O Azteca, o mais icônico dos estádios de Copa do Mundo, foi onde o Brasil goleou a Itália por 4 a 1 e conquistou o tri em 1970, no México. O show de Pelé, Jairzinho e companhia valeu a posse da taça Jules Rimet, batizada em homenagem ao dirigente francês que criou a competição, e que seria entregue de forma definitiva ao primeiro tricampeão.
A Jules Rimet acabaria roubada na sede da CBF em 1983 e jamais vista – reza a lenda que foi derretida e por um argentino! Mas a história do pai da competição que segue apaixonando torcedores, e cuja edição de 2026 será aberta nesta quinta-feira, 11, no mesmo Azteca, é eterna.
Em 2006, no aquecimento para a Copa da Alemanha, PLACAR publicou nove fascículos sobre a Saga da Jules Rimet, nos quais textos deliciosos escritos por Max Gehringer narraram a história dos Mundiais.

O Blog #TBT PLACAR reproduz abaixo os primeiros capítulos do primeiro fascículo, sobre a Copa de 1930 no Uruguai.
Tão perto tão longe
Desde os primórdios, guando nem era considerado um esporte sério. o futebol já encantava multidões. Mas o caminho para a realização da primeira Copa do Mundo era cheio de problemas
O futebol foi uma das atrações da segunda edição dos modernos Jogos Olímpicos, disputados em 1900, em Paris. Porque não era encarado como um esporte sério, como o atletismo, o futebol foi aceito mais como uma curiosidade, tanto que nem distribuiu medalhas. Na partida
inaugural, um time inglês – o Uptown Park – derrotou por 4 x 0 um combinado francês, representando a União dos Esportes Atléticos daquele país. Três dias depois, os donos da casa golearam um selecionado da Bélgica por 6 x 2. E, para surpresa dos organizadores, os dois jogos atraíram milhares de animados torcedores. Esse sucesso de público entusiasmou os vizinhos belgas e franceses, que decidiram criar um órgão para organizar torneios entre seleções europeias.
Para tanto, porém, era imprescindível a adesão dos britânicos, praticamente os donos da bola na época. Sua federação – a Football Association, FA – já existia desde 1863 e eles ditavam as regras, por meio da International Board, um órgão da FA constituído em 1882. Mas os britânicos descartaram a ideia, por não verem “vantagens na formação de uma federação continental” Apesar disso, em 21 de maio de 1904 nasceu a Fifa. Representantes de França, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Suécia e Suiça (e de um time espanhol, o FC Madrid – mais tarde, Real Madrid) reuniram-se em Paris e elegeram o jornalista francês Robert Guérin, do Le Matin, como primeiro presidente de entidade.

A Alemanha associou-se imediatamente e logo foi seguida por Áustria, Itália e Hungria. Como os fundadores mantinham a esperança de uma futura adesão britânica, a Fifa tem um nome metade francês – Fédération Internationale – e metade inglês – Football Association. Para alegria geral, a Inglaterra entrou para ò grupo em abril de 1905, com a condição de que um filho da ilha assumisse a presidência, o que de fato ocorreu (o cargo foi ocupado por Daniel Burley Woolfall, entre 1906 e 1916). Fazia todo sentido.
Além de ter espalhado o futebol pelo mundo no século 19, a Inglaterra dominava totalmente o esporte nos primeiros anos do século 20. Entre 1906 e 1909, foram três memoráveis goleadas sobre a Franca: 15 x 0 em Paris (1906), 12 x 0 em Londres (1908) e 11 x 0 em Paris (1909). E, mesmo com equipes amadoras – o profissionalismo tinha sido instituido em 1885 -, a Inglaterra não encontrara empecilhos para se sagrar bicampeã olímpica em 1908 e 1912. Os britânicos também foram os primeiros a se exibir pelo mundo afora, inclusive na América do Sul. O Southampton veio ao Uruguai e à Argentina em 1904.
