O duelo entre França e Espanha pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, marcado para terça-feira, 13, às 16h (de Brasília), em Dallas, nos EUA, vem sendo tratada por muitos como uma “final antecipada”, em razão da qualidade dos times, e levanta um importante debate relacionado a miscigenação e preconceito.
Às vésperas do duelo entre as seleções, o ex-primeiro ministro espanhol, Mariano Rajoy, foi criticado até mesmo por atletas da Fúria por uma fala de cunho xenofóbico contra o elenco francês.

‘Sem franceses’: o preconceito de Rajoy
Em uma coluna no jornal espanhol El Debate, o ex-premiê espanhol afirmou que a França tem um “elenco de altíssimo nível, mas sem nenhum jogador francês”. A declaração, completamente falsa, acompanha uma série de ataques a jogadores negros do elenco francês, por suas ascendências africanas, algo que se torna recorrente em Mundiais à medida que Les Bleus avançam de fase.
Enquanto dois terços dos atletas da França descendem de familiares africanos, apenas quatro atletas nasceram fora do país e só um na África: Maignan (Guiana Francesa), Brice Samba (Congo), Michael Olise (Inglaterra) e Marcus Thuram (Itália).
As principais estrelas da França são Kylian Mabppé, filho de pai camaronês e de mãe descendente de argelinos, e Ousmane Dembelé, de ascendência malinesa e mauritana. Durante o Mundial, viralizou um vídeo antigo em que Mbappé, então com apenas 12 anos, dizia que “os melhores jogadores franceses foram negros e árabes, exceto Platini e Cantona”.
A primeira grande estrela da França em Mundiais, Just Fontaine artilheiro da Copa de 1958, nasceu no Marrocos, enquanto o herói do título de 1998, Zinedine Zidane, tinha raízes na Argélia (nação que o filho de Zizou, Luca, defendeu nesta Copa). O debate sobre ser ou não francês acompanha a seleção tricolor há décadas e alimenta o preconceito dentro do próprio país. A célebre frase de Karim Benzema, também filho de argelinos, ainda em 2011, define bem o conflito: “Quando eu marco gols, sou francês. Quando não marco, eu sou árabe.”
Jogadores da Espanha respondem

Fabian Ruiz marcou o primeiro gol da Espanha diante da Bélgica (EFE/EPA/SCOTT STRAZZANTE)
Após a fala do ex-premiê espanhol, jogadores da seleção rebateram e repudiaram suas declarações. Borja Iglesias, centroavante da equipe, afirmou que vê o “multiculturalismo como uma riqueza”, enquanto o Cubarsí defendeu que ser francês independe da cor da pele.
“Isso me surpreende e me entristece. Consigo entender que ele não tenha dito isso com más intenções, mas é preciso ter mais cuidado com esse tipo de comentário. O multiculturalismo da França é uma riqueza. Somos todos diferentes, é isso que nos enriquece”, disse Iglesias, atacante do Celta de Vigo, em entrevista à DAZN.
“Se eles jogam pela seleção francesa, são franceses, independentemente da cor da pele. Devemos demonstrar tolerância com todos, pois todos merecemos respeito”, defendeu Cubarsí, zagueiro do Barcelona, em entrevista à rádio catalã RAC 1.
Pedro Sanchéz, atual primeiro ministro do país, classificou as declarações de Rajoy como xenofóbicas: “A Espanha é de quem a ama e a trabalha. Não de quem a envergonha com declarações xenofóbicas. França, nos vemos nas semifinais. Que vença o melhor e que perca o racismo”.
Yamal é o símbolo do multiculturalismo na Espanha
A própria seleção espanhola deposita suas esperanças em um craque de origem multicultural. Lamine Yamal, a estrela da equipe, nasceu em 13 de julho de 2007, no município vizinho de Esplugues de Llobregat. É espanhol, portanto, filho de Mounir Nasraoui, do Marrocos, e de Sheila Ebana, de Guiné Equatorial, e utiliza as bandeiras africanas em suas chuteiras.
Em 2025, PLACAR visitou o bairro de Rocafonda, na cidade catalã de Mataró, onde Lamine Yamal cresceu, e mostrou como o futebol tem conseguido unir espanhóis à comunidade estrangeira e, as poucos, derrubar velhos preconceitos no país.
Lamine pode formar dupla de ataque com Nico Williams, que se recuperou de lesão e estreou diante da Bélgica. Nico é filho de refugiados ganeses que cruzaram o deserto do Saara para chega à Europa. Enquanto seu irmão mais velho, Iñaki Williams, optou por defender a seleção de Gana pela ascendência, o irmão mais novo escolheu defender a Espanha. Ambos jogam no Athletic Bilbao, clube que só admite atletas nascidos no País Basco.
O País Basco, região que compreende parte do norte da Espanha e do sul da França, também “afrancesou” parte da seleção espanhola. Durante a Eurocopa de 2024, a Fúria tinha Aymeric Laporte e Le Normand como dupla de zaga titular, dois jogadores nascidos no território basco francês. Laporte permanece na seleção e pode encarar seu país de nascimento nesta terça.










