Há exatos 32 anos, em 2 de julho de 1994, um caso de homícidio chocava o mundo do futebol: o zagueiro colombiano Andrés Escobar, de 27 anos, havia sido assassinado na saída de uma boate em Medellin, dez dias após protagonizar o lance responsável pela eliminação de sua seleção na Copa do Mundo dos Estados Unidos.
Havia muito expectativa em torno da seleção cafetera, que vinha de uma participação positiva na Copa de 1990 (a despeito da eliminação para Camarões de Roger Milla, na presepada do folclórico goleiro Renê Higuita) e nas eliminatórias sul-americanas, na qual acabou na primeira posição, com direito a uma goleada marcante por 5 a 0 sobre a Argentina em Buenos Aires. Aquela equipe havia sofrido apenas uma derrota nas 26 partidas anteriores a estreia no mundial de 1994. A geração colombiana contava com jogadores talentosos como Freddy Ríncon, Faustino Asprilla e Carlos Valderrama. O capitão da seleção era Andrés Escobar, zagueiro de personalidade tranquila. Pacifista, educado e extremamente religioso em sua fé católica, “El Caballero del Fútbol” levava para todo os lugares que ia uma bíblia, com as fotos de sua família e de sua noiva guardadas nas páginas do livro.

Escobar queria fazer da seleção nacional um símbolo de paz em meio ao caos que acometia a Colômbia naqueles tempos: o narcotraficante Pablo Escobar, de influência inescapável no futebol colombiano dos anos anteriores, havia sido morto a tiros por autoridades colombianas no fim de 1993. O confronto armado entre o governo da Colômbia e o crime organizado seguia sendo uma realidade dura para o país.

Seleão Colombiana das Eliminatórias para a Copa de 1994 (Divulgação / Federação Colombiana)
Apesar do otimismo da torcida, o time do técnico Francisco “Pacho” Maturana foi surpreendido pela Romênia de Georghe Hagi na estreia, perdendo o jogo por 3 a 1. Após a derrota, uma série de ameaças foram feitas aos jogadores e a membros da comissão técnica da seleção. Ao receber uma carta anônima repleta de ameaças de morte para todo o time caso o meio-campista Gabriel “Barrabás” Gomez (o marcador de Hagi na primeira partida) permanecesse na equipe titular, Pacho Maturana optou por sacar o jogador da equipe, entrando com Hernán Gaviria. O episódio chocou Gabriel, que se aposentaria no ano seguinte.
Foi com esse clima de absoluta tensão que a Colômbia chegou para o confronto da segunda rodada da Copa do Mundo, uma partida decisiva para definir seu futuro na competição. O adversário: a seleção dos Estados Unidos, os anfitriões da Copa do Mundo. Treinada por Bora Milutinovic, os EUA tinham um time organizado e esforçado, mas que não se destacava tecnicamente, sobretudo quando comparado aos nomes do plantel colombiano.
Sob o sol escaldante de Pasadena, na Califórnia, as equipes entraram em campo para definir seu destino no torneio. Aos 34 minutos do primeiro tempo, um cruzamento rasteiro do lateral-esquerdo americano John Harkes encontrou Andrés Escobar tentando cortar a bola. O desvio acabou traindo o goleiro Óscar Córdoba e morreu no fundo das redes. O gol contra abriu caminho para a vitória americana por 2 a 1 e praticamente decretou a eliminação precoce dos sul-americanos do Mundial.
O lance fez de Andrés Escobar o grande culpado pela queda da Colômbia e um pária para muitos torcedores, a despeito de sua trajetória vencedora pela seleção e pelo Atlético Nacional. A contratação de Escobar (que não tinha qualquer parentesco com o traficante, apesar do sobrenome) interessava a clubes europeus de elite, como o Milan, da Itália. Na volta para casa, para tentar mitigar o ódio que temia sofrer, Escobar publicou uma carta aberta ao povo colombiano no jornal Bogotá El Tiempe, onde pedia desculpas pelo erro cometido e pedia para que os torcedores superassem o trauma da eliminação no mundial. Também decidiu, em conjunto com demais jogadores da seleção, ficar em casa até que os ânimos se acalmassem. Infelizmente, o pior aconteceu.
Pouco mais de uma semana após o fim da Copa para a Colômbia, Escobar quebrou a quarentena autoimposta e decidiu sair com amigos para se divertir na casa noturna El Indio, em Medellín. Na madrugada do dia 2 de julho, alguns homens começaram a provocar Andrés com piadas e chistes sobre seu erro no jogo contra os EUA. Escobar inicialmente levou a situação na brincadeira, mas posteriormente se irritou e buscou se explicar, justificando o caráter involuntário do lance. Na saída da boate, os homens o seguiram. Após nova discussão, Andrés Escobar foi alvejado com seis tiros de revólver, chegando sem vida no hospital.
O caso nunca foi plenamente esclarecido, a despeito das prisões dos envolvidos na altercação: Pedro David Gallon Henao e Juan Santiago Gallon Henao, irmãos com ligações fortes ao cartel, cumpriram 15 meses na cadeia; Humberto Muñoz Castro, motorista dos dois e apontado como responsável pelos seis tiros que mataram Escobar, foi condenado a 43 anos de prisão, sendo solto após 10 anos atrás das grades.

Capa do Jornal “El Colombiano”, de Medellín, no dia seguinte a morte de Escobar
O caso abalou profundamente o mundo do futebol, provocou reflexões imediatas na Copa do Mundo (que ainda estava no começo de sua fase eliminatória). As partidas seguintes tiveram um minuto de silêncio em respeito a memória do defensor. Em 2001, uma estátua de Andrés foi inaugurada em uma praça de Medellín. A homenagem foi batizada seguindo o apelido do jogador: Cavalheiro do Futebol. Em 2016, durante a Copa América Centenário (disputada nos Estados Unidos), a CONMEBOL prestou homenagem à memória do zagueiro, com uma placa especial e uma camisa autografada pela seleção colombiana sendo entregue a Santiago Escobar, o irmão de Andrés, pelas autoridades da entidade máxima do futebol na América do Sul.

Conmebol homenageia Andrés Escobar no Levi’s Stadium, durante a Copa América Centenario (Reprodução / Conmebol)
A morte de Escobar também inspirou filmes, como o documentário “Os Dois Escobars”, e a série “Goles En Contra”. A tragédia ainda causou traumas nos colegas de seleção de Andrés Escobar. Valderrama sempre se emociona ao falar sobre o companheiro de time. René Higuita prestou sua homenagem a Escobar com um post na rede social X (antigo Twitter).
O Atlético Nacional também prestou homenagem ao eterno capitão cafetero, ídolo do clube verdelago em sua fase dourada na década de 1990.
Seu irmão, Santiago, falou ao portal The Athletic, do New York Times, sobre o aniversário de 32 anos do ocorrido: “Após 32 anos, ainda choro pelo meu irmão e não consigo entender a morte de uma pessoa que apenas fazia o que mais amava, que era jogar futebol, entreter as pessoas, levar alegria aos seus fãs e dar tudo pelo seu país, pela sua cidade.”












