O experiente goleiro Yassine Bono, 35, bem que tentou disfarçar, mas deixou escapar em alguns trechos de sua fala logo depois da vitória por 3 a 0 contra o Canadá, em Houston, no último dia 4 de julho, que um sentimento diferente havia tomado conta dos marroquinos nesta Copa do Mundo: o do “sim, é possível”.

“Eu acredito que, daqui para frente, as equipes africanas enfrentarão essa competição com mais sonhos, com mais confiança. E essa é a ideia, não é? Se vamos conseguir ou não, isso já é outra coisa, mas eu acredito que a partir do sonho, a partir da confiança, a partir do ‘sim, é possível’, nós crescemos com essa ideia”, disse.

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Esse mesmo clima otimista tomou conta da imprensa local. O Morocco World News, principal portal de notícias do país publicado em inglês, destacou nesta quinta-feira, 9, uma análise do ex-lateral francês Patrice Evra. Com raízes senegalesas, Evra afirmou que, se Marrocos superasse os Bleus em Foxborough, estaria pronto para se tornar o primeiro país do continente africano a ganhar uma Copa do Mundo.

Marroquinos fracassaram na missão de parar o potente ataque da França - Alexandre Battibugli/Placar

Marroquinos fracassaram na missão de parar o potente ataque da França – Alexandre Battibugli/Placar

Em outra reportagem, o site questionou “Por que Marrocos pode vencer a França desta vez?”. A análise destacou que, diferentemente do Mundial de 2022 – quando o time era mais reativo -, a atual seleção dirigida por Mohamed Ouahb passou a reter mais a posse de bola e a controlar o ritmo das partidas.

Na mesma linha, o Le360 Sport garantiu que o novo encontro entre os rivais seria encarado com uma “confiança renovada”.

O que se viu no Gillette Stadium foi uma equipe que entendeu ser possível surpreender os franceses. O time resistiu por todo o primeiro tempo sem sofrer gols, mas acabou sucumbindo – sem deméritos – diante da seleção que pratica o melhor futebol desta Copa.

Assim como há três anos e meio, Marrocos foi novamente derrotado pelo mesmo placar. Desta vez, porém, não entrou em campo como surpresa ou zebra, mas sim como um adversário respeitado no caminho do time de Didier Deschamps, que chega à sua terceira semifinal consecutiva. Não fosse a equipe marroquina, o destino provavelmente seria o mesmo para o Canadá – e também boas chances de ser o de qualquer um que cruzar o caminho dos europeus.

Forte calor no Gillette Stadium fez com que equipes tivessem dificuldades em parte da partida - Alexandre Battibugli/Placar

Forte calor no Gillette Stadium fez com que equipes tivessem dificuldades em parte da partida – Alexandre Battibugli/Placar

Nesta edição, para além dos nomes conhecidos como Bono, Achraf Hakimi, Sofyan Amrabat e Brahim Díaz, outros nomes saem ainda mais em alta como o jovem volante Ayyoub Bouaddi, apelidado de “motor silencioso” da equipe e comparado a Xavi, Iniesta e Busquets.

Outra figura importante, e ausência sentida na eliminação, foi Ismael Salibari – terror do Brasil na estreia da Copa -, mas que acusou um lesão muscular e ficou de fora. O atacante do Bayern de Munique tinha três gols marcados na competição.

Os Leões do Atlas não sabiam o que era perder na competição, e nem em 2026. Até aqui, acumulava empates contra o Brasil, na fase de grupos, e Holanda, nos 16 avos de final, além de vitórias contra Escócia, Haiti e Canadá. Em 2026, são oito vitórias, cinco empates e a primeira derrota. No ano anterior, sofreu apenas um revés (para o Quênia, fora de casa) em 26 jogos disputados.

Esse sucesso é fruto de um trabalho que começou em 2010, quando o país passou a investir pesado em estrutura e formação de atletas, mesmo que esta seja encerrada fora do país, como nos casos de Hakimi e Brahim Díaz. Foi naquele ano que se inaugurou a Academia de Futebol Mohammed VI, na cidade de Salé, com um aporte de 13 milhões de euros à época.

Torcedores marroquinos reunidos em no estádio Moulay Hassan, em Rabat - Jalal Morchidi/EFE

Torcedores marroquinos reunidos em no estádio Moulay Hassan, em Rabat – Jalal Morchidi/EFE

A estrutura imponente tem mais de 9 mil m², cinco edifícios, seis campos e puxa a fila de um conjunto de vários centros semelhantes espalhados por todo o país. O investimento rendeu uma das maiores conquistas do futebol do país em 2025, a Copa do Mundo sub-20, disputada no Chile.

Nem mesmo a saída de Walid Regragui, comandante da histórica campanha no Mundial do Catar, freou o processo. Coube a Ouahbi, mentor da nova geração, assumir o cargo para dar sequência ao sólido trabalho, que será ainda mais fortalecido para a próxima Copa do Mundo, sediada de forma conjunta entre Espanha, Portugal e Marrocos.

Para 2030, estima-se que sejam investidos mais de R$ 30 bilhões no desenvolvimento do futebol do país. Os gastos que já foram alvos de protestos pelo contraste com serviços públicos oferecidos pelo país, mas que dificilmente entrarão em pauta agora.

Dos dez representantes africanos no torneio, quase todos se classificaram à fase de 16 avos. Só a Túnisia, derrotada nas três partidas, que não conseguiu seguir adiante. Destes, Marrocos foi o time que chegou mais longe, até as quartas de final.

Agora jogando em casa, empurrado pela fanática torcida, o sonho pode não ser um exagero.

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