Em agosto de 1910, o Corinthians Team, uma equipe amadora, disputou seis partidas no Brasil e venceu todas, marcando 38 gols e sofrendo apenas 6. Um dos jogos, no Rio, foi contra um combinado de paulistas e cariocas, com vitória dos ingleses por 5 x 2. Um mês depois, encantados com a magia da bola nos pés, paulistanos fundaram o Sport Club Corinthians Paulista.
Um certo Jules Rimet
Em 1° de marco de 1921, o advogado francêds Jules Rimet, de 47 anos, foi eleito presidente da Fifa, posicão que ele já ocupava interinamente desde 1918. Nascido na cidade de Theuley. em 23 de outubro de 1873. Rimet tinha sido um dos precursores do futebol fora do Reino Unido: em 1897, aos 24 anos. fundara o Red Star de Paris e. em 1910. assumira a presidência da Federação Francesa. Embora a Fifa contasse com apenas 20 países filiados, naquele inicio dos anos 20, um de seus projetos mais ambiciosos era a realização de um torneio mundial de futebol, independente dos Jogos Olímpicos.

Mas o persistente Rimet seria o primeiro a tentar, seriamente, tirar essa ideia do papel e levá-la para a prática e o primeiro, com um futebol ágil e de extrema habilidade sagrou-se campeão com uma campanha arrasadora: 7 x 0 na Iugoslávia, 3 x 0 nos Estados Unidos, 5 x 1 na França, 2 x 1 na Holanda e 3 x 0 na final contra a Suíça, partida acompanhada por 60 000 espectadores. Quatro anos depois, Amsterdã-1928 viu um replay da proeza. Desta vez, a vitória foi sobre a Argentina, por 2 x 1, num jogo extra (a final terminou empatada). A camisa azul da Seleção Uruguaia virou a Celeste Olímpica,.
Depois dos Jogos de 1920, em Antuérpia, a Inglaterra (que iá tinha seu futebol totalmente profissionalizado) se desinteressou pelo torneio olímpico. Isso deu chance a que outros países se destacassem nos gramados. Em Paris-1924, os europeus descobriram que também se jogava, e bem, no Novo Continente. O Uruguai e os Estados Unidos representaram as Américas. A decisão dos ingleses de sair da disputa, porém, gerou uma pequena dor de cabeça para a Fifa. Como os Jogos 0límpicos eram disputados apenas por amadores. os profissionais da Europa não podiam entrar em campo. Mas era obvio que os amadores do Uruguai e de outros países não eram tão amadores assim.
O futebol iá atraia multidões, dispostas a pagar ingresso para ver seus ídolos em ação. Para formar grandes times, era preciso contar com os melhores jogadores (e a contrapartida óbvia era a compensacão financeira que eles recebiam). A federação concluiu que a única maneira de equilibrar a disputa seria organizar um torneio aberto. Em 1924, um comitê encabeçado pelo francês Henri Delaunay foi encarregado de estudar a viabilidade de montar uma Copa Mundial de seleções.
No Congresso da Fifa em Amsterdã. em 26 de maio de 1928, ficou decidido que ela seria realizada de quatro em quatro anos, nos anos pares entre as 0limpíadas. O resultado da votação foi de 23 votos a favor, 3 contra e 1 abstenção. Um comitê executivo foi formado para discutir os detalhes operacionais. Dele faziam parte, além do francês Delaunay, o austríaco Hugo Meisl, o alemão Kark Linnemann e o argentino Adrian Beccar Varela
O Uruguai quer a Copa
Três anos antes dessa decisão, em 1925, num encontro em Genebra (Suíca), o embaixador do Uruguai para os Países Baixos, Enrique Buero, já manifestara a Jules Rimet o interesse de seu pais em sediar a primeira Copa. Essa proximidade de Buero com Rimet garantiria ao diplomata uma das vice-presidências da Fifa e lhe daria espaço para manobrar politicamente para trazer o Mundial para a América do Sul. De fato, e até pela falta de concorrentes, o Uruguai saiu na frente.
