A convocação da seleção brasileira, apontada por críticos como um verdadeiro circo pelas exaustivas e inúteis apresentações antes do anúncio dos 26 nomes pelo técnico Carlo Ancelotti, foi só um prenúncio de uma tragédia anunciada.
Houve quem comparasse a megafesta no Museu do Amanhã, em 18 de maio, no Rio de Janeiro, a uma produção de Bollywood – nome dado à indústria cinematrográfica indiana, conhecida pelos excessos. A CBF, curiosamente, não viu assim.

No mesmo dia, a entidade publicou um longo texto em seu site elogiando o “ineditismo do evento”, que contou com mais de 700 profissionais de 14 países. “O ineditismo do evento que marcou a convocação dos 26 jogadores da seleção brasileira para a Copa do Mundo deste ano foi elogiado por ex-jogadores e celebridades que compareceram ao Museu do Amanhã”, dizia a nota.
Na prática, não foi bem o que se viu. Não bastasse o blue carpet para a chegada dos convidados mais ilustres, o público se aglomerava nas dependências do espaço em busca de brindes distribuídos por patrocinadores. A chegada de Ancelotti em um carro plotado com as cores da seleção era um claro sinal da total falta de senso de ridículo de um país que teve quatro treinadores no ciclo – Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Junior e Ancelotti -, além de um ciclo conturbado fora dele.

Neymar chora, abatido, em sua ‘última dança’ pela seleção brasileira – Alexandre Battibugli/Placar
Do Catar para cá, até Samir Xaud assumir, a crise institucional atravessou idas e vindas do presidente Ednaldo Rodrigues, definitivamente afastado na Justiça por uma suposta falsificação de assinatura de um dos vice-presidentes da entidade. Sob o seu comando, sobraram pataquadas, como a espera por mais de um ano por Ancelotti, que na ocasião acabou renovando contrato com o Real Madrid, além de vexames esportivos – a ausência nos Jogos Olímpicos de Paris-2024 e a goleada por 4 a 1 sofrida para a Argentina -, e até mesmo uma tentativa de uma mudança estatutária para que pudesse ser reeleito e permanecer no cargo até 2034.
Voltando a convocação, a escolha de Neymar pelo técnico italiano, preterindo a João Pedro, do Chelsea, que vinha com números muito superiores, somada à manutenção do camisa 10 no grupo mesmo com uma lesão grau 2 na panturrilha direita, foi a maior – mas não única – incoerência daquele que é conhecido como Mr. Champions, alcunha recebida pelos sete títulos de Liga dos Campeões, cinco deles como treinador.
Ancelotti bancou por cinco Datas Fifas que só chamaria o jogador caso ele estivesse 100% fisicamente, mas rasgou a própria cartilha depois. Os números provam o erro: foram apenas 55 minutos na Copa, todos vindos do banco de reservas, evidenciando que Neymar não suporta mais o futebol de alto nível.
Mas os problemas não pararam por aí. O técnico escalou como titular o meio-campista Lucas Paquetá, outro que teve poucos jogos sob o seu comando. Também optou por Danilo na lateral direita após a lesão de Wesley – atleta pouco aproveitado até mesmo no Flamengo e, mesmo assim, o primeiro garantido na lista final para o Mundial. Mais tarde, ainda surpreendeu ao convocar Ederson, outro volante, para repor a perda de Wesley.

