Decisivo na vitória do Santos contra o Remo no último sábado, 19, o atacante Gabriel Barbosa virou a mais nova dor de cabeça nos bastidores da atual direção do clube.

Se por um lado os bons números ao longo desta temporada animam os torcedores – já são 31 contribuições diretas em gols, com 21 bolas na rede e dez assistências –, hoje a estrutura do acordo costurado em janeiro atrapalha o plano de permanência.

Emprestado pelo Cruzeiro sem custos até 31 de dezembro, o Santos arca com uma fatia de seus vencimentos: R$ 1,3 milhão mensais, valor registrado em carteira. Os ganhos totais chegam a R$ 3 milhões, já somados os valores de direitos de imagem e luvas diluídas no contrato que vai até o fim de 2028.

Pesa de forma desfavorável para o fico do camisa 9 no Peixe, principalmente, o fato de não haver um valor fixado para a compra.

“O Gabriel e outros jogadores fazem parte desse plano. Mas tivemos uma responsabilidade de colocar esses contratos até o fim do ano. Não apenas pelo processo eleitoral, mas pela própria condição desses profissionais, que entenderam que é um processo eleitoral e preferem aguardar resultados para tomarem decisões. Iniciar tratativas é obrigação da gestão para que consigamos manter um bom grupo. Ao menos, jogadores que estejam muito identificados, caso do Gabriel”, justificou o presidente Marcelo Teixeira, em evento do clube nesta segunda-feira, 21.

“Sabíamos e prevíamos que ele, dentro de casa, na sua identificação com o Santos, com a torcida, com a história, poderia reviver bons momentos. É o que está acontecendo. É o que aconteceu com Neymar. A tendência é o Santos fazer a sua parte, a diretoria fazer até um limite e aguardar o processo eleitoral para que, aí sim, ao final dele, a gente tenha a possibilidade da continuação desses contratos ou não”, completou em outro momento.

Teixeira (à dir.) abraça apoiador durante evento de lançamento do Instituto Leão do Mar - Raul Baretta/Santos FC

Teixeira (à dir.) durante evento de lançamento do Instituto Leão do Mar – Raul Baretta/Santos FC

O vínculo com a Raposa ainda está protegido por uma multa alta – R$ 700 milhões para equipes brasileiras e mais de 100 milhões de euros (R$ 590 milhões) para o exterior —, deixando o Santos totalmente de mãos atadas e dependente de um aceite do clube mineiro. Valorizado, o atleta ainda desperta o interesse de outros mercados.

Procurado por PLACAR, Pedro Lourenço, principal acionista da SAF cruzeirense, disse que até o momento não houve contato do Peixe para tratar de qualquer assunto envolvendo a permanência do atleta e que não há um montante definido para abrir negociações.

O cartola só admitiu a existência de uma “preferência” santista, que na prática consiste apenas na possibilidade de o clube paulista tentar primeiro uma investida ou ser avisado em caso de oferta para tentar cobri-la. O relacionamento entre as diretorias é considerado bom, porém o negócio só deve avançar com dinheiro à mesa.

Gabigol ainda terá o futuro reavaliado pela diretoria mineira no fim do ano, mas tem permanência improvável hoje por conta dos altos vencimentos mensais. A vinda para a Vila Belmiro no início do ano foi facilitada pela contratação do técnico Tite, seu desafeto, hoje no Botafogo.

Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Gabigol custa R$ 3 milhões mensais à Raposa, valor que pode pesar contra – Gustavo Aleixo/Cruzeiro

O cenário faz o Santos viver uma espécie de déjà vu de 2018. Em baixa após passagens frustradas por Inter de Milão e Benfica, o atacante voltou à Vila por empréstimo para recuperar o protagonismo perdido. Fechou o ano com 27 gols em 52 jogos, também sob o comando de Cuca, mas em 2019 optou pelo Flamengo em um acordo costurado nos mesmos moldes do ano anterior.

A escolha despertou a ira dos torcedores santistas, que o acusaram de ter usado o clube que sempre fez juras de amor eterno apenas como um “trampolim” para seus objetivos pessoais.

O atacante só foi comprado em definitivo pelo Rubro-Negro em 2020, onde viveu os melhores momentos de sua carreira. A passagem teve 308 partidas, 161 gols, 43 assistências e 13 títulos conquistados.

Às portas da eleição que ocorre em dezembro, o desempenho que tem ajudado a equipe dentro de campo promete agitar os bastidores fora dele.

Nas redes sociais, o centroavante é alvo de apelos da torcida pela permanência devido aos seus números expressivos. Em todo o país, ele só perde em produtividade para Pedro, do Flamengo, que soma 32 participações diretas em gols.

Além disso, o tento marcado contra o Remo o elevou à condição de ter balançado as redes de todos os 20 clubes que atualmente compõem a Série A ao longo da carreira.

Eliminado da Sul-Americana e com uma folha salarial de quase R$ 30 milhões, o Santos teme por um um colapso financeiro. O clube deve aos jogadores uma parcela de direitos de imagem e ainda não tem recursos para pagar a próxima, que vence nesta segunda, 21.

“O financeiro estuda outras alternativas para cumprirmos com as obrigações. Pode ser que haja atraso”, admitiu Teixeira.

O caos financeiro atinge até mesmo alguns dos prestadores de serviço, como a World Sports, empresa responsável pela manutenção do gramado, a qual o clube não paga há cinco meses.

O balanço divulgado pelo Conselho Fiscal aos conselheiros na última semana apontou que o clube fechou o segundo trimestre do ano, de abril a junho, com déficit contábil 62% maior do que o orçado e mais R$ 119,6 milhões em dívidas. O endividamento total é superior a R$ 1,2 bilhão.

“O Passivo Total do clube em 30/06/2026, excluindo as receitas diferidas, de acordo com o balancete fornecido pelo clube ao Conselho Fiscal, foi de R$ 1.193.159.000. Em 31/03/2026 era de R$ 1.094.039.000. Contudo, no entendimento deste Conselho Fiscal, o passivo total deveria ter sido reconhecido em R$ 1.163.739.000 em 31/03/2026 e em R$ 1.241.534.000 em 30/06/2026”, explica o parecer.

No mesmo encontro, a diretoria santista também admitiu que precisará pagar R$ 17,3 milhões ao volante Zé Rafael, hoje no Alverca, de Portugal, pela rescisão de contrato em julho. O acordo entre as partes foi firmado em 48 parcelas de R$ 361 mil.

Na oitava colocação do Brasileirão, a equipe terá mais 11 partidas para tentar salvar a temporada com uma vaga na pré-Libertadores, atualmente restrita ao quinto colocado, mas que pode ampliar a depender dos resultados da Copa do Brasil e da Libertadores.

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