Yassine Bono, Achraf Hakimi, Sofyan Amrabat e Ismael Saibari já viraram nomes consideravelmente conhecidos desde a histórica campanha de Marrocos na Copa do Mundo de 2022.
Quatro anos depois, chama a atenção entre as estrelas desta edição do torneio um jovem pouco falado, mas já considerado o “motor silencioso” do país africano em mais uma boa campanha: Ayyoub Bouaddi.

Com apenas 18 anos, ele curiosamente optou por não jogar pela França, seu país natal, para vestir a camisa dos Leões do Atlas. As duas seleções se enfrentam nesta