Poucas rivalidades no futebol de seleções carregam uma carga histórica tão grande quanto Argentina x Inglaterra. A lembrança imediata costuma ser a Copa do Mundo de 1986, com a “Mão de Deus” e o gol que muitos consideram o mais bonito da história dos Mundiais.
Mas a rivalidade entre as duas nações não começa no gramado. Essa tensão já dura cerca de dois séculos de disputas territoriais, aproximações econômicas, guerras e diferentes formas de construir memória.

Nesta quarta-feira, 15, Argentina e Inglaterra devem escrever um novo capítulo da relação nas quatro linhas. Quarenta anos depois da partida histórica no Estádio Azteca, as seleções entram em campo pela semifinal do Mundial de 2026, em Atlanta, nos Estados Unidos.
Assim, para aquecer os motores para esse clássico com enorme pano de fundo além do futebol, PLACAR estudou o assunto, revisitou momentos históricos e buscou a visão de especialistas. Confira:
A relação entre Inglaterra e Argentina
Ao contrário do que se pode imaginar, Inglaterra e Argentina nem sempre estiveram em lados opostos. Muito pelo contrário.
Ao longo do século XIX, o Reino Unido foi um dos principais parceiros comerciais argentinos, ajudando a transformar a economia do país. Tudo isso ocorreu num contexto de expansão das ferrovias, dos portos, dos bancos e dos frigoríficos.

Ferrovia de Banfield, na Argentina – Divulgação / Archivo de La Nación
Comunidades inglesas se estabeleceram em Buenos Aires e em outras cidades do país. Bairros como Hurlingham, Banfield e Temperley nasceram dessa presença britânica. E, nesse intercâmbio, está uma das prováveis origens do pontapé inicial do futebol na Argentina, com ferroviários, comerciantes e marinheiros ingleses introduzindo o esporte.
Enquanto a relação econômica florescia, porém, uma antiga disputa permanecia sem solução. As Ilhas Malvinas (ou Falklands, para os britânicos) já eram motivo de controvérsia muito antes da independência da Argentina.
A questão das Ilhas Malvinas/Falklands
Diferentemente de boa parte da América, o arquipélago não tinha uma população otiginária permanente quando despertou o interesse da Europa. Durante séculos, as ilhas foram ponto de passagem para navegadores e caçadores de focas e baleias, bem antes da atual hipótese de exploração de petróleo na região.
A primeira ocupação permanente foi feita só em 1764, quando os franceses fundaram um pequeno assentamento na ilha Leste. Três anos depois, a França transferiu seus direitos sobre o território para a Espanha, que administrava o Vice-Reino do Rio da Prata.
Na mesma época, os britânicos também haviam estabelecido um assentamento em outra parte do arquipélago, mas a convivência durou pouco. Em 1770, Espanha e Reino Unido chegaram a ficar à beira de uma guerra pela posse das terras. Porém, a crise foi resolvida diplomaticamente, e os britânicos retomaram as ilhas. Poucos anos depois, em 1774, no entanto, a monarquia britânica decidiu abandonar o assentamento por razões econômicas, mas deixando uma placa afirmando soberania da Grã-Bretanha.

Ilhas Malvinas/Falkland Islands – Divulgação
As ilhas permaneceram sob administração espanhola até a independência argentina, em 1816. Pelo princípio jurídico do uti possidetis juris, segundo o qual os novos países herdariam os limites administrativos das antigas colônias espanholas, Buenos Aires passou a considerar as Malvinas parte de seu território. Em 1829, até nomeou o comerciante Luis Vernet como governador do arquipélago e incentivou a criação de um pequeno assentamento permanente.
A situação mudou em 1833, quando uma embarcação britânica chegou às ilhas, retirou as autoridades argentinas e restabeleceu o controle do Reino Unido.
Guerra das Malvinas
Quase 150 anos depois, o embate voltou à tona. Em abril de 1982, a ditadura militar argentina desembarcou nas Malvinas apostando que uma rápida ocupação fortaleceria um governo desgastado por inflação, crise econômica e denúncias de violações aos direitos humanos.
Entrevistado por PLACAR, o historiador e guia de turismo Sebastián Albertino explicou: “Antes das Malvinas, a Argentina esteve muito perto de entrar em guerra com o Chile, mas, felizmente, esse conflito não aconteceu. Entrar na Guerra das Malvinas era a última alternativa que restava ao governo militar para tentar reverter sua imagem.”

Guerra das Malvinas envolveu transportes marítimos e terminou com muitos mortos – Divulgação
O Reino Unido respondeu rapidamente. A então primeira-ministra Margaret Thatcher autorizou o envio de uma força-tarefa naval ao Atlântico Sul para retomar o arquipélago. Depois de 74 dias de combates, o lado argentino se rendeu.
O conflito deixou 649 militares argentinos mortos, 255 britânicos e três civis das ilhas.
Memória da Guerra e “Pibes de Malvinas”
Boa parte dos soldados argentinos enviados às ilhas era formada por jovens conscritos, já que o serviço militar obrigatório ainda vigorava no país. Muitos tinham entre 17 e 19 anos e chegaram ao arquipélago com treinamento limitado, armamentos antigos, poucos agasalhos e graves problemas de abastecimento básico.
Sebastián, então, explica: “O conflito continua presente no dia a dia dos argentinos. Enquanto não recuperarmos a soberania sobre um território que é nosso, isso continuará sendo uma ferida aberta. Outra dor é o ataque covarde dos ingleses ao ARA Belgrano, no qual morreram 323 compatriotas”.
Assim, é justamente dessa memória que ganha força a expressão: “los pibes de Malvinas”.
Originalmente usada para se referir aos jovens soldados enviados ao conflito, a expressão apareceu no verso “Los pibes de Malvinas que jamás olvidaré”, presente na música Muchachos, da banda La Mosca Tsé-Tsé.
“A música ajudou a recolocar o tema e essa expressão nas escolas, universidades e em todos os ambientes do país. Talvez tenha servido para que os jovens de hoje compreendam que cerca de 40% dos mortos nas Malvinas tinham menos de 20 anos”, disse Albertini.

Exército da Argentina para a Guerra das Malvinas teve muitos jovens – Archivo de La Nación
Se a guerra continua viva na memória argentina, a percepção britânica é bastante diferente. Em entrevista à PLACAR, o jornalista inglês Nizaar Kinsella afirma que o conflito ocupa um espaço muito menor no imaginário nacional, especialmente entre a nova geração.
“Muitos jovens sequer conhecem a história em detalhes. Então nem se importam muito com a Guerra das Falklands. Muitos sequer ouviram falar”, disse.
A rivalidade no futebol
Para Kinsella, a rivalidade do ponto de vista inglês tem raízes bem maiores pelo que aconteceu dentro de campo. “Quando Inglaterra e Argentina se enfrentam, as pessoas lembram muito mais de Maradona, da Mão de Deus em 1986. Elas pensam em 1998, no gol de Michael Owen, em como David Beckham foi expulso e na eliminação nos pênaltis.”
Todavia, ao olhar com os olhos argentinos, as coisas se entranham, mas também com a contextualização das quartas de final de 1986 entre Inglaterra e Argentina.

Maradona, o craque da seleção argentina, na Copa do Mundo do México, em 1986 – Sergio Berezovsky
Naquele duelo, apenas quatro anos depois do fim da guerra, Diego Maradona marcou dois dos gols mais famosos da história do futebol: um com a mão, eternizado como “La Mano de Dios”, e outro após atravessar praticamente todo o campo, eleito pela Fifa como o Gol do Século XX.
Personagem político, cultural e esportivo na Argentina, Maradona anos mais tarde escreveu sobre o gol de mão, sem abandonar a carga política. Em sua biografia, o livro Yo soy el Diego, expressou: “Agora posso contar o que naquele momento não podia, o que naquele momento defini como ‘A mão de Deus’, foi a mão de Diego! E foi como roubar a carteira dos ingleses também.”
Na mesma linha, Sebastián Albertini admite que a vitória de 1986 foi um alento ao povo argentino: “Podemos, sim, dizer que foi uma revanche simbólica”.
“Até hoje alguns ingleses dizem que o gol de mão foi um roubo. O povo argentino insiste que as Malvinas foram roubadas. O simbolismo é enorme”, continua.
‘É um jogo de futebol’
Apesar de todo o peso histórica que envolve o confronto, os protagonistas da semifinal de 2026 têm procurado separar futebol e política. Em entrevista coletiva, Lionel Scaloni afirmou que a partida “é apenas um jogo de futebol”. Lionel Messi também evitou relacionar o duelo à Guerra das Malvinas, tal qual Rodrigo De Paul.
Os dois especialistas ouvidos por PLACAR seguem um caminho semelhante, inclusive com o historiador argentino Sebastián Albertini dizendo que embates “não devolverão as ilhas”.

Lionel Scaloni, técnico da Argentina – EFE/ Juan Ignacio Roncoroni
Esse também era o discurso às vésperas do confronto mais emblemático entre as duas seleções. Antes das quartas de final da Copa do Mundo de 1986, o técnico albiceleste Carlos Bilardo rejeitou qualquer associação entre futebol e guerra.
“Misturar o futebol com aquela guerra seria uma falta de respeito aos nossos mortos. Se enfrentarmos a Inglaterra, será um simples jogo de futebol. O futebol é uma coisa, o problema das Malvinas é outra”, disse ao El Gráfico.
Diego Maradona, perguntado por jornalistas nos dias que antecederam o embate se a questão das Malvinas influenciaria, foi ainda mais direto. “Não, não. É apenas futebol.”
Quarenta anos depois, o discurso antes da bola rolar volta a ser o mesmo. Resta saber qual será a história contada depois do apito final.
E afinal… Malvinas ou Falklands?
Na Argentina, o nome oficial é Islas Malvinas, uma adaptação do francês Îles Malouines, em referência aos navegadores de Saint-Malo que participaram das primeiras ocupações europeias da região no século XVIII.
Já o Reino Unido utiliza Falkland Islands, denominação dada pelo navegador inglês John Strong em 1690, em homenagem a Anthony Cary, então visconde de Falkland.
Hoje, o arquipélago tem cerca de 3.700 habitantes, a maioria descendente de colonos britânicos estabelecidos após 1833. Em um referendo realizado em 2013, 99,8% dos eleitores votaram pela permanência como território britânico ultramarino. A Argentina, no entanto, não reconhece a consulta, argumentando que a população atual foi estabelecida depois da ocupação britânica.









