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A polêmica sobre os estádios de grama artificial do futebol brasileiro

Inexistentes na elite europeia, campos artificiais começam a invadir o Brasil e dividem opiniões; PLACAR ouviu especialistas e testou o piso da discórdia

Matéria publicada na edição 1502 de PLACAR, de agosto de 2023

Diz um velho ditado da bola cunhado por Don Rossé Cavaca, pseudônimo do jornalista José Martins de Araújo Júnior (1924–1965): “desgraçado é o goleiro, até onde ele pisa não nasce grama”. Os arqueiros não são os únicos a sofrer com a condição dos pisos nos últimos anos. Não bastassem os quiprocós envolvendo o VAR, o futebol brasileiro tem hoje um novo protagonista de polêmicas: os gramados artificiais. Os tapetinhos, como vêm sendo chamados, surgiram como alternativa aos campos secos e esburacados pelo excesso de jogos, shows e outros eventos. São mais baratos, deixam a bola rolar e saem bonitos na foto, mas também alimentam uma série de preocupações e reclamações, sobretudo por parte dos atletas visitantes.

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Com a estreia do novo gramado do Nilton Santos, a casa do Botafogo, líder do Brasileirão, a elite nacional chegou a três campos sintéticos – o Athletico-PR foi pioneiro, seguido pelo Palmeiras. Cada um apresenta uma tecnologia diferente, mas todos são homologados pela Fifa e simulam as condições da grama real. A tensão cresce à medida que deixam de ser raridade – e que seus donos vão acumulando bons resultados. Gabigol, o ídolo do Flamengo, tratou o campo da Ligga Arena, em Curitiba, como “horrível”. Luís Suárez, o veterano astro do Grêmio, se negou a atuar nos campos artificiais, temendo lesões. Outros atletas e dirigentes dividiram opiniões (veja no quadro abaixo). O debate é complexo, pois nem a ciência e muito menos as partes interessadas chegam a um denominador comum. PLACAR, no entanto, se propôs a escavar este terreno.

O que os protagonistas pensam do gramado artificial - LE Ratto
O que os protagonistas pensam do gramado artificial – LE Ratto

O mais perto de um consenso entre as fontes ouvidas pela reportagem é que o ideal seria que todos os campos fossem naturais e de ótima qualidade. O que se vê, no entanto, são templos do esporte, como Mineirão e Maracanã, completamente desgastados, amarelados. Já os sintéticos estão cada vez mais verdejantes e desenvolvidos. É o que garantem as empresas do ramo. A Total Grass, responsável pelo Nilton Santos, diz que o Glorioso dispõe hoje da tecnologia disponível mais avançada, com um sistema de drenagem imune a temporais, uma manta anti-impacto que traz mais maciez e um composto de cortiça, material de origem vegetal e de atuação isolante, que impede o superaquecimento dos fios sintéticos. A empresa informa que os preços de um campo artificial variam de 2,5 a até 10 milhões de reais. O diretor geral da SAF do Botafogo, Thairo Arruda, diz que até o fim de 2023 o Botafogo deve lucrar mais de 12 milhões de reais com shows de bandas como Red Hot Chilli Peppers e RBD no local. “Quando assumimos a SAF, o estádio era deficitário, tínhamos receitas apenas alguns dias do ano. Destravar essa fonte de receita exigiu investimento em infraestrutura.”

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Os campos artificiais da Série A - PLACAR/Reprodução
Os campos artificiais da Série A – PLACAR/Reproduçãoo

Do lado oposto do mercado, as empresas de grama natural se defendem das críticas aos campos esburacados. Para Rodrigo Santos, coordenador da Itograss, empresa responsável por 80% dos estádios das séries A e B, o principal vilão é o calendário. “O Maracanã tem tecnologia de ponta, mas é impossível uma grama permanecer em bom estado com dois ou mais jogos toda semana”, alega o engenheiro agrônomo. O clima, a geografia e até a arquitetura dos estádios influenciam. “A cobertura das arenas modernas impede a entrada de luz do sol. A Arena do Grêmio sofre com isso e com o inverno mais rígido”. Áreas abertas, como da Vila Belmiro e do Morumbi, levam vantagem. A casa do São Paulo é uma das mais elogiadas, apesar de sua lotada agenda. Parceiro da Itograss, o clube paulista adota o que Rodrigo Santos vê como ideal: troca a grama natural duas vezes por ano, no meio da temporada de shows, sem necessidade de uma longa reforma.

