Marrocos e França duelam nesta quinta-feira, 8, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, reeditando o embate das semifinais de 2022 (vencido por 2 a 0 pelos franceses). As nações possuem uma conexão histórica que envolve geopolítica e tem ligação direta com o maior artilheiro de uma única edição de Copa do Mundo: Just Fontaine.

Grande destaque da seleção da França semifinalista da Copa do Mundo de 1958, Just Fontaine veio ao mundo em 18 de agosto de 1933, em Marrakech, quando o Marrocos ainda era um protetorado francês. Reivindicado pelos franceses em 1912, por meio do tratado de Fez, Marrocos só conquistaria sua independência do domínio europeu em 1956, dois anos antes do torneio que consagrou Fontaine.

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Quase sete décadas depois, o atacante marroquino segue dono de um dos recordes mais longevos do futebol internacional: os 13 gols marcados em uma única edição de Copa do Mundo. Fontaine quebrou de imediato a já impressionante marca anterior, estabelecida pelo húngaro Sándor Kocsis em 1954 (11 gols no vice-campeonato) e segue de pé, 68 anos e 17 copas depois (mas com Lionel Messi e seu compatriota Kylian Mbappé dispostos a desafiá-lo).

A história de Just Fontaine e o recorde de 1958

Filho de pai francês e mãe espanhola, Fontaine cresceu jogando bola na região do Magrebe, no norte da África. Estreou no futebol ainda adolescente no Union Marrocaine e, após algumas temporadas atuando no futebol marroquino, se mudou para a França aos 19 anos, onde defenderia Nice e, principalmente, o Stade de Reims, um dos gigantes do futebol europeu dos anos 1950.

Foi vice-campeão da Copa Europeia de 1958-1959 e conquistou o campeonato francês quatro vezes. Mesmo tendo de lidar com o alistamento militar obrigatório do exército marroquino, que custou 30 meses de sua dedicação plena ao esporte, se consolidou como uma das maiores estrelas do jogo na década de 1950, chegando a viajar de trem do quartel militar aos estádios para não deixar de disputar partidas.

A passagem de Fontaine pela seleção francesa foi curta, mas inesquecível: 21 partidas pelos Les Bleus, marcou 30 gols, média de 1,42 gol por partida.  Convocado sem muita expectativa, por conta das lesões que acometeram seus concorrentes no ataque francês: Thadeé Cisowski, o goleador das eliminatórias e René Bliard se machucaram antes da competição começar. Assim, o técnico Albert Batteux deu voto de confiança ao jovem Just para representar a França como parte do time titular que chegou a Suécia em 1958. Time forte, que contava com craques como Raymond Kopa e Roger Piantonis.

Naquela Copa do Mundo, transformou seis partidas em um show particular: marcou três gols contra o Paraguai, dois diante da Iugoslávia, um sobre a Escócia, dois contra a Irlanda do Norte. Veio então a semifinal contra o Brasil. Na derrota europeia por 5 a 2, empatou a partida aos 10 minutos do primeiro tempo. Pelé, aos 17 anos, foi o herói da classificação brasileira com três gols, como mostrou PLACAR em um fascículo sobre a Saga da Jules Rimet, publicado em 2006:

Fechou sua campanha histórica com quatro gols sobre a Alemanha Ocidental na disputa pelo terceiro lugar. Foram 13 gols em apenas seis jogos, uma média superior a dois por partida, um tento a cada 42 minutos em campo. A França terminou em terceiro, e Fontaine entrou para a eternidade.

Uma curiosidade sobre a façanha de Just Fontaine: seu desempenho histórico aconteceu com chuteiras emprestadas. Após rasgar seu único par durante o torneio, Fontaine recebeu um calçado do reserva Stéphane Bruey, que calçava o mesmo número.

O destino foi cruel com o artilheiro de 1958. Lesões recorrentes no tornozelo obrigaram o atacante a encerrar a carreira precocemente, em 1962, quando tinha apenas 28 anos. Mesmo assim, terminou sua trajetória com uma marca que perdura até hoje. Ele faleceu em 2023, aos 89 anos.

A expansão do Mundial para 8 jogos e a fome de gols de Messi, Haaland, Kane e Mbappé na Copa de 2026 ameaçam igualar o número mágico de Just, mas por ora os 13 gols em terras suecas seguem sendo um recorde singular na história da Copa, da seleção da França e do futebol de Marrocos.

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Edição Saga da Jules Rimet, publicada por PLACAR em 2006