Bruno Guimarães perdeu um pênalti aos 13 minutos do 1º tempo – Angel Colmenares/EFE
O treinador também inexplicavelmente “sumiu” com Luiz Henrique, elogiado pelas aparições nos últimos amistosos preparatórios, mas que jogou por apenas 28 minutos na Copa, no empate por 1 a 1 diante do Marrocos, na estreia.
No decisivo jogo contra os noruegueses, sem poder contar com Paquetá, as modificações mais óbvias pareciam ser a entrada do volante Danilo Santos ou o recuo do atacante Matheus Cunha, neste caso para abrir espaço para Endrick. Ancelotti, contudo, preferiu Martinelli em uma função que não atua.
Ele também foi duramente questionado pela escolha do volante Bruno Guimarães como batedor de pênalti enquanto o jogo da eliminação estava empatado sem gols. O fato gerou estranheza dado o bom momento de Vinicius Junior, que costuma cobrar as penalidades no Real Madrid – foram sete só nesta temporada, com cinco gols marcados.
Para completar, promoveu no jogo mais importante do ano substituições que acabaram com a intensidade da equipe: a entrada de Neymar e de Danilo Santos nas vagas de Rayan e Martinelli, descaracterizando ainda mais o conjunto brasileiro. Curiosamente, um minuto antes do cooling break, permitindo ao técnico norueguês Stale Solbakken transmitir aos seus comandados novas instruções para frear a ideia de jogo rival.
Neymar entra como falso 9, mas com a missão de buscar a bola e criar, enquanto Endrick e Vini Jr atuam bem abertos – tática essa jamais testada pelo treinador. Que cobrou o seu preço: um time frágil defensivamente, mais exposto. Endrick não cobria Danilo, como fazia Rayan. E Neymar parecia perdido.
Para corrigir tudo isso, outro erro: a entrada do estreante Éderson para preencher o lado direito. O primeiro gol nasce justamente por ali, também contando com a lentidão de Casemiro e Danilo.

Ancelotti sofreu eliminação histórica para o Brasil em Copas – Christopher Neundorfer/EFE
Ainda houve tempo para um gol do Brasil em pênalti convertido por Neymar – bem ao estilo Neymar, que parece ter afã de ser “protagonista até mesmo do fracasso”, como disse o jornalista Thales Machado, de O Globo. No lugar de pegar a bola e tentar guiar o time a uma reação, o jogador preferiu mandar beijinho e trocar provocações com o goleiro Nyland antes e depois do gol.
Segundo leitura labial divulgada pelo Fantástico, o brasileiro perguntou ao arqueiro: “Onde você quer [que eu bata]?”. O goleiro respondeu: “Na trave, tenta na trave”. Após a cobrança, o camisa 10 brasileiro foi até o jogador e disse: “A mim não. A mim não, otário. Comigo não”. Ainda se desentendeu com Martin Odegaard, empurrando o capitão norueguês e outros adversários em uma tentativa de segurar a bola e gastar o tempo.

Neymar se estranhando com Orjan Nyland, goleiro da Noruega, durante eliminação do Brasil – Alexandre Battibugli/Placar
A pior campanha da seleção brasileira em uma Copa do Mundo desde 1990 é também o pior momento da carreira de Carlo Ancelotti. Mesmo quando não conseguia extrair o melhor futebol de seus comandados em clubes, Carletto sempre alcançava as fases mais agudas dos torneios. Para muitos, a expectativa era de que, no fim, ele conseguiria de novo, de novo e de novo. O que não ocorreu. Desta vez, não houve a virada mágica, como contra os japoneses, ou a mística da época em que dirigia o Real Madrid chamada de “maldição”.
Ancelotti repetiu várias vezes aos jogadores e ao público o mantra de que o sonho do hexa era possível. Não houve uma só entrevista em que os atletas não se referissem ao Mister como o nome certo para conduzi-los a um rumo completamente diferente das últimas participações em Copas.
Em entrevista à PLACAR de janeiro, o treinador chegou a dizer que estudou as duas últimas eliminações do Brasil — nas Copas de 2018 e 2022, para Bélgica e Croácia, respectivamente —, mas caiu em um erro terrível: o de falar somente o que os jogadores gostariam de ouvir. “Foi má sorte, mais má sorte do que erro”, disse na ocasião.
Chegou a hora das verdades: se profundas mudanças não acontecerem agora, 2030 será apenas outra tragédia anunciada.






