Quando o árbitro norueguês Espen Eskås apitou o fim de partida para Uruguai 2 x 2 Cabo Verde, jogo de 2ª rodada do grupo H da Copa do Mundo, ficou evidente aos olhos dos espectadores o violento contraste de sentimentos entre as duas equipes. Do lado de Cabo Verde, uma enorme alegria por conquistar mais um ponto contra uma seleção campeã do mundo, resultado crucial para as chances de classificação do pequeno país anglófono na próxima fase do mundial, somada a uma leve frustração pelo apito final ter vindo num lance de potencial perigo cabo-verdiano na bola parada.
Na perspectiva uruguaia, desastre total. Sem conseguir vencer desde outubro de 2025, a celeste chega a 5 empates seguidos, acirrando a percepção de que o trabalho do treinador Marcelo “El Loco” Bielsa chegou ao seu teto técnico justamente no momento mais importante. O desfalque de Giorgian De Arrascaeta e a não-entrada de Rodrigo Zalazar fazem do meio campo charrúa um quase deserto de ideias, liderado pelo apagado Federico Valverde.
A figura maior da partida, contudo, foi um goleiro; dessa vez, Vozinha passou batido, com uma atuação fraca. O nome decisivo do jogo foi outro quarentão: Fernando Muslera, o goleiro recordista do selecionado sul-americano. Na partida em que superou Edinson Cavani como jogador com mais partidas pela Seleção Uruguaia em Copas do Mundo (18, ao todo, desde 2010), o defensor da meta celeste falhou mais uma vez.
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Já no primeiro tempo da estreia contra a Arábia Saudita, Muslera havia errado feio ao bater roupa, gerando assim o gol de Abdulelah Al-Amri. Nesta segunda rodada, contra os Tubarões Azuis, erro duplo: armou muito mal a barreira na falta cobrada (e convertida) por Kevin Pina e saiu do gol de maneira afobada na lambança que rendeu o empate sacramentado por Hélio Varela.
Antes mesmo do apito final, o nome de Muslera já figurava como trending topic no X (antigo Twitter). Nas demais redes sociais, vídeos de falhas pregressas do camisa 23 viralizaram, como quando deixou a bola escapar de forma bizarra na eliminação uruguaia para a França na Copa do Mundo de 2018.
A origem de Muslera
A internet como um todo reverberou o questionamento que muitos jornalistas esportivos levantam desde o início da reconstrução da Seleção do Uruguai, no fim dos anos 2000: Como um país que produz tantos bons jogadores de linha se vê com um titular recorrentemente inseguro por duas décadas?
Para responder essa pergunta, é preciso conhecer melhor a história de Muslera, um goleiro que nunca se firmou entre a elite da posição, mas que já teve seus dias de herói nacional e é ídolo incontestável de um dos maiores clubes da Turquia. Néstor Fernando Muslera Micol nasceu em Buenos Aires, no dia 16 de junho de 1986. Enquanto aquele bebê, filho de um casal uruguaio, vinha ao mundo em uma maternidade na capital argentina, a seleção albiceleste arrancava uma vitória histórica sobre o Uruguai pela Copa do Mundo no México.

Fernando Muslera, goleiro do Uruguai na Copa do Mundo de 2026 – Reprodução/X/Uruguay
O time de Bilardo triunfou no clássico sul-americano por 1 a 0, gol de Pedro Pablo Pasculli, avançando para as quartas de final da Copa do Mundo que consagraria Diego Maradona. A comoção da partida fez a equipe de parteiros sugerir aos pais do bebê Muslera que o batizassem de “Pedro Pablo”, ideia rejeitada e respondida com uma homenagem a Fernando Morena, goleador histórico do futebol uruguaio.
Oito meses depois, a família Muslera estava de volta ao Uruguai, onde Fernando iniciaria sua trajetória no futebol de Montevidéo. Revelado pelo Wanderers em 2004, teve atuações de destaque onde caiu nas graças da imprensa local pelos seus reflexos rápidos e defesas acrobáticas. O gigante Nacional, tricampeão da Libertadores, tomou nota e buscou a contratação de Muslera em 2007. Ele rapidamente se tornou titular, mas disputou apenas 14 partidas antes de ser negociado junto à Lazio, da Itália.
A estabilização – ou quase – de Muslera
Foi no futebol italiano que Muslera começou a desenvolver uma fama de que o perseguia pelo resto da carreira: a pecha de ser um goleiro capaz de fazer uma grande defesa em um minuto e cometer uma falha grotesca logo em seguida. Apelidado carinhosamente de “Castorino” pela torcida laziale, o arqueiro de 1 metro e 90 marcou época em Roma por regularidade de sua irregularidade.
