O técnico Luis Enrique, do Paris Saint-Germain, evitou se posicionar sobre o caso de racismo denunciado pelo atacante Vinicius Júnior, do Real Madrid, durante uma partida da Liga dos Campeões nesta semana. Questionado sobre o assunto durante uma entrevista coletiva nesta sexta-feira, 20, o comandante espanhol optou por não se aprofundar no ocorrido.

“A semana foi marcada pelo que aconteceu no jogo entre Benfica e Real Madrid com Vinicius Júnior. Você viu o que aconteceu? Isso já foi um tema em algum grupo com o qual você trabalhou? E qual é o seu olhar sobre isso?”, perguntou a jornalista Clara Albuquerque, da TNT Sports.

Após longa pausa, Luis Enrique respondeu: “O que posso dizer sobre esse assunto é nada importante”.

A reação do atual campeão da Champions foi completamente oposta a de outro técnico espanhol, Pep Guardiola, do Manchester City, que pôs o dedo na ferida ao apontar a necessidade de melhorar o ensino nas escolas para acabar com comportamentos discriminatórios.

“Não é a cor da pele que faz de nós melhores. Ainda assim temos muito trabalho para fazer. O racismo está em todo o lado. O racismo não é uma questão da cor da pele, é sobre comportamentos. As escolas são os lugares ideais para mudar comportamentos. Paguem mais aos professores. Não aos jogadores. Aliás, os professores e os médicos devem ser os profissionais mais bem pagos da sociedade, de longe. Não os treinadores e jogadores”, explicou Guardiola.

Outro técnico a se manifestar sobre o caso foi Vincent Kompany, do Bayern de Munique, que saiu em defesa do brasileiro dizendo que forma como Vini Jr reagiu demonstra uma clara evidência de que o caso deve ser levado a sério.

Ele ainda lembrou o fato de Mbappé, que “normalmente é diplomático”, ter tomado partido sobre o caso, além do jogador acusado, o meio-campista Gianluca Prestianni, ter escondido a boca ao ofendê-lo.

Kompany também condenou a postura do técnico português José Mourinho: “José Mourinho basicamente atacou o caráter de Vini Jr. ao mencionar o tipo de comemoração dele para desacreditar o que estava fazendo naquele momento. Foi um grande erro em termos de liderança. Além disso, Mourinho mencionou o nome de Eusébio. Ele disse que o Benfica não pode ser racista porque o maior jogador da história do clube foi Eusébio. Você sabe pelo que jogadores negros tiveram que passar nos anos 60? Ele estava lá para viajar com Eusébio em todos os jogos fora de casa e ver o que ele enfrentava? Usar o nome dele hoje para sustentar um argumento contra Vini…”, explicou.

“Para ser honesto, eu não me vejo pertencendo a muitos dos lados nas coisas que estão acontecendo hoje, então não quero fazer parte de um grupo ou de outro. Conheci 100 pessoas que trabalharam com José Mourinho. Nunca ouvi alguém dizer algo ruim sobre o José. Todos os jogadores dele o adoram. Eu entendo quem ele é, entendo que ele luta pelo clube dele. Sei que, no fundo, é uma boa pessoa. Não preciso julgá-lo por isso. Mas também sei o que ouvi. Entendo o que ele fez, mas ele cometeu um erro. Espero que isso não volte a acontecer no futuro e que possamos seguir em frente juntos”, complementou.

O caso

O Real Madrid venceu o Benfica por 1 a 0, com gol de Vinícius Júnior, mas o resultado ficou em segundo plano devido à paralisação da partida pelo árbitro François Letexier, que acionou o protocolo oficial de conduta antirracismo após a comemoração do gol.

O jogo ficou interrompido por cerca de dez minutos após uma confusão generalizada. Enquanto nomes como Kylian Mbappé se manifestaram de forma enfática sobre o ocorrido e o técnico Álvaro Arbeloa prestou apoio público ao jogador, o técnico do Benfica, José Mourinho, adotou uma linha crítica à comemoração do gol, afirmando que a atitude “incendiou” o estádio.

Vinicius Júnior denuncia atos racistas ao árbitro da partida - Reprodução

Vinicius Júnior denunciou atos racistas ao árbitro da partida – Reprodução

A Uefa já confirmou a abertura de um procedimento disciplinar para analisar os relatórios da partida e os depoimentos das testemunhas. O Real Madrid encaminhou provas adicionais à entidade, enquanto o Benfica emitiu nota oficial afirmando estar colaborando com as investigações, mas defendendo seu atleta, Gianluca Prestianni, das acusações sofridas.