Júlio Casares renunciou ao cargo de presidente do São Paulo, nesta quarta-feira, 21. Por meio de comunicado oficial, o anúncio colocou ponto final definitivo em seu mandato.
O ex-presidente estava afastado desde a última sexta-feira, 16, quando o conselho deliberativo do clube aprovou seu impeachment. Casares ainda podia retornar ao cargo, caso a destituição não fosse aprovada em assembleia geral de sócios.
O anúncio de Casares
Em suas redes sociais, Júlio Casares publicou carta comunicando sua renúncia. A escolha marca o fim de um mandato que teve início em dezembro de 2020, quando foi eleito para o triênio 2021-203 (e reeleito para 2024-2026).
Confira a carta de Casares:
Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.
Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.
O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.
Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.
Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar.
Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.
Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.
Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.
A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.
Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.
Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.
Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.
Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.
Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição.
Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.
Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.
Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.
Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.
O que acontece agora?
Dessa maneira, quem assume imediatamente é o vice-presidente da gestão, Harry Massis Júnior, até o final do mandato (31 de dezembro de 2026). Segundo o artigo 115 do clube, Massis poderá se candidatar a uma reeleição imediata.
Inicialmente, Casares acreditava em sua inocência, mas viu a pressão escalar após conselheiros indicarem voto favorável ao afastamento. Assim, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem, Casares já considerava anunciar sua renúncia desde a última quinta-feira, 15, antes mesmo do inicio do rito de impeachment.
Aos 80 anos, Harry Massi ocupa a vice-presidência desde 2021. O empresário, dono do Hotel Massis e de negócios no ramo de garagens e estacionamentos, é conselheiro vitalício, sócio do clube desde 1964 e já ocupou diversas funções de diretoria.
As acusações sobre Casares
Em dezembro de 2025, conselheiros do Tricolor protocolaram um requerimento com 57 adesões, o suficiente para que uma reunião extraordinária discutisse o impeachament de Casares. O documento passou a ganhar força após o vazamento de um áudio em que dois diretores afastados, Mara Casares e Douglas Schwartzman, conversavam com Rita Cássia Adriana Prado, revelando suposto esquema ilegal de venda de ingressos em camarote do MorumBis.
Ao mesmo tempo, um inquérito da Polícia Civil já investigava movimentações suspeitas em contas bancárias do São Paulo e de Júlio Casares. Entre os pontos observados pelo processo, um deles é o recebimento de R$ 1,5 milhão em dinheiro, fracionado em depósitos de até R$ 49 mil reais, nas contas do dirigente, de acordo com relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeira). A defesa do presidente justifica que esse valor tem origem limpa e comprovável.

Julio Casares, ex-presidente do São Paulo – Reprodução/Instagram/@juliocasares_sp
No mesmo dia do vazamento dessa informação (6 de janeiro), o conselho consultivo do Tricolor Paulista, composto por ex-presidentes e conselheiros de peso, não recomendou o impeachament. O próprio Júlio Casares esteve na reunião, tal qual Olten Ayres de Abreu Júnior, presidente do conselho deliberativo.









