“Não encoste em mim, você é preto.”
Minutos depois de ganhar a plateia com piadas e causos da bola, o ex-goleiro Aranha chocou os adolescentes presentes no imponente auditório ao relembrar a frase vinda de uma paquera de escola que marcou sua infância. “Depois disso, passei anos com vergonha, me escondendo, repeti de ano várias vezes”, prosseguiu o ex-jogador com passagens por Ponte Preta, Santos, Atlético-MG e Palmeiras. Marcado nacionalmente por um caso de racismo no estádio do Grêmio, em 2014, Aranha revelou ter se engajado no tema ainda cedo, graças à leitura. Hoje ele próprio é autor de dois livros e roda o país em palestras na qual conscientiza jovens e adultos sobre os efeitos do preconceito.
Mário Lúcio Duarte Costa, de 45 anos, narrou suas experiências a estudantes do 7º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio do tradicional colégio Marista Arquidiocesano, na zona sul de São Paulo, na última quarta-feira, 16. Respondeu a interessantes perguntas dos garotos, sem maiores rodeios.
“Não dá para acabar com o racismo, pois sempre vai haver pessoas boas e ruins. O que podemos é criar mecanismo para viver em sociedade. O racista, o homem violento, a pessoa acostumada a ferir a discriminar, só precisa de duas coisas: segurança e conforto. Por exemplo, fui receber uma homenagem no estádio do Vasco e tinha uns 30.000 negros nas arquibancadas. Você acha que alguém iria levantar e me chamar de macaco ali? Não, pois não estaria seguro. E confortável, porque em determinados meios sempre tem aquela pessoa que fica atacando todo mundo e a pessoa que o cerca acha engraçado, não faz nada. Então essa pessoa está segura e confortável. Se você tira isso, essa pessoa passa a não ser convidada para festas, as pessoas se afastam. Daí ou ela se enquadra ou fica sozinha”, discursou Aranha.
Decepção com colegas e CBF
Em contato com PLACAR, um pouco antes de sua segunda palestra do dia, Aranha contou que em sua época de jogador profissional (2000 a 2018), raramente conseguiu conversar com colegas sobre racismo, ainda que a maioria dos vestiários fossem compostos por atletas negros.
“É um assunto que tive com pouquíssimos jogadores. Quem estava sempre disposto a ouvir e conversar sobre racismo eram seguranças, funcionários do clube. Jogadores eu não me recordo, pouquíssimo mesmo. Mas assim, é aquela frase famosa e antiga: para alguns, a ignorância é uma benção. No Brasil, por muito tempo foi assim: se eu não falo sobre um problema, ele deixa de existir. E estamos com essa dificuldade até hoje“, afirmou.
“Não tem como resolver um problema sem falar sobre ele. Os jogadores não têm interesse, é um assunto que eles não vão desenvolver, não vão estudar ou procurar saber até que os afete diretamente. Teve casos de jogadores que disseram nunca ter sofrido racismo. Eu penso que se o futebol foi a única maneira que ele enxergou de mudar de vida, então o racismo já agiu desde quando ele nasceu. Porque existem milhões de profissões, mas ele prefere arriscar, já que o futebol é um bilhete de loteria. A maioria dos jogadores, mais de 80%, não ganha três salários mínimos. Então é uma questão mais de ignorância mesmo”, complementou.
Durante a palestra, o ex-jogador de 45 anos também revelou decepção com a Confederação Brasileira de Futebol sobre o assunto. “Bom, eu faço parte de um grupo da CBF, tem uns quatro anos se eu não me engano, contra o racismo e violência no futebol. E nesses quatro anos eu não fiz nada. Nada. Só existe esse grupo e ele se reúne uma vez por mês, online. Eles não vão produzir leis que possam em algum momento prejudicar a eles mesmos, o produto deles, que é o futebol. Então eu não espero grandes mudanças, não espero esse tipo de punição mais severa, porque não é interessante para o futebol brasileiro, porque o racismo está muito presente ainda.”

Aranha ultrapassou a marca de 200 jogos pela Ponte Preta (Fabio Leoni/ PontePress)
Papel de Pelé, Neymar e Vini Jr.
Aranha também avaliou o papel de grandes ídolo do futebol nacional no combate ao preconceito. “O Brasil é carente de novos heróis, de novos ídolos. Na questão racial, você pega a África, os Estados Unidos e outros países, eles têm as suas referências. O Brasil não tem. O Pelé não foi, porque agia de uma maneira indireta. A luta do Pelé contra o racismo era com a sua presença, era chegar o mais alto possível. O rei do futebol é negro, era nosso orgulho. O Neymar teve a chance, mas não sustentou…”, avaliou.
Em relação a Vinicius Junior, do Real Madrid, que se tornou um ícone antirracista no futebol europeu ao rebater os constantes ataques que sofre na Espanha, Aranha demonstrou apoio e certa preocupação. “O caso do Vinicius Junior infelizmente aconteceu às vésperas da decisão do melhor jogador do mundo [de 2024]. Se aquele episódio não tivesse acontecido nesse período, ou se ele não tivesse se manifestado, ele teria ganhado a Bola de Ouro. Não tenho dúvidas disso. Mas aconteceu, ele se manifestou e está sofrendo as consequências. Pode ter certeza, quando os resultados não vierem no Real Madrid, ele é um dos primeiros a entrar na lista [de dispensa]. É mais fácil se livrar dele. Torço para que ele vença, mas sei que ele seguiu um caminho que dificultou as coisas para ele. ”
Aranha, no entanto, cobrou mais firmeza da estrela do Real Madrid. “Daqui para frente o posicionamento dele é o que vai transformá-lo ou não nessa referência que o Brasil precisa. Porque até então ele tem sofrido ataques, tem sido perseguido, mas a gente mais ouve a assessoria dele se manifestar, não ele diretamente.
O escritor Aranha

Livros escritos por Mário Aranha (Editora Mostarda)
Campeão por diversos clubes do país, Mário Aranha contou com orgulho sobre sua nova atuação, a de escritor. Em 2021, ele lançou Brasil Tumbeiro, em que resgata a a história de referências negras no Brasil. No ano seguinte, também pela Editora Mostarda, apresentou Patrocínio, livro sobre a história de José do Patrocínio, que lutou pelo fim da escravidão.
“Nunca me imaginei escrevendo um livro, mas tive algumas referências nessa trajetória e esbarrei na Carolina de Jesus, quando ainda jogava li O Quarto de Despejo [1960] e essa história ficou na minha mente. Quando aconteceu o episódio do Grêmio, tudo que eu já fazia na questão da militância ganhou um holofote maior, uma projeção. Mas eu já fazia isso bem antes, faço palestra em colégio, universidade, empresa, casa de menor infrator desde 2004. Sempre fiz isso, as pessoas que trabalhavam comigo já sabiam disso“, contou.
“As pessoas não conhecem a história do Brasil, porque o Brasil passou por, eu costumo dizer, um ‘Photoshop histórico’. O que eles não conseguiram esconder, eles maquiaram, modificaram. Dou o exemplo de Tiradentes, Machado de Assis e vários outros [pretos] que a história tentou transformar em brancos. Leio desde os 15 anos, tenho esse contato com a história, com livro, com política e militância. Em vez de eu ficar só dando entrevista, vou fazer um livro com um mínimo, um básico que todo brasileiro deveria saber da história negra, dos personagens negros da história do Brasil.”, complementou.
O ex-jogador demonstrou plena desenvoltura como palestrante e conseguiu fisgar a atenção de centenas de jovens que nem sequer o viram jogar. “Nas palestras, minha linguagem é mais simples, tanto na fala quanto na vestimenta, no posicionamento, na maneira de gesticular, nas brincadeiras. Eu não venho aqui ensinar sobre racismo, dar um letramento racial. Venho aqui sensibilizar os alunos para que eles se interessem pelo assunto e entendam que, caramba, isso realmente faz muito mal. Tento ser um cara legal, porque assim as pessoas param para te ouvir. Se você vira o chato, a pessoa já chega bloqueada.”
Confira outras aspas de Aranha:
Efeitos após o caso na Arena do Grêmio
“Depois do episódio de 2014, que teve uma repercussão mundial, o país todo foi obrigado a algum momento falar sobre esse assunto. De lá para cá, isso acabou se sustentando, virou uma pauta nacional, porque muitas pessoas se identificaram e se fortaleceram, criaram coragem para poder conversar, debater, tentar resolver ou melhorar. Muitos negros saíram daquela zona de conforto, de não tocar no assunto, de não se manifestar, de aceitar todo tipo de humilhação para se manter no grupo de amigos. Hoje muitos já não aceitam mais. Com certeza, na época da escravidão, tínhamos o que o Malcom X falava, que era o negro do campo e o negro da casa. O negro da casa comia bem melhor do que o do campo. Ele vestia melhor, dormia melhor. Então, para ele, o que seria melhor do que aquilo? Ele não ia lutar pelo fim da escravidão e cair no mundão sem estrutura, sem nada, disputando com outros. Isso acontece até hoje. Então é muito difícil, mas é necessário, porque, como eu costumo dizer, o racismo é uma doença. Se você não detectar, e não combater vai crescer e vai te matar. E é real, mata mesmo.
É um tema que é preciso ser debatido, até porque com a punição popular pode ser pior do que a punição jurídica, ela é mais pesada. Se você de repente comete uma injúria, um ato de racismo, de homofobia ou alguma discriminação na rede social ou é filmado cometendo esse ato, sua vida pode acabar. Dou o exemplo da menina do Grêmio, a quem eu nunca nunca ataquei e nem vou atacar. Quem a processou foi o Ministério Público, quem filmou foi uma emissora. Ela errou e paga pelos erros dela, foi uma coisa que ela procurou, mas eu nunca me manifestei dessa forma porque tenho noção do que poderia acontecer com ela e isso poderia cair nas minhas costas. Prefiro seguir outro caminho, mas ela com certeza não tem mais a liberdade, o conforto de ir a um show, um aniversário, uma festa, uma igreja, fazer uma outra faculdade ou trabalhar. A punição popular foi muito pesada. As escolas têm trabalhado esse tema para ter um país melhor, mas também para proteger o investimento feito por pessoas com maior condição financeira. Ou seja, o pai que investe num colégio caro desde do berçário não quer jogar esse dinheiro fora por conta de algum tipo de discriminação, né?
Racismo como ‘piada’
Todo mundo sabe quando quer ferir outra pessoa, sabe exatamente o objetivo que quer alcançar. É que depois ele tenta achar alguma desculpa ou uma válvula de escape. “Ah, foi sem querer, era brincadeira. Eu cresci assim, não sabia, mas agora vou mudar, quem me conhece sabe”. Esses discursos são prontos. O futebol chegou ao Brasil poucos anos após o fim da escravidão. E chegou como um esporte elitista, além de racista. Voltando um pouco mais, tem um histórico com a nossa vizinhança de guerra, onde os negros foram utilizados nas trincheiras, na linha de frente. Morriam em grande quantidade, por não verem valor em seu corpo, em sua alma. Isso carrega todo esse DNA, essa filosofia, essa cultura de ódio contra os negros, que pesa até hoje. Então você junta a história do futebol, mas as histórias de guerra da nossa vizinhança aqui, está pronto o cenário. E não se passaram tantos anos para se livrar disso, mas também nós só não avançamos mais porque até pouco tempo não se debatia isso.
Casos na Argentina
Para os argentinos, tenho certeza que a Copa do Mundo foi um marco negativo. Eles passaram uma imagem para o mundo na qual são pessoas racistas, ruins e mal educadas. Como o argentino vai ser recebido em qualquer país que ele for hoje? Então agora eles vão ter que iniciar um trabalho que eles evitaram a vida toda para poder melhorar a imagem deles. Os jogadores argentinos já estão sofrendo retaliação nos seus clubes. Não no Brasil porque, como eu disse, a ignorância é uma benção. Eles vão reinar aqui, mas no resto do mundo eles estão tendo dificuldade e vão ter que aprender a lidar com esse tipo de situação.
Fórum da Juventude
Douglas Paixão, coordenador de Pastoral do Colégio Marista Arquidiocesano e idealizador do tema para o Fórum de Juventudes da unidade, detalha projeto:
“A proposta de formação integral do colégio é pautada em valores como diálogo, respeito, interculturalidade, solidariedade e empatia, o que contribui para ampliar as reflexões sobre as diferentes manifestações do racismo, seja ele estrutural, institucional, relacional ou recreativo. Esse trabalho busca ajudar o estudante a reconhecer situações de discriminação e, principalmente, a desenvolver uma postura ativa diante delas. Abordar essa discussão a partir do esporte é especialmente importante porque ele também é um espaço formativo, que mobiliza valores e atitudes como cooperação, empatia, solidariedade, trabalho em equipe e respeito à diversidade. Além disso, o esporte faz parte do cotidiano e do repertório dos jovens. Por isso, aproxima o debate da realidade dos estudantes e contribui para que eles identifiquem situações de racismo e preconceito também fora da escola, fortalecendo uma atuação mais consciente e antirracista no dia a dia.”








