Antes de tudo, faz-se necessário esclarecer o título. O leitor e a leitora desavisados podem não captar a ironia da frase. Testemunhas dizem que meu nascimento foi repleto de alegria e felicidade. Porém o protagonismo do advento de um novo indivíduo é ofuscado pelo maior evento do Planeta Terra.

A estimativa é que em 2026 cerca de 5 bilhões de pessoas assistam aos jogos da Copa do Mundo. Mais da metade de toda a população mundial, calculada em torno de 8,3 bilhões de pessoas. Em 1982, quando eu nasci, a audiência global acumulada da Copa do Mundo foi de 10 bilhões de espectadores, em um acumulado de audiência de todos os jogos. Muita gente questiona essa medição, sem a mesma precisão digital dos institutos de pesquisa atuais, mas é inegável que o torneio de 1982 consolidou a competição da Fifa como um evento de massa global.

Meus pais estavam em casa, no dia 14/06, quando o Brasil estreou com uma vitória magra sobre a União Soviética, que saiu na frente do placar. Sócrates empatou aos 30 minutos do segundo tempo e Éder garantiu a vitória aos 43, no bico do corvo. A expectativa pelo meu nascimento gerou um apagão na memória do meu pai, que nem se lembra onde, como e até se viu essa partida.

Jogo do Brasil contra a União Soviética, na Copa do Mundo de 1982 – Pedro Martinelli/PLACAR

No dia seguinte, 15/06, minha mãe e meu pai foram ao ginecologista. Doutor Daniel disse que não dava para esperar mais. Já era a 42a semana de gestação e o primogênito dentro da barriga não dava sinais de que nasceria por conta própria. Se eu não viesse ao mundo de parto normal até o dia seguinte, 16/06, era para meus pais serem internados na maternidade logo pela manhã.

A tristeza se abateu sobre minha mãe, pois ela queria que fosse parto normal. Ela teve uma ideia brilhante, de tentar fazer uma indução, caso eu não nascesse sozinho na data combinada. O médico deu uma gargalhada dizendo que as mulheres, normalmente, não querem parto normal, nem indução, querem cesárea logo, pois acham que sofrerão menos. “Ana Lucia quer o contrário”, dizia ele em meio a risos. De 1982 para 2026 muita coisa mudou e posso me orgulhar de dizer que minha mãe foi pioneira nesse entendimento de que o parto normal deva sempre ser prioritário. A decisão é dela e delas, de todas as mães, de todas as mulheres.

Amanheceu o dia 16 de junho de 1982. Dino, meu pai, engenheiro civil e homem 100% racional, estava mais perdido do que cebola em salada de fruta. O clima em São Paulo era ameno, temperaturas caindo, sem chuva, típico do outono paulistano. Um contraste com o ensolarado verão espanhol, com temperaturas castigando os atletas em campo na Copa do Mundo. Às oito horas da manhã foi feita a indução, mas não teve jeito. Este que vos escreve não estava muito a fim de sair de dentro do ventre aconchegante da mãe.

Eu nasci às 11 horas e 45 minutos do dia 16 de junho de 1982, três dias depois do início da competição com a surpreendente derrota da campeã Argentina para a Bélgica por 1 a 0 no Camp Nou em Barcelona. Cinco horas depois do meu nascimento, rolou a maior zebra da competição: Alemanha Ocidental 1 X 2 Argélia. Rummenigge até marcou gol, mas foi anulado pela forte zaga argelina. No mesmo dia também teve um 3 a 1 de respeito da Inglaterra contra a França e outra zebra: o empate heroico de Honduras contra a Espanha, que jogava em casa no Estádio Luis Casanova em Valência.

Tive alta da maternidade no dia em que o Brasil fez 4 a 1 na Escócia, gols de Zico, Eder, Falcão e do zagueiro Oscar, que jogava no São Paulo, time do Morumbi. Estádio vizinho ao hospital onde nasci.  Não havia nenhum jogador do Palmeiras naquele selecionado, talvez por isso não tenha sido campeão. Em todos os nossos cinco títulos mundiais, havia palmeirenses e são-paulinos na seleção brasileira. No time de Carlo Ancelotti em 2026 também não há.

Éder, do Brasil, comemorando um gol contra a Escócia, durante jogo da Copa do Mundo de 1982 – J.B Scalco/PLACAR

Minha mãe constantemente ficava brava com as enfermeiras pois o hospital parava em dias de jogos do Brasil e os recém-nascidos dividiam as atenções com os jogos. Há quem diga que essa foi a competição com maior qualidade futebolística entre as seleções.

Quando o Brasil fez 4 a 0 na Nova Zelândia, em 23 de junho, completei uma semana em casa. Eu sofria com uma cólica daquelas. Diagnóstico: intestino preso. Meu pai leu em algum lugar que suco de alface, batido no liquidificador, era bom para resolver o problema. Não se sabe quantas folhas de alface foram necessárias e nem quantos copos de suco eu tomei. O fato é que meu pai não viu os gols de Falcão, Serginho Chulapa e os dois de Zico, um deles de voleio. Coisa linda, que ele só viu no compacto do Globo Esporte no dia seguinte.

