Nenhum estádio no mundo é tão especial para os uruguaios do que o Maracanã, onde a celeste venceu a Copa do Mundo de 1950 sobre o Brasil. Nesta quinta-feira, 22, Fernando Muslera obteve seu Maracanazo particular, ao defender três pênaltis (de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique) na classificação do Estudiantes, da Argentina, sobre o Flamengo, na semifinal da Libertadores.
Na decisão, justamente no Centenário de Montevidéu, onde Muslera tantas vezes defendeu o arco uruguaio, a equipe argentina enfrentará o Palmeiras, numa reedição da decisão de 1968, quando venceu a primeira de suas quatro taças, no mesmo estádio da final de 2026.
A classificação à final representa uma redenção de Muslera em 2026. O experiente jogador de 40 anos deixou a Copa do Mundo na América do Norte como grande vilão do Uruguai, eliminado ainda na primeira fase com falhas clamorosas de seu arqueiro. Na eliminação para a Espanha, o jogador chegou a ser substituído ainda no intervalo. O técnico Marcelo Bielsa afirmou, depois da partida, que Muslera pediu para sair.
A origem de Muslera
Durante a Copa do Mundo, a internet como um todo reverberou o questionamento que muitos jornalistas esportivos levantam desde o início da reconstrução da seleção do Uruguai, no fim dos anos 2000: como um país que produz tantos bons jogadores de linha se vê com um titular recorrentemente inseguro por duas décadas?
Para responder essa pergunta, é preciso conhecer melhor a história de Muslera, um goleiro que nunca se firmou entre a elite da posição, mas que já teve seus dias de herói nacional e é ídolo incontestável de um dos maiores clubes da Turquia.
Néstor Fernando Muslera Micol nasceu em Buenos Aires, no dia 16 de junho de 1986. Enquanto aquele bebê, filho de um casal uruguaio, vinha ao mundo em uma maternidade na capital argentina, a seleção albiceleste arrancava uma vitória histórica sobre o Uruguai pela Copa do Mundo no México.

Fernando Muslera, goleiro do Uruguai na Copa do Mundo de 2026 – Reprodução/X/Uruguay
O time de Bilardo triunfou no clássico sul-americano por 1 a 0, gol de Pedro Pablo Pasculli, avançando para as quartas de final da Copa do Mundo que consagraria Diego Maradona. A comoção da partida fez a equipe de parteiros sugerir aos pais do bebê Muslera que o batizassem de “Pedro Pablo”, ideia rejeitada e respondida com uma homenagem a Fernando Morena, goleador histórico do futebol uruguaio.
Oito meses depois, a família Muslera estava de volta ao Uruguai, onde Fernando iniciaria sua trajetória no futebol de Montevidéo. Revelado pelo Wanderers em 2004, teve atuações de destaque onde caiu nas graças da imprensa local pelos seus reflexos rápidos e defesas acrobáticas. O gigante Nacional, tricampeão da Libertadores, tomou nota e buscou a contratação de Muslera em 2007. Ele rapidamente se tornou titular, mas disputou apenas 14 partidas antes de ser negociado junto à Lazio, da Itália.
A estabilização – ou quase – de Muslera
Foi no futebol italiano que Muslera começou a desenvolver uma fama que o perseguia pelo resto da carreira: a pecha de ser um goleiro capaz de fazer uma grande defesa em um minuto e cometer uma falha grotesca logo em seguida. Apelidado carinhosamente de “Castorino” pela torcida laziale, o arqueiro de 1 metro e 90 marcou época em Roma por regularidade de sua irregularidade.
Assim que chegou, teve uma performance grotesca numa goleada de 5 a 1 aplicada pelo Milan e acabou na reserva de um quase-aposentado Marco Belotta de 44 anos de idade. Na temporada seguinte, vieram grandes atuações sobre Sampdoria, Napoli e Genoa, alternadas por frangos absurdos contra Bari e Palermo e um ótimo Derby Della Capitale contra Roma. Os altos e baixos foram mais do que o suficiente para que Muslera vencesse a disputa pela titularidade com Juan Pablo Carrizo e Albano Bizzarri, além dos títulos da Coppa Italia e da Supercopa Italiana.
