Coluna publicada na edição 1534, o Guia da Libertadores 2026

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO

Querer decifrar o sentimento do torcedor como um fenômeno uniforme é, no mínimo, pretensioso. No entanto, nos últimos anos, percebe-se uma mudança na forma como os “neutros” se posicionam diante dos confrontos entre clubes do Brasil e da Argentina. A histórica rivalidade entre os vizinhos sempre foi combustível para desejar que cariocas ou paulistas voltassem cedo para casa. Mas o torcedor argentino comum — aquele da arquibancada — também não quer que outro argentino vença.

Para que se entenda: um torcedor do Boca sempre vai querer que o River perca, seja contra o Flamengo ou qualquer outro. Isso não muda. Mas esse mesmo torcedor, que antes preferia a derrota de um compatriota para um brasileiro, hoje hesita. Ou, pelo menos, se questiona. Porque a hegemonia do Brasil na Libertadores se tornou insuportável, um punhal no ego do futebol argentino.

Os dados são eloquentes. Na última década, o domínio brasileiro é esmagador. Desde a final em Madri, que consagrou o River de Gallardo contra o Boca, a bandeira argentina não voltou a tremular junto ao troféu. Tornou-se habitual ver finais entre equipes brasileiras, relegando a Argentina a um lugar secundário no continente, como se fosse Uruguai, Chile ou Colômbia.

Então surge a pergunta: quando a paridade se rompeu? Por que a competição se tornou tão desigual? A resposta é evidente: os dólares. “The economy, stupid”, disse James Carville a Bill Clinton.

A Argentina se desorganizou como país e essa ruptura arrastou os seus clubes. A falta de divisas e a necessidade de vender jogadores provocaram uma deterioração competitiva. Enquanto o Brasil contrata grandes nomes ou monta elencos numerosos, na Argentina apenas se sobrevive. A distância hoje é estrutural.

Mas não é só isso. A queda também coincide com o declínio de Boca e River. Os únicos com cacife para competir de igual para igual não conseguem manter o protagonismo. O Boca mal beliscou uma final em 2023 e sequer se classificou para a última edição. O River, por sua vez, não conseguiu replicar o ciclo mais bem-sucedido de Gallardo e também não estará presente este ano. Sem eles em sua plenitude, a brecha se aprofunda.

A perspectiva para 2026 não convida ao otimismo. A hegemonia brasileira segue firme e não parece ameaçada. O problema vai além da bola: é econômico. E, enquanto essa distância não encurtar, o mapa do futebol sul-americano dificilmente mudará.