“A tecnologia ready to play permite que um gramado plantado em uma fazenda seja transportado em grandes rolos e instalada, já pronta para uso, em até três dias.” Mauro Castro, o gerente do Morumbi, garante que o São Paulo jamais cogitou trocar o piso por um artificial, por se tratar de um “estádio privilegiado” e por priorizar a saúde dos atletas. Ele lembra que quatro jogadores tricolores (Ferraresi, Galoppo, Rafinha e Welington) se machucaram no Allianz Parque só em 2023 e alfineta o rival e a construtora que administra o estádio. “Foi interessante para a WTorre fazer o sintético, porque para ela o Allianz é uma casa de shows e o Palmeiras é um inquilino. O Pacaembu também vai virar sintético porque a nova concessionária quer fazer eventos, não partidas de futebol”, diz Castro, que anteriormente geriu o estádio municipal.

Com arquiteturafavorável e alto investimento, Morumbi tem um dos melhores gramados naturais do país - Alexandre Battibugli/PLACAR
Com arquitetura favorável e alto investimento, Morumbi tem um dos melhores gramados naturais do país – Alexandre Battibugli/PLACAR

No Brasil, a maioria dos estádios tem gramado do tipo bermuda, com folhas mais estreitas, em tom de verde intenso e de rápida recuperação. Mas o palco favorito de nove entre dez boleiros é mesmo a Neo Química Arena, do Corinthians, a única a utilizar a tecnologia ryegrass, uma espécie de grama de inverno usada por gigantes europeus. Para manter impecável o seu piso híbrido (é composto por 93% de grama natural entrelaçada a 7% de grama sintética), o Timão investe em um sistema que insufla ar e água para resfriar o solo, inclusive no verão.
PLACAR visitou outro gramado artificial, o do Bruno José Daniel, casa do Santo André, clube que disputa a Série D do Brasileirão e a Copa Paulista.

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A Prefeitura local investiu 3,7 milhões de reais no novo gramado junto à empresa Soccer Grass, a mesma do Allianz. O piso mais duro, no entanto, não deixa dúvidas: a tecnologia, embora aprovada pela Fifa, é inferior ao dos campos da Série A, que são bem mais fofos. A manutenção é feita duas vezes ao mês, por uma máquina de escovação mecânica que “penteia” as fibras, ao custo de 15.000 reais. “É bem mais simples e barato, não exige um cuidado diário, corte, profissionais especializados. Entendo que este é o futuro para clubes dito menores e até para grandes que queiram ter arenas multiuso”, diz o executivo de futebol do Ramalhão, Marco Gama.

Márcio Griggio, ex-jogador e atual técnico do Time B do Santo André, engrossa o coro dos defensores do tapetinho. “Um gramado natural ruim é pior porque cai a qualidade. O jogo pede intensidade, posse de bola. No sintético, a bola não muda de direção”, diz. “Eu aprovo, pois o risco de lesão também existe em gramados naturais irregulares”. Thales Henrique de Sousa, o chefe da fisioterapia do Ramalhão, conta que a plena adaptação dos atletas leva até 20 dias. “O impacto é bem maior, então as tendinites são comuns no início”. Desde a inauguração, em janeiro de 2022, quatro atletas do Santo André já lesionaram gravemente o joelho. “Faltam dados para termos um bom estudo, mas é verdade que tivemos uma incidência maior aqui”, admite. Eis um ponto crucial: o que diz a ciência?

Boa parte dos estudos se referem a partidas da NFL, a principal liga de futebol americano. O relatório oficial de lesões entre 2012 e 2018 apontou incidência maior de contusões de joelho (32%) e tornozelo (69%) em campos artificiais. No entanto, pesquisas em campos de futebol apontaram taxas semelhantes ou até um risco ligeiramente maior em campos naturais. Julio Serrão, Coordenador do Laboratório de Biomecânica da Escola de Educação Física e Esporte da USP, avalia que os resultados das pesquisas são controversos pois há diferentes tipos de grama, tanto naturais quanto artificiais. “Isso tem a ver com preparo físico, com a vivência, e com o histórico de cada atleta. Quem está mais adaptado ao gramado sintético, ou seja, o time da casa, tende a reagir melhor a ele”, diz. “Os estudos recentes e antigos, em síntese, revelam o mesmo: os atletas respondem de maneiras diferentes aos distintos tipos de piso. A questão é menos dramática do que se imagina.” A morte por câncer no cérebro de seis ex-jogadores do Philadelphia Phillies, equipe de beisebol que atua em gramado artificial desde os anos 1970, ganhou manchetes e levantou suspeitas sobre os efeitos de produtos químicos usados neste tipo de piso, mas oncologistas garantem ser prematuro traçar qualquer tipo de paralelo.

