Nem mesmo a fiel torcida parecia acreditar que o Corinthians poderia reagir depois de levar o gol do Estudiantes já nos minutos finais. Até uma bola bandida cruzar a área e parar no braço do defensor argentino. Cal, com o auxílio do VAR, e Itaquera quase veio abaixo. A partir daí, todos os holofotes se voltaram a Memphis Depay, mas desta vez o popstar holandês não estava confortável com isso. Respirava fundo, à la Hortência, mas não podia se livrar do peso que carregava. Não só pelo histórico vexatório do Corinthians na Copa Libertadores – e do quanto a entrada de uma premiação de semifinal significaria para um clube quebrado –, mas sobretudo por ter plena noção do que sua milionária contratação e sua controversa renovação representaram. Em dois anos de Brasil, Memphis colecionou taças, provocações e inimigos, entre rivais e até mesmo dentro de casa. A tensão era palpável. Em bom português, muito olho gordo cercava aquela cobrança. Em alemão, o que se viu após o chute para o alto e o apito final foi pura Schadenfreude. O termo, uma junção de “dano” e “prazer”, define a humana, demasiada humana, capacidade de um indivíduo se alegrar com a desgraça de outro.
O roteiro que soava épico se tornou cruel. Nova eliminação em casa e agora a única meta do Timão em 2026 é evitar o rebaixamento no Brasileirão. E torcer para que o incêndio metafórico do Parque São Jorge (“artístico”, como definiu Depay em seu último videoclipe), não se materialize. Não demorou para que até mesmo lendas do Corinthians ironizassem o infortúnio do holandês. Desde que o futebol é futebol é assim: velhos ídolos têm imensa dificuldade de aceitar que novos hão de surgir e podem dividir espaço no coração da torcida. Tolice e oportunismo. Mas também é verdade que Memphis contribuiu para esta rejeição, ao peitar tudo e todos, e se colocar como uma referência além do campo. A torcida clamou pela sua renovação e se sentiu traída. O que era remédio virou veneno, e agora, de contrato renovado, ele terá de lidar com o ônus de ser quem é.
A cerca de 600 quilômetros, a vítima da Shadenfreude foi outra estrela, ainda maior, mesmo que ausente. Neymar foi alvo de uma enxurrada de memes e gozações de atleticanos, atletas e torcedores, depois que o Galo eliminou o Santos nos pênaltis, nas quartas da Sula, ao fazer 4 a 2 na Arena MRV. Na ida, 2 a 0 para o Peixe, das arquibancadas da Vila Belmiro, o craque que se recupera de mais uma lesão, rebateu torcedores mineiros ao dizer que “sem joelho”, ainda era melhor que o elenco do Atlético, ao qual ainda chamou de “time pequeno.” Bateu, levou, e agora resta saber como o menino de 34 anos, tão acostumado a bajulações, reagirá ao perceber que nem mesmo os colegas de profissão o veem como intocável.
Para os torcedores de Corinthians e Santos, a amargura vai muito além da eliminação esportiva ou da gestão de crise de seus garotos-propaganda. Afundados em crise financeira, ambos deram uma espécie de all in, visando as conquistas continentais, e saíram de mãos abanando. Para piorar, Memphis e Neymar convivem com problemas físicos que ficaram evidentes nas eliminações precoces de Holanda e Brasil na Copa do Mundo. São notícia mais fora do que dentro de campo. A paciência dos torcedores nunca é inesgotável.
Os maiores artilheiros das seleções holandesa e brasileira, amigos e companheiros de festas, podem se inspirar na postura de outra estrela, esta de prateleiras inferior, é verdade. Após a eliminação em BH, Gabigol deu a cara a bater e minimizou as provocações atleticanas. “É futebol, se ganhássemos faríamos o mesmo”, afirmou o artilheiro santista, ele próprio um debochador nato. Assim é a vida e o futebol: é preciso saber lidar com as consequências de seus atos.

Palmeiras garantiu vaga na semifinal da Libertadores, enquanto o Corinthians foi eliminado da competição - Cesar Greco/Palmeiras e Miguel SCHINCARIOL / AFP









