Crítico da utilização de gramados sintéticos no Brasil, Neymar voltou a tocar no assunto após a vitória do Santos sobre o Corinthians, no último domingo, 30. Em entrevista concedida na sequência da partida pelo Brasileirão, o camisa 10 foi questionado sobre como se sente em campos de grama artificial.

O jogador do Santos rebateu a repórter, pontuando a diferença entre o piso da Neo Química Arena e outros do país. “Hoje não era gramado sintético, né? Não é um gramado sintético. O gramado do estádio do Corinthians, para mim, é um dos melhores que existem. É um misto, como era o do PSG também.”

A questão recolocou uma dúvida que surge sempre durante o debate do assunto. Assim, PLACAR buscou especialista e resgatou materiais especiais do acervo, buscando esclarecer dúvidas sobre gramados naturais, mistos e sintéticos. Confira:

O gramado do Corinthians é sintético?

Não, o gramado do estádio corintiano é classificado tecnicamente como híbrido. A superfície de jogo é formada por grama natural do tipo ryegrass, enquanto fibras sintéticas são costuradas abaixo da camada vegetal para reforçar a estrutura do campo. O modelo é diferente do utilizado em estádios como Nubank Parque, Nilton Santos e Arena MRV, onde a superfície é artificial, e é semelhante ao utilizado em diversos estádios da elite europeia e em Copas do Mundo. Na prática, portanto, entra na lista de estádios com grama natural. 

No sistema adotado pelo Corinthians, as fibras sintéticas são inseridas alguns centímetros abaixo da superfície para servir de ancoragem ao sistema radicular da grama natural. Assim, elas reduzem a formação de buracos, aumentam a estabilidade junto ao solo e melhoram a resistência ao desgaste provocado pela sequência de partidas.

Neymar em ação contra o Coritiba, na Neo Química Arena - Alexandre Battibugli/PLACAR

Neymar em ação contra o Coritiba, na Neo Química Arena – Alexandre Battibugli/PLACAR

Em entrevista à PLACAR,  Rodrigo Santos, engenheiro agrônomo e coordenador da Itograss, empresa responsável pelo gramado de parte dos estádios das séries A e B, explica: “Há um abismo entre o gramado sintético e o misto (ou reforçado). Um gramado reforçado tem entre 7 e 10% de fibras injetado a diversas profundidades com o propósito de aumentar a estabilidade do gramado natural. Essa tecnologia é utilizada na maioria dos gramados nas principais ligas europeias, assim como foi utilizado em todos os estádios da Copa do Mundo“, explicou.

A Neo Química Arena passou por uma renovação do sistema em 2025, complementado neste ano. O gramado do estádio recebeu novas fibras sintéticas por meio do processo conhecido como “stitching”, ou costura, tecnologia utilizada para integrar a estrutura artificial às raízes da grama natural. Além disso, foi feita a retirada completa da superfície antiga, com remoção da matéria orgânica acumulada ao longo dos anos, nivelamento da base e novo processo de semeadura.

Segundo o Corinthians e a World Sports, empresa responsável pelo gramado desde a construção da arena, o campo utiliza um tipo de grama incomum no Brasil. Dessa forma, para ser possível manter a boa qualidade de ryegrass, o Corinthians conta com um sistema de resfriamento instalado abaixo da superfície, tecnologia que permite manter uma espécie típica de clima frio.

O Corinthians tem ‘gramado europeu’

O modelo adotado pelo Corinthians segue uma tendência consolidada no futebol internacional. Em reportagem publicada por PLACAR em agosto de 2023, na edição 1502 da revista, a Neo Química Arena foi descrita como um gramado composto por 93% de grama natural e 7% de fibras sintéticas. À época, também era apontada como o piso preferido de boa parte dos jogadores que atuavam no país.

Durante dez temporadas na Europa, Neymar atuou em um contexto no qual os gramados eram similares ao da Neo Química Arena. Em razão das condições climáticas, a espécie ryegrass, utilizada no campo do Timão, é a mais comum. O uso de fibras sintéticas como reforço também é comum.

Neo Química Arena, casa do Corinthians em São Paulo – Reprodução/Corinthians

Nas últimas décadas, os grandes campeonatos da Europa ainda investiram em sistemas de drenagem, iluminação artificial, ventilação forçada, controle térmico e reforços para enfrentar manter gramados naturais em bom estado. Regulamentação em campeonatos como La Liga, da Espanha, também forçam a manutenção de uma boa condição.

A Fifa autoriza o uso de gramados sintéticos em competições oficiais desde 2001, apesar de conceder às confederações e ligas nacionais a prerrogativa de vetar os campos artificiais. Para a autorização, os pisos são testados em laboratórios credenciados e precisam seguir os critérios que envolvem a segurança do atleta, amortecimento, durabilidade do campo e composição do produto, para depois receber um dos selos de qualidade: Fifa Quality, aos campos amadores, e Fifa Quality Pro, aos profissionais.

A entidade, no entanto, proíbe gramados artificiais no maior dos eventos, a Copa do Mundo. Na edição de 2026, todos os estádios tiveram gramados naturais ou mistos. Especialista no assunto, Rodrigo Santos se posiciona contra a utilização de sintéticos: “Não faltam dados confiáveis que comprovam o maior risco à segurança do atleta mediante a exposição ao gramado artifical. Basta ver todo o movimento nos
EUA por parte dos jogadores da NFL em razão dos gramados naturais que foram entregues durante a Copa do Mundo.”

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