã de 16 de julho de 1950, calou fundo. Tão fundo que, três anos depois, ao rumar para a concentração, véspera da decisão com a Ponte, jurou ao pai, o fanático corintiano Sebastião: ‘Não volto pra casa sem o título, pai. Pode crer’.

‘Discriminação racial, mesmo!’
Outro exemplo. Garoto dos juvenis, foi barrado na entrada do clube, por um diretor, porque esquecera sua carteira de atleta. ‘Ele me conhecia muito, até me cumprimentava pelo nome, em outras ocasiões’, revolta-se. ‘Aquilo foi uma discriminação racial mesmo.’
Uma viagem através desses dez anos de clube revela mais amarguras como o episódio da barração — do que alegrias como o título de 1977. Pelo menos dentro dos limites do Parque. Boa cabeça, Wladimir sabe que ser o xodó da Fiel é uma coisa, enfrentar dirigente do tipo Matheus é outra bem diferente. ‘Só não vendo você porque tenho medo do que a torcida possa fazer’, confessou-lhe o ex-presidente, quando soube que o jogador assumira publicamente a defesa de quatro colegas que, sem qualquer direito à defesa, tinham sido proibidos de treinar (*).
Não repetiam sempre que futebol é conjunto, união? Ao ver consumada a injustiça, Wladimir descarregou pesadas críticas sobre o atrabiliário Matheus. Mas ficou sozinho na empreitada, pois nem mesmo Sócrates, à época a serviço da Seleção, se manifestou. ‘Ele não abriu a boca’, atesta o lateral.
Desse episódio, Wladimir saiu como sempre com a amarga sensação de ter engolido um sapo. Confirmou o que sabia desde que resolvera abraçar a dura carreira de jogador profissional: cuidar da própria vida e proteger-se dos inimigos. Só que, definitivamente, essa política de egoísta realismo não faz o seu gênero. Enfim, admite continuar engolindo sapos carreira afora, mas sempre vai aprontar seu protesto. Pequeno que seja, de qualquer maneira tão digno e tão expressivo quanto seu semblante que teima em preservar um eterno ar moleque, do filho que qualquer torcedor adoraria mimar.
Nesta semana, Wladimir renova seu nono contrato com o Corinthians, culminando de entendimentos que se arrastaram por quase dois meses. ‘Arrastar’ é o termo preciso, porque em momento algum ele formalizou uma proposta embora o diretor Orlando Monteiro Alves, a certa altura, declarasse que o jogador fizera duas propostas diferentes, a última já na fase em que seu nome começava a ser reclamado para a Seleção.
Revolta, ele sentiu. Viu, na manobra, uma óbvia tentativa de jogá-lo contra a torcida, área que o nunca lembrado Matheus dominava como mestre. Então, Wladimir resolveu entender-se com o clube através de um procurador, Vadi Curi, assim demonstrando sua posição. Não falou, agiu.

Wladimir e Givanildo do Corinthians, durante jogo contra o Juventus – Acervo/PLACAR
Pela primeira vez, confessa, assina um contrato de que não se arrepende (**). Nestes dez anos de Corinthians, nos quais pontificou por sua regularidade e pela identificação com a torcida, Wladimir não conseguiu mais que dois apartamentos — no outro, moram seus pais. Tem um Karmann-Ghia 70 e, com os prêmios da Taça de Ouro, comprou um Voyage zero. Há pouco tempo, deu entrada em mais dois apartamentos, que irá pagar em dez anos.
Para o brasileiro médio, um respeitável patrimônio, até porque Wladimir ostenta 27 anos (29/8/54), idade em que a maioria das pessoas mal começa a sonhar com casa própria. Mas é isso mesmo que estabelece a diferença. Enquanto o mortal comum inicia seu projeto profissional, o jogador de 27 anos está prestes a cruzar o cabo da Boa Esperança, além do qual só existe a decadência.
O pé-de-meia, portanto, é uma questão de sobrevivência futura, e por oito angustiantes renovações Wladimir fracassou. “Toda vez eu sabia que não ia ser mole”, comenta. “Quando chegava na porta da sala do Matheus, prometia a mim mesmo: ‘desta vez não arredo pé da pedida que fiz’.”
Bastava abrir a porta, entretanto, para sentir-se acuado, inseguro, presa indefesa nas garras de uma matilha. Lá estava Matheus, ladeado por outros sete, oito diretores, todos decididos a defender os interesses do clube, como se ele, pobre atleta, fosse um inimigo indesejável.
“Eu saía de lá moído, sentindo-me enganado, como enganados foram muitos jogadores”, recorda. O coração corintiano, verdade seja dita, é que pulsava mais forte, abafando o desejo de se transferir para bem longe, para um clube onde pelo menos não houvesse esse esmagador domínio exercido por um único homem sobre todos os outros.

“Agora você tem que dar tudo”
Em 1976, a história beirou a farsa. Uma grande diferença separava Wladimir e Matheus: 50 mil cruzeiros. Foi preciso uma lista de contribuições, organizada pela Torcida Gaviões da Fiel e entregue nas mãos de Matheus, para que a renovação se consumasse. Só que, desde então, Wladimir descobriu uma das coisas mais gratificantes de toda a sua carreira: a torcida estava ao seu lado, incondicionalmente. Ninguém duvida que, para a Fiel, ele é mais ídolo do que Sócrates. Quem diria que, mesmo assim, viesse ganhando 110 mil cruzeiros mensais — reajustados pela nova diretoria, há pouco mais de cinco meses, para 200 mil?
Pois foi há duas semanas que Wladimir viveu mais uma outra grande amargura. Antes do Timão ser eliminado pelo Grêmio da Taça de Ouro, ele conferiu a primeira lista de Telê. Pedrinho estava incluído, sinal evidente de que sua derradeira esperança de participar de uma Copa morria de vez. Nessa tarde, convocado por Zé Maria, foi dar apoio ao reserva Luís Cláudio, abatidíssimo pela contratação do lateral-direito Alfinete. “É agora que você tem que dar tudo”, recomendaram os dois companheiros.
Era numa hora como aquela que Wladimir tinha que dar tudo. Um drible na amargura, um carrinho na desesperança, um estouro na depressão. Então, lance resolvido, ele passeou o olhar pelas arquibancadas, pelas lúgubres tribunas que parecem abrigar fantasmas. E se deu conta: já viveu dez anos de Corinthians. E riu por seu corintianismo.

Sócrates, Rita Lee, Wladimir e Casagrande, show da Rede Globo.
* Goleado em pleno Pacaembu pelo Santa Cruz (1 x 4 no dia 11/3/81, estréia de Zenon), o Corinthians foi eliminado da Taça de Ouro. Dois dias depois, ouvido o técnico Osvaldo Brandão, o então presidente Vicente Matheus afastou da equipe os jogadores Amaral, Djalma, Vaguinho e Geraldão, proibindo-os inclusive de treinar.
** Somente na semana passada é que Wladimir apresentou sua proposta oficial. O presidente Valdemar assustou-se com as bases — falava-se em luvas altas, metade à vista, e salário mensal em torno de 1 milhão de cruzeiros. O ponto crucial que retardou o acordo foi a forma de pagamento das luvas.