Assim que chegou, teve uma performance grotesca numa goleada de 5 a 1 aplicada pelo Milan e acabou na reserva de um quase-aposentado Marco Belotta de 44 anos de idade. Na temporada seguinte, vieram grandes atuações sobre Sampdoria, Napoli e Genoa, alternadas por frangos absurdos contra Bari e Palermo e um ótimo Derby Della Capitale contra Roma. Os altos e baixos foram mais do que o suficiente para que Muslera vencesse a disputa pela titularidade com Juan Pablo Carrizo e Albanl Bizzarri, além dos títulos da Coppa Italia e da Supercopa Italiana.
O grande divisor de águas na carreira de Muslera chegou na Copa do Mundo de 2010. Com a ajuda de uma linha defensiva que contava com Diego Lugano, Victorino, Fucile e Godín, não sofreu gols durante as três partidas da celeste na fase de grupos. Apesar de falhar no gol marcado pela Coreia do Sul, nas oitavas, seguiu confiante.
Nas quartas de final, Muslera foi decisivo ao pegar dois pênaltis na disputa contra Gana que colocou os uruguaios de volta às semifinais da Copa do Mundo após 40 anos. Na Copa América do ano seguinte, novamente foi figura de destaque no título que consagrou a reconstrução liderada pelo técnico Oscar Tabaréz. Pegou pênalti na disputa que eliminou os anfitriões do torneio, se eternizando de vez na meta uruguaia em solo Argentino.
Carreira na Turquia
Foi em 2011 que Muslera se transferiu para o Galatasaray, da Turquia, clube que representou por quase toda a sua carreira, angariando o carinho da torcida no processo. O status de milagreiro-frangueiro continuou no futebol europeu, com falhas recorrentes nas campanhas do gigante turco na Liga dos Campeões. isso não tirou dele a titularidade nem por clube, nem por seleção. Seguiu sendo a primeira escolha de Tabaréz por toda a década de 2010, disputando as Copas de 2014 e 2018.
Mesmo quando atravessou uma visível queda de rendimento, a concorrência de Martin Silva, Castillo, Sebastian Sosa e Campana nunca ameaçou seu posto. A mudança aconteceu apenas quando Tabaréz deixou o comando da Celeste em 2021 e Diego Alonso foi escolhido para conduzir o final da campanha da equipe nas eliminatórias. Na oportunidade, a estrela do goleiro Sergio Rochet, destaque no Nacional, enfim, tirou Muslera da titularidade.

Sergio Rochet, goleiro do Internacional – Divulgação / Internacional
Do banco de reservas, ele viu o Uruguai ser eliminado na fase de grupos da Copa do Mundo no Catar, algo que não acontecia desde 2002. Continuou na reserva pela maior parte do ciclo da Copa de 2026 e anunciou a aposentadoria da seleção em abril de 2024, pouco antes da Copa América disputada nos Estados Unidos, na qual o Uruguai de Bielsa se despediu de Luís Suarez terminando na terceira colocação. Parecia ser o adeus definitivo dos poucos remanescentes do elenco semifinalista na África do Sul.
Volta ao Uruguai
Em 2025, Muslera se despediu da Turquia após quebrar o recorde de jogador que mais vezes atuou pelo Galatasaray na Super Lig. Foram 14 temporadas, 19 títulos e 2 gols marcados. Ao chegar no Estudiantes de La Plata, calou críticos com ótimas atuações, sendo figura-chave na campaha de semifinalista do clube na Libertadores, o que fez com que Bielsa o convocasse após três anos de ausência, demovendo Muslera da ideia de não jogar mais pela seleção. A má fase Rochet, agora goleiro do Internacional, também colaborou para que o retorno acontecesse.
“Depois de uma pausa de quase quatro anos, voltar à minha melhor forma e poder reintegrar a seleção nacional do meu país me deixou muito feliz. Muitas coisas pessoais aconteceram durante esses quatro anos que mudaram minha decisão e abriram novas portas” comentou à AUFTV, canal oficial da seleção.
Foi assim que Fernando Muslera chegou ao mundial da América do Norte: como uma história de superação em potencial. O ídolo de 40 anos que recuperou a titularidade por mérito próprio e chegou a marca histórica de 5 Copas do Mundo. Infelizmente para os torcedores uruguaios, o titular da seleção segue sendo um reflexo da inconstância que acomete a celeste desde o fim da geração de ouro, da qual Muslera fez parte. Sua presença no elenco é um lembrete de tempos melhores. Suas atuações até aqui, a confirmação de que eles definitivamente passaram. Ao Uruguai, resta a partida final do grupo: sexta-feira, dia 26, contra a Espanha, favorita ao título. Diante dos europeus, a obrigação do time de Marcelo Bielsa é ganhar para seguir sonhando com a classificação e evitar, assim, mais um vexame em Copas.