Mas, apesar do interesse manifesto, nada de prático estava sendo feito em Montevidéu naqueles anos. Só em fevereiro de 1929, três meses antes da data marcada para a escolha do país-sede, dois dirigentes do Nacional, José Usera Bermudez e Roberto Espil, apresentaram à Federação Uruguaia um plano concreto, que incluía até a construção de um estádio. Poucos levaram a sério. Em 20 de fevereiro de 1929. o diário El País duvidava da viabilidade do projeto: ‘Essa possibilidade é remotíssima. Os investimentos são muito superiores às nossas forças e estamos tão distantes da Copa quanto do Pólo Sul”.
Como o Uruguai não está tão longe assim da Antártida.. A Federação ignorou o ceticismo do jornal, o diretor Horácic Baaué vendeu a ideia aos paises sul-americanos (conquistando a adesão de todos) e, com esse suporte, Enrique Buerd lançou oficialmente a candidatura uruguaia no Congresso da Fifa em Barcelona, em 18 de maio de 1929.

Cinco países europeus se apresentado Dara sediar o Mundial do ano seguinte: Itália, Hungria. Holanda, Espanha e Suécia. Os quatro últimos logo desistiram para apoiar a Itália, que tinha no ditador fascista Benito Mussolini seu grande incentivador – afinal, ele queria usar a competição para fazer propaganda do regime. Mas o que realmente encantou a Fifa foi a proposta financeira dos uruguaios. Além de construir um estádio, eles se dispunham a pagar todas as despesas de viagem e alimentação dos participantes e ainda dar uma ajuda de custo de 75 dólares por pessoa, mais meio dólar por dia para “despesas menores”.
Por aclamação, o Uruguai levou a Copa. Embora justa, a decisão não provocou entusiasmo algum na Europa. A Itália decidiu não participar, o que provocou um efeito dominó A Copa de 1930 foi a única a não ter uma fase de classificação. A Fifa contava com 46 paises filiados e enviou convites de participação para todos, imaginando, com certo otimismo, que metade responderia “sim'” O Brasil. filiado desde 1923 aceitou. assim como a maioria das nações sul-americanas. Mas, em 30 de abril de 1930, data do encerramento das inscrições, nenhum dos 17 representantes da Europa havia aderido.
A Europa vai ou não?
Os britânicos – Inglaterra, Escócia, Pais de Gales e Irlanda do Norte – tinham se retirado da Fifa em 1928 (só retornariam em 1946), por discordar da política de semiprofissionalismo tolerada pela entidade. Hungria, Áustria e Tchecoslováquia, que já tinham futebol profissional, alegaram que os clubes não poderiam ficar dois meses sem seus principais atletas. Mas a maioria alegou dois sólidos motivos para não jogar: a nascente crise econômica mundial e a enorme distância até o Uruguai. Para os europeus, Montevidéu parecia mais longe que Plutão.
Para completar o quadro, em 1930 as atenções da Europa estavam voltadas para os jogos finais da primeira edição da Copa Internacional, a bisavó da atual Eurocopa de seleções Participaram cinco países – Itália, Suíça, Austria, Tchecoslováquia e Hungria – e o torneio durou três anos (começou em 1927 e, em 11 de maio de 1930, a Itália se tornou a primeira campeã continental, ao bater a Hungria por 5 x 0 em Budapeste).

Os uruguaios sabiam que a ausência dessas seleções – consideradas, juntamente com a Inglaterra, as maiores forças do Velho Continente – empobreceria tecnicamente a Copa. Por isso. numa última tentativa de tentar convencer os indecisos, os organizadores ainda se ofereceram para arcar com eventuais prejuízos que os clubes tivessem durante o período de inatividade. Mas a verdade é que os “indecisos” já estavam decididos a não viajar – e recusaram a oferta. Injuriado, o Uruguai ameaçou não só cancelar o Mundial como também abandonar a Fifa.