Joaquim Grava, histórico ortopedista do Corinthians, confirma que não há consenso entre os pares, mas admite reclamações. “Não são todos, mas há jogadores com problemas pré-existentes, como de cartilagem do joelho, que relatam mais dores nos sintéticos.” Outro ponto relevante diz respeito aos calçados. As chuteiras usadas por profissionais em campos sintéticos são, via de regra, as mesmas utilizadas em pisos naturais – ou seja, de cravo mais alto, diferente das travas fininhas consagradas em campos amadores. “Até pelo fato de irrigarmos bastante o gramado, a chuteira society acaba escorregando, enquanto a de campo não prende tanto”, diz Thales, fisioterapeuta do Santo André. Mas há um tipo indesejado de trava, a chamada dente de tubarão, em formato semelhante a uma seta. “Todas as lesões que tivemos foram com esse modelo”, lamenta o profissional. “Essa trava eu não recomendo em gramado algum, pois o atleta não consegue girar o suficiente e pode prender o pé no gramado”, complementa Grava.

O debate não é novo. Na realidade, chega ao Brasil com atraso e os exemplos do exterior talvez ajudem a apontar caminhos. Para desafiar o clima hostil e se consolidar como a melhor liga do planeta, já há décadas a Premier League extinguiu seus conhecidos campos de lama e passou a exigir gramados impecáveis. O projeto mais deslumbrante é o do Tottenham Hotspur Stadium, que conta com um terreno natural retrátil e outro sintético, que fica guardado em um piso inferior. Engenhoca semelhante já é usada pelo Schalke 04, da Alemanha, e uma ainda mais faraônica será instalada no remodelado Santiago Bernabéu para que o Real Madrid possa receber feiras e até partidas de basquete e futebol americano. O luxo é opcional, mas a presença de grama de verdade é mandatória.

O técnico Márcio Griggio orienta jovens do Santo André B no sintético do Bruno José Daniel - Alexandre Battibugli/PLACAR
O técnico Márcio Griggio orienta jovens do Santo André B no sintético do Bruno José Daniel – Alexandre Battibugli/PLACAR

As grandes ligas europeias proíbem o uso de sintéticos, ao menos em suas primeiras divisões. França e Portugal – que já interditou campos naturais impraticáveis, como o do Bessa, em Boavista – chegaram a testar o terreno, mas voltaram atrás diante da gritaria geral. O caso mais recente aconteceu nos Países Baixos. Clubes pequenos justificavam a adoção dos campos de borracha por não terem condições financeiras de manter um bom gramado real em meio ao clima holandês. Ídolos locais como Dirk Kuyt e Ruud Gullit, no entanto, lideraram protestos que culminaram na proibição a partir de 2025. Os clubes grandes como Ajax, PSV e Feyenoord concordaram em colaborar com um fundo para ajudar os pequenos a manterem seus gramados.

Até mesmo os Estados Unidos, inventores das réplicas de gramado – o primeiro campo do tipo foi usado no Astrodome, em Houston, em 1965 – já cogitam mudanças. Recentemente, o site Sportico noticiou que Lionel Messi não deve atuar pelo Inter Miami nos seis estádios de grama artificial da Major League Soccer. Anos atrás, Zlatan Ibrahimovic, o marrento craque sueco, então atuando pelo Los Angeles Galaxy, avisou que só se colocaria “em risco” em jogos dos playoffs. A presença de Messi e a exigência da Fifa visando a Copa de 2026 (leia no quadro ao lado) podem antecipar o fim dos sintéticos por lá. No Brasil, a discussão parece estar apenas começando.

Os valores da instalação dos gramados - LE Ratto
Os valores da instalação dos gramados – LE Ratto

O QUE A FIFA DIZ?

Apesar de conceder às confederações e ligas nacionais a prerrogativa de vetar os campos sintéticos, a Fifa autoriza seu uso em competições oficiais desde 2001. Primeiro, os pisos são testados em laboratórios credenciados e precisam seguir os critérios que envolvem a segurança do atleta, amortecimento, durabilidade do campo e composição do produto, para depois receber um dos selos de qualidade: Fifa Quality, aos campos amadores, e Fifa Quality Pro, aos profissionais.

As inspeções nas arenas homologadas são feitas anualmente. A entidade, no entanto, proíbe gramados artificiais no maior dos eventos, a Copa do Mundo, o que obrigará que oito estádios da edição de 2026 (metade do total) sejam reformados. Sete deles são nos EUA, incluindo o Metlife Stadium, em Nova Jérsei, candidato a sediar a final, e um no Canadá.

Edição 1502 chega nas bancas nesta sexta-feira - Reprodução/Placar
Edição 1502 chega nas bancas nesta sexta-feira – Reprodução/Placar

*Errata: a edição impressa de PLACAR apresenta um erro no custo de manutenção mensal do Morumbi: o correto é R$ 40 mil, não R$ 700 mil

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