O atacante Luis Henrique, de 24 anos, vem se destacando pela Inter de Milão logo em sua primeira temporada pela equipe que lidera a Série A italiana. Atuando agora como ala, ele já sonha até com seleção brasileira. E lembra com saudades da passagem pelo Botafogo, clube que o revelou.
O atleta natural de João Pessoa (PB) rodou o país, se profissionalizou no Botafogo, para onde retornou por empréstimo junto ao Olympique de Marselha para a temporada de 2023, ano que deixou um gosto agridoce. O título brasileiro que parecia garantido escapou, mas Luis Henrique obteve destaque, e se sente grato pelo que viveu com a camisa alvinegra.
“Eu queria muito ter ficado. Fiquei bem triste nos primeiros dias, mas hoje vejo com gratidão. Talvez, se tivesse ficado, não estaria hoje na Inter de Milão. Então fica o sentimento de gratidão”, contou, em entrevista exclusiva à PLACAR.
O jogador acredita que o fator mental da equipe foi crucial para a derrocada naquele Brasileirão, em que o Botafogo acabou ultrapassado pelo Palmeiras. “Tinha a pressão de muitos anos sem ganhar. A gente abriu muita vantagem e começou aquele discurso de “já é campeão”. Quando vieram duas viradas seguidas, em jogos que estávamos ganhando, começou a dúvida. E quando você começa a duvidar, perde confiança. Infelizmente, isso pesou no final.”

Luis Henrique se tornou titular da Inter de Milão – @Inter/X
Luis Henrique ainda comentou sobre a polêmica envolvendo os gramados sintéticos no Brasil, como por exemplo, o do Nílton Santos, do Botafogo.
“Para mim não prejudica, mas tem outros jogadores com alguns problemas que sentem mais. Agora, em relação ao estilo de jogo muda bastante sim. Quem não está acostumado sente muita dificuldade”, contou, citando a surpreendente eliminação da Inter de Milão para o Bodo-Glimt, da Noruega, um dos poucos times da Champions League a usar campo artificial (em razão do rigoroso inverno na Escandinávia).
“Eu vi isso na Champions agora, contra o Bodo/Glimt, muda o jeito de dominar a bola e até de conduzir. Às vezes é melhor ter um sintético bom do que um natural ruim. No Brasil, peguei muitos gramados ruins, até mesmo do Nilton Santos, antes de colocarem o sintético”, citou Luis Henrique.
Vendido por 22 milhões de euros (mais de 130 milhões de reais pela cotação atual), Luis Henrique já disputou 36 jogos na temporada, mais da metade como titular, e contribuiu com um gol e três assistências. A Inter de Milão lidera o Campeonato Italiano com 69 pontos, seis a mais que o rival Milan, após 30 rodadas.
No papo com PLACAR, ele relembrou o início de carreira no sul do Brasil e uma negociação frustrada com o Flamengo. Confira, abaixo:
Início da carreira
Você é nordestino, mas seu primeiro clube registrado foi o Três Passos, no Sul. Como foi esse começo? Foi uma mudança importante, que até me ajudou depois a vir para a Europa. Eu sou do interior da Paraíba e fui para o interior do Rio Grande do Sul, uma cidade na fronteira com a Argentina, muito fria. Cultura totalmente diferente. Tinha um projeto do Sandro Becker, que fazia avaliações na Paraíba. Fui em uma dessas peneiras e passei junto com uns cinco ou seis garotos. Eu tinha acabado de fazer 14 anos. Fiquei lá cerca de dois anos e meio, até ir para o Botafogo.
Você foi sozinho? Sim. Antes disso, cheguei a fazer teste no Fluminense e passei, mas não tinha condição de ficar. Quando surgiu essa chance no Sul, já era para ir e permanecer, então optei por isso. Depois tive uma passagem no Internacional também, uns quatro meses, e voltei para o TAC (Três Passos). O Sandro Becker foi empresário do Lúcio e tinha contato com o Bayern de Munique. Aí viajamos até a Alemanha para fazer dois amistosos. Eu tinha 15 anos. A gente ganhou do Bayern por 2 a 1, eu fiz um gol e dei uma assistência. Voltei para o Brasil, mas eles gostaram de mim e pediram para eu voltar. Fiquei uns 15 dias treinando com a base, quase um intercâmbio. E depois eu voltei e já fui para o Botafogo. E fui muito rápido, cheguei no Sub-17 e três meses depois subi para o Sub-20. Depois joguei a Copinha e subi para o profissional.
Você jogou pouco no profissional antes de ir para o Marseille, certo? Sim, bem pouco. Acho que não tinha nem 20 jogos quando fui vendido.
Retorno ao Brasil
Foi por isso que você decidiu voltar ao Brasil? Exatamente. E foi uma escolha muito importante. Pude jogar o Brasileirão, conhecer os estádios. Era algo que eu queria viver, porque antes tinha jogado pouco.
Você acha que foi importante esse período no Brasil antes de voltar fora? Muito importante. Pelo menos um ano no profissional ajuda muito na experiência. Você enfrenta jogadores mais experientes, aprende bastante. No Botafogo tive companheiros que me ajudaram muito e me deram dicas para jogar aqui fora.
Você recebeu proposta do Flamengo antes de voltar ao Botafogo. Como foi isso? Foi curioso. Um conhecido sempre brincava comigo sobre isso, mas eu não levava a sério. O Gerson jogava lá no Marselha também e o pai dele sempre falava comigo: ‘eu tenho o contato de lá, se quiser eu te coloco no time’. Até que, nas férias, o Marcos Braz me ligou. Foi surpreendente. A negociação com o Marseille não avançou. Ao mesmo tempo, surgiu o Botafogo, que já era minha casa. Acabou sendo a melhor escolha naquele momento. E o Textor já tinha uma relação com o Olympique de Marselha também. Foi importante para mim voltar para casa, eu precisava jogar e ganhar tempo, consegui amadurecer bastante nesse tempo também.

Luis Henrique é apresentado pela Inter de Milão – Divulgação / Inter
Alegrias e tristezas no Botafogo 2023
É um assunto chato, mas a gente precisa falar também sobre o 2023 do Botafogo. E é curioso, porque o final foi complicado, mas você foi muito bem. Eu falo até brincando, até onde me deixaram, porque infelizmente eu tinha cláusula de tantos jogos e obrigação de compra. Eu queria ter jogado ainda mais, mas foi bom para mim, eu fui bem, ajudei bastante. Infelizmente a gente tenta esquecer porque estávamos muito na frente. Foi um primeiro turno muito bom. Fica de aprendizado. Aqui na Inter a gente está nessa situação, alguns pontos na frente, e fica aquele sentimento de ‘tem que ganhar, não pode entregar isso’, para não perder a cabeça igual aconteceu no Botafogo.
Você acha que a cabeça foi o principal fator naquela temporada? Foi algo mental, pressão interna e externa? Acho que sim. Tinha a pressão de muitos anos sem ganhar. A gente abriu muita vantagem e começou aquele discurso de “já é campeão”. Quando vieram duas viradas seguidas, em jogos que estávamos ganhando, começou a dúvida. E quando você começa a duvidar, perde confiança. Infelizmente, isso pesou no final.
Ficou um sentimento de frustração por não estar na temporada seguinte em que o time foi campeão brasileiro e da Libertadores? Na verdade, o sentimento veio bem antes, quando tive que sair já. Eu queria muito ter ficado. Fiquei bem triste nos primeiros dias, mas hoje vejo com gratidão. Talvez, se tivesse ficado, não estaria hoje na Inter de Milão. Então fica o sentimento de gratidão.
Qual sua opinião sobre gramado sintético? Para mim não prejudica, mas tem outros jogadores com alguns problemas que sentem mais. Agora, em relação ao estilo de jogo muda bastante sim. Quem não está acostumado sente muita dificuldade. Eu vi isso na Champions agora, contra o Bodo/Glimt, muda o jeito de dominar a bola e até de conduzir. Às vezes é melhor ter um sintético bom do que um natural ruim. No Brasil, peguei muitos gramados ruins, até mesmo do Nilton Santos, antes de colocarem o sintético.