Rimet vai à luta
Quando tudo parecia perdido, o presidente da Fifa arregaçou as mangas e convenceu alguns países da Europa a enviar seleções para o Mundial no Uruguai
No início de 1930, nenhum pais europeu estava disposto a participar da Copa no Uruguai – e os anfitriões ameaçavam não apenas cancelar Mundial como se desligar da Fifa. Jules Rimet sentiu que seu sonho de uma festa universal do futebol estava indo por água abaixo e que era preciso reverter a situação. Presidente licenciado da Federação Francesa, ele praticamente obrigou seu país a participar. Apesar disso, os dirigentes nacionais aceitaram passivamente os pedidos de dispensa de vários convocados.
Seis dos titulares da Seleção rejeitaram o convite para ir a Montevidéu, entre eles a principal estrela, Manuel Anatol, do Club Racing de Paris. Espanhol de nascimento, mas naturalizado francês em 1928, Anatol era um médio com grande visão de jogo e uma velocidade espantosa (tinha sido recordista espanhol dos 100, 200 e 400 metros rasos). Rimet se conformou. Em suas memórias, confessou que “uma participação honesta” da França estava de bom tamanho.
Campeā olímpica em 1920, a Bélgica foi o segundo pais europeu a confirmar participação, graças aos esforços de Rodolphe William Seeldrayers. Além de ser o presidente da Federação Belga e vice-presidente da Fifa, ele tinha sido, junto com os franceses Rimet e Henri Delaunay, um dos mais empenhados em viabilizar a Copa. Mas a seleção também viajou sem seu principal jogador, Raymond Braine (irmão do capitão, Pierre Braine). Então com 23 anos, mas jogando pela equipe nacional desde os 17, Raymond foi cortado porque permitiu que seu nome fosse usado na divulgação comercial de um café, o que os dirigentes consideraram uma “atitude intolerável para um atleta amador”.
Jules Rimet tomou então um trem de Paris a Bucareste, para convencer Carol II – que, aos 37 anos, havia acabado de assumir o trono da Romênia – a enviar uma seleção. 0 futebol romeno não era lá essas coisas, mas o rei era um reconhecido entusiasta (em seus tempos de príncipe, havia sido secretário-geral da federação). Sua Majestade não apenas selecionou pessoalmente os atletas como conseguiu com os patrões dos jogadores – quase todos empregados em empresas britânicas de petróleo – uma licença remunerada de dois meses.
Finalmente, sem pressões nem pedidos especiais, a Iugoslávia decidiu aceitar o convite da Fifa. Na época, a Iugoslávia era um reino – que durou de 1918 a 1941, mas que só recebeu essa denominação em 1929 – formado por Sérvia, Croácia, Eslovénia e outros territórios menores, todos governados pelo príncipe-regente Alexandre. Duas associações independentes, a da Sérvia e a da Croácia, disputavam o controle sobre o futebol local. Em 1929, a sede da FSJ, Federação Iugoslava de futebol havia sido transferida de Zagreb, na Croácia (onde estava instalada desde sua fundação, em 1919), para Belgrado, na Sérvia.
Descontentes com a mudança, os croatas decidiram não ceder jogadores de seus clubes para a Seleção – e os sérvios resolveram participar sozinhos. Não foi uma disputa étnica, mas politica (vários jogadores croatas que atuavam em clubes sérvios aceitaram a convocação). Sem tempo para uma preparação adequada, a Federação Sérvia decidiu mandar ao Uruguai não uma verdadeira seleção, mas praticamente um time -ca SK.de Belgrado. Dos 11 jogadores que estrearam contra o Brasil na Copa, sete eram do SK. Para melhorar o nível do time, a Federação Francesa liberou três atletas que atuavam no pais: Bek, Sekulic e Stevanovic. E a mãozinha da França se revelou providencial: Bek, do FC Séthe de Paris, marcou o segundo e decisivo gol iugoslavo na partida contra o Brasil.
Guia da Copa 2026: onde comprar
O guia da PLACAR já está disponível em versão digital para assinantes em nosso app (clique aqui e vire membro). Já a revista impressa está em nossa loja oficial e nas bancas de todo o Brasil.

Capa do Guia da Copa de 2026, edição 1536 de PLACAR – Reprodução










