O jornalismo esportivo perdeu o mais elegante de seus ícones. Nem tente me convencer que tenha havido um profissional mais classudo que Claudio Carsughi, morto aos 93 anos nesta quinta-feira, 10. É provável, aliás, que o próprio achasse obituários em primeira pessoa, jocosamente tratados como “eubituários” ou “eumenagens”, algo de mau gosto, mas me senti quase na obrigação de arriscar. Até porque, definitivamente, este texto não é sobre mim, mas sobre aquele senhor de sotaque marcante e um adorável sorriso que aceitou tomar um café com um fedelho desconhecido em sua terra natal.
Não conheci Carsughi na intimidade, pelo contrário, tivemos apenas duas interações, uma virtual e outra em carne e osso. Foi, no entanto, um encontro transformador, sem exageros, ainda que os 15 anos passados tenham roubado de minha memória boa parte dos detalhes. Por sorte as mensagens escritas ficaram registradas em um e-mail antigo, que consegui reler após uma batalha de recuperação de senhas. Corria o ano de 2011, mais especificamente as 15h44 do dia 8 de julho, quando lhe contei despretensiosamente sobre minha situação — a de um jornalista recém-formado, sem grandes experiências na área, animado com a iminência de viajar a Florença para estudar italiano.
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Entre outras coisas, com uma inocência incompatível para um homem de 22 anos (“clamorosa”, diria ele em suas transmissões de rádio), escrevi:
Te escrevo para te parabenizar pela sua incrível carreira e para te contar que estarei viajando pelos próximos três meses pela cidade de Florença, onde você passou boa parte de sua adolescência e de onde nasceu sua paixão pela Fiorentina. Sou corintiano, mas pretendo frequentar muitas vezes o Estádio Artemio Franchi e certamente irei também adquirir um carinho especial pela Viola. […] Estou a menos de vinte dias da viagem, muito ansioso, mas com a certeza de que escolhi a cidade certa. Talvez seja uma grande bobagem enviar esse e-mail, sei que minha história não tem a mínima importância, mas gostaria de dividir a minha alegria em poder conhecer a região onde você nasceu.
Onde eu estava com a cabeça ao tratar de “você” um senhor de 78 anos? Eis que, no dia seguinte, às 15h50, apita a seguinte mensagem:
Caro Luiz,
Fico feliz que você tenha escolhido Firenze como ponto de referência para sua estada na Itália e faço votos que isso seja altamente proveitoso para sua carreira, além de prazeroso para sua vida.
Eu estarei em Firenze de 5ª feira, dia 15 de setembro até a sucessiva 5ª feira, dia 22, ficando, como de hábito no Palazzo Ricasoli, Via delle Mantellate 2, onde alugo um flat. Se, nesses dias, quiser tomar um café comigo, pode me chamar no celular italiano, [xxxxxxxxxx], terei muito prazer em conhecê-lo pessoalmente.
Cordialmente
Claudio Carsughi
Lembro que corri para contar a meu pai, fã de longa data de futebol, automobilismo e Carsughi. Meu velho passaria dias me lembrando deste compromisso, como se houvesse algum risco de eu esquecer. Quando chegou o grande dia, eu já estava relativamente adaptado ao berço do renascimento, fui a pé, devagar para não chegar suado. Ciente da elegância habitual do meu anfitrião, vesti minha melhor roupa, uma camisa quadriculada comprada dias antes na Zara por alguns poucos euros. Nada comparado ao terno azul de seis botões com que Claudio surgiu no salão do Palazzo Ricasoli.
Mentiria se dissesse que lembro vividamente do que conversamos. O que mais me marcou foram as histórias de Carsughi sobre a Copa de 1950, que cobriu aos 18 anos, pouco depois de sua chegada ao país, como correspondente do Corriere dello Sport. Também me lembro de seus incentivos para que eu conhecesse a vizinha Arezzo, a cidade onde nasceu, a do filme A Vida é Bela, e para que não me deixasse sofrer demais pela Fiorentina, dois conselhos que segui à risca. Lembro de ele me perguntar sobre minha vida e parecer ouvir com atenção as respostas absolutamente irrelevantes. De olhar no meu olho e, acima de tudo, demonstrar paixão pelo jornalismo em cada causo.
Capuccino vai, panino vem, acho que o papo durou menos de meia hora. Ele me desejou sorte, pedi uma foto e corri para ligar para o meu pai. Hoje me arrependo de não tê-lo procurado novamente, para contar que deu tudo certo na minha carreira, muito mais do que eu imaginava, e que sua simplicidade foi inspiradora. É como dizem sobre os jogadores de futebol: os craques geralmente são os mais gente boa, e Carsughi foi um gênio da profissão.
Sua morte, por sinal, me fez lembrar que tenho algumas mensagens de estudantes e jovens jornalistas não respondidas no Linkedin e no Instagram. Preciso parar de usar como desculpa a correria do dia a dia de jornalista e pai de primeira viagem para atrasar as respostas. Minha filha, aliás, se chama Violeta graças a minha relação com Florença e a Fiorentina, mas isso sim é papo para outro fórum (escrevi sobre em
minhas redes pessoais no dia do centenário da “nossa” Fiorentina). Por aqui, a única mensagem que importa é:
grazie, Carsughi!

TAUBATÉ, SP – 18.12.2009: AUTOMOBILISMO/FORD/CARSUGHI/SP – O comentarista esportivo Claudio Carsughi durante apresentação à imprensa do novo motor da montadora Ford, em Taubaté, no Vale do Paraíba, (interior de SP), nesta sexta-feira. (Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress)