Lionel Andrés Messi Cuccittini. Lembro-me vividamente de abrir um sorriso em frente à TV ao ver seu primeiro gol como profissional, um toque por cobertura diante do Albacete, após passe magistral de Ronaldinho Gaúcho no Camp Nou, repetindo uma jogada quase idêntica, mal anulada por impedimento minutos antes. Na comemoração, o mestre brasileiro do Barcelona carregou o eufórico pupilo argentino nas costas, e assim teve início uma relação de amor que desafiaria fronteiras e rivalidades. Era 1º de maio de 2005, Dia do Trabalhador, data emblemática para um gênio com tanto espírito coletivo.

Também me recordo do golaço diante do Brasil no Mundial sub-20 de 2005, meses depois. O baixinho driblou todo mundo pela direita e mandou uma bomba na gaveta. Esse danado realmente tem futuro! À época, Messi vestia uma bela chuteira Nike, que faria a mais monumental de suas bobagens ao perdê-lo para a rival Adidas. A seleção espanhola também tentou levar o pibe de Rosário que desembarcou na Catalunha adolescente, tratando problemas hormonais. Mas Leo era mesmo argentino, muito argentino, e hoje soa absolutamente risível que tanta gente tenha duvidado disso até pouco tempo atrás.

Messi repetiu diversas vezes ao longo de sua carreira que jamais se preocupou com estatísticas e que os recordes foram consequência de seus objetivos coletivos. Fosse outra estrela da bola, invariavelmente soaria como falsa modéstia, conversa mole. Como alguém que não liga para números poderia fazer 91 gols em uma única temporada? Mas La Pulga é assim mesmo, uma pessoa genuinamente simples, daquelas que parece quase ter vergonha de ter nascido com tanto talento. Tão desprendido de marra que nem parece argentino. Um tipazo, como dizem em suas terras.

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Lionel representou tudo que mais gostamos de ver, no futebol e na vida. Um craque que não simula faltas (ao contrário, apanha e levanta), que enxerga tudo antes que todo mundo, que simplifica as jogadas, que chuta quando é para chutar e passa quando é para passar. Que não é egoísta, que não humilha os adversários com firulas desnecessárias, mas ainda assim distribuiu mais canetas que qualquer um. Que aperfeiçoou cada detalhe, aprendeu a bater faltas e virou o melhor do mundo até nisso.

Que respeita os rivais, que divide os méritos até com quem não merece, e nas raras vezes em que se irritou, divertiu a todos nós que mirávamos feito bobos. Que chora, de alegria e de tristeza, e que, mesmo caminhando em boa parte dos jogos, sempre foi ao limite físico quando teve a bola colada ao pé para resolver um jogo. Que mira o céu para dedicar todos os gols à avó Celia, sua maior incentivadora, e que fez uma Copa 2026 fantástica, aos 39 anos, mesmo em meio ao drama da doença que o separaria de seu pai, Jorge, semanas depois.

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Lionel Messi em sua despedida pela seleção argentina, diante de Benin, no Monumental de Núñez (Argentina/X)

Messi se despediu da seleção argentina nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026, em uma festa repleta de emoção no Monumental de Núnez, em Buenos Aires. O adversário era Benin, 89º colocado do ranking da Fifa. Ao ver a camisa amarela da seleção da África Ocidental foi inevitável pensar que a despedida poderia ter sido contra o Brasil. Teria sido espetacular! Poderíamos ter uma reedição do abraço emocionado no amigo Neymar com que Messi exorcizou seus fantasmas e conquistou seu primeiro título pela seleção argentina, a Copa América de 2021, no Maracanã esvaziado pela pandemia. Tirada a zica, ganhou, enfim, sua Copa do Mundo, e outra Copa América, uma sequência que fez jus à condição de maior jogador do futebol argentino. Maradona que nos perdoe, mas Messi fez tudo que Diego fez, muitas vezes mais.

Com o de hoje, de pênalti, na vitória por 3 a 0, chegou a 126 gols, além de 67 assistências em 208 partidas, que fazem dele o recordista em todos os quesitos, com muita sobra. Dificilmente estas  marcas serão batidas, e se forem, certamente não serão com tanta naturalidade. Quem gosta de futebol, se emocionou com o adeus de Messi e sentirá muitas saudades. No Brasil, talvez só Zico tenha sido um craque gente boa tão unânime. Pelé, o maior de todos, também era um autêntico boa praça, carisma puro, bem mais que Messi, aliás, mas é difícil imaginar o camisa 10 portenho se referindo a si mesmo em terceira pessoa, entende? Como o Rei há cinco décadas, o argentino ainda dará seus últimos chutes e passes magistrais nos Estados Unidos. Só nos resta saborear cada momento que nos resta. E dizer gracias e mais gracias. 

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