O grande divisor de águas na carreira de Muslera chegou na Copa do Mundo de 2010. Com a ajuda de uma linha defensiva que contava com Diego Lugano, Victorino, Fucile e Godín, não sofreu gols durante as três partidas da celeste na fase de grupos. Apesar de falhar no gol marcado pela Coreia do Sul, nas oitavas, seguiu confiante.
Nas quartas de final, Muslera foi decisivo ao pegar dois pênaltis na disputa contra Gana que colocou os uruguaios de volta às semifinais da Copa do Mundo após 40 anos. Na Copa América do ano seguinte, novamente foi figura de destaque no título que consagrou a reconstrução liderada pelo técnico Oscar Tabaréz. Pegou pênalti na disputa que eliminou os anfitriões do torneio, se eternizando de vez na meta uruguaia em solo Argentino.
Carreira na Turquia
Foi em 2011 que Muslera se transferiu para o Galatasaray, da Turquia, clube que representou por quase toda a sua carreira, angariando o carinho da torcida no processo. O status de milagreiro-frangueiro continuou no futebol europeu, com falhas recorrentes nas campanhas do gigante turco na Liga dos Campeões. Isso não tirou dele a titularidade nem por clube, nem por seleção. Seguiu sendo a primeira escolha de Tabaréz por toda a década de 2010, disputando as Copas de 2014 e 2018.
Mesmo quando atravessou uma visível queda de rendimento, a concorrência de Martin Silva, Castillo, Sebastian Sosa e Campana nunca ameaçou seu posto. A mudança aconteceu apenas quando Tabaréz deixou o comando da Celeste em 2021 e Diego Alonso foi escolhido para conduzir o final da campanha da equipe nas eliminatórias. Na oportunidade, a estrela do goleiro Sergio Rochet, destaque no Nacional, enfim, tirou Muslera da titularidade.

Sergio Rochet, goleiro do Internacional – Divulgação / Internacional
Do banco de reservas, ele viu o Uruguai ser eliminado na fase de grupos da Copa do Mundo no Catar, algo que não acontecia desde 2002. Continuou na reserva pela maior parte do ciclo da Copa de 2026 e anunciou a aposentadoria da seleção em abril de 2024, pouco antes da Copa América disputada nos Estados Unidos, na qual o Uruguai de Bielsa se despediu de Luís Suarez terminando na terceira colocação. Parecia ser o adeus definitivo de um dos poucos remanescentes do elenco semifinalista na África do Sul.
Volta para casa
Em 2025, Muslera se despediu da Turquia após quebrar o recorde de jogador que mais vezes atuou pelo Galatasaray na Super Lig. Foram 14 temporadas, 19 títulos e 2 gols marcados. Ao chegar no Estudiantes de La Plata, calou os críticos com ótimas atuações, sendo figura-chave na campaha de semifinalista do clube na Libertadores, o que fez com que Bielsa o convocasse após três anos de ausência, demovendo Muslera da ideia de não jogar mais pela seleção. A má fase Rochet, agora goleiro do Internacional, também colaborou para que o retorno acontecesse.
“Depois de uma pausa de quase quatro anos, voltar à minha melhor forma e poder reintegrar a seleção nacional do meu país me deixou muito feliz. Muitas coisas pessoais aconteceram durante esses quatro anos que mudaram minha decisão e abriram novas portas” comentou à AUFTV, canal oficial da seleção.
Foi assim que Fernando Muslera chegou ao mundial da América do Norte: como uma história de superação em potencial. O ídolo de 40 anos que recuperou a titularidade por mérito próprio e chegou a marca histórica de 5 Copas do Mundo, ainda que a última lembrança tenha sido péssima.