Passamos da primeira fase e o Brasil foi para um triangular com Argentina e Itália. Todos os jogos no Estadi de Sarriá, em Barcelona. Construído em 1923 e demolido em 1997, foi a casa do RCD Espanyol. No primeiro jogo, em 02 de julho, passamos fácil pela Argentina. Zico, Serginho Chulapa e o lateral Júnior marcaram. O jogo foi às 17h15. Em casa, foi difícil acompanhar o segundo tempo. Meu jantar era prioridade. Eu dormia cedo e não podia comer muito tarde pra não deitar com a barriga cheia. Meus pais nem viram o gol de honra dos argentinos, marcado aos 44 do segundo tempo. Já estavam no banho comigo.

Três dias depois, no mesmo horário e no mesmo local, a partida que definiria o futuro do Brasil e a possibilidade de avançar para as semifinais. Como era um jogo contra a Itália, a família do meu pai, de ascendência italiana, resolveu se reunir. Tudo bem que 05 de julho de 1982 caiu numa segunda-feira, mas era como se fosse domingo. Como diria Raul Seixas, “o empregado não saiu pro seu trabalho pois sabia que o patrão também não tava lá”.

Ninguém saiu de casa, e quem saía no máximo ia pra rua soltar fogos ou encontrar os amigos pra ver a partida. Com três semanas de vida, não pude degustar a macarronada da minha avó Helena. Pelo menos aproveitei o atraso nos anos seguintes. Tudo era feito por ela e pela minha tia Giselda. Do molho, com tomate em pedaços, à massa, cujos fios de espaguete eram milimetricamente cortados na mão durante horas. A toalha da mesa era branca apenas por alguns minutos. Bastava o almoço sair do forno que o tecido começava a virar alvirrubro.

Falcão comemora o gol do Brasil na “Tragédia do Sarriá”, em 1982 – JB Scalco/PLACAR

A “Tragédia do Sarriá” foi testemunhada pela minha família, e por aquele bebê com menos de um mês de vida, na ressaca de uma macarronada que não caiu bem no estômago. A vitória do pragmatismo sobre o futebol arte foi um balde de água fria naquele grupo de pessoas de classe média, reunidos em volta de uma mesa redonda de madeira maciça. Meu pai também não se lembra de ter visto ao vivo os gols da partida. Nem minha mãe. É possível que eu estivesse dormindo. Não há testemunhas disso. Ninguém lembra detalhes do dia. Nem mesmo que o recém-nascido estava lá. A dor da derrota foi imponente!

É curioso o resgate dessas memórias futebolísticas no momento em que trabalho com jornalismo esportivo e faço parte da equipe da revista PLACAR, que vai estar presente na 15copa seguida desde 1970. Eu tenho uma fotografia com a camiseta do Brasil de 1982, um presente do meu tio-avô Zezé. Foi a primeira com o Brasão da CBF, até 1978 ainda era CBD. Ela foi tirada no início de 1984 e eu sorria, ignorando o peso dramático da vestimenta. A camiseta se perdeu ao longo dos anos. Mas eu ainda tenho o par de chuteiras, verde e branca, que meu pai pendurou na porta do quarto no hospital quando eu nasci.

Não lembro dos jogos da Copa do Mundo de 1986, tinha apenas 4 anos de idade. Mas lembro das figurinhas que vinham nas embalagens de chiclete. Inclusive, escondido dos meus pais, colava nas paredes do fosso do elevador no prédio onde morava. Meu maior ato de subversão na época.

Rua decorada para a Copa do Mundo de 1982 (ANTONIO AUGUSTO FONTES/PLACAR)

A primeira PLACAR que eu tive, presente do meu pai, foi uma edição especial sobre o Palmeiras de 1989. Um ano depois, na Copa de 1990, chorei de forma inconsolável após a derrota para a Argentina. Outra dor imponente! Lembro de mim jogado no corredor, esmurrando o chão de tacos, revoltado com aquele lance derradeiro de Caniggia e Maradona. Vivi o Tetra em 1994 e comemorei bastante o Penta em 2002, principalmente pelo fato do Marcos estar no gol. Não tenho torcido muito ultimamente por uma falta de identificação crônica dos jogadores com a torcida. Enrico, meu filho, já grita gol quando vê uma bola, e não fui eu que ensinei. Já beija o símbolo do Palmeiras quando vê. Já dorme abraçadinho com o Gobatto. A mãe deu uma camiseta do Brasil pra ele, parecida com a minha de 1982 até. Ontem ele me disse que torceria para o Brasico, mistura de Brasil com Enrico. O futebol se embaralha com a memória afetiva da criança brasileira.

* Piero Sbragia é jornalista, documentarista, doutorando em Artes na UFMG e gerente de produção e projetos incentivados na revista PLACAR. Dirigiu e escreveu “Parem as máquinas!” (2026), primeiro filme produzido pela PLACAR em 56 anos. Escreveu “Na Ilha: Conversas sobre Montagem Cinematográfica” (2022) e “Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade” (2020). Foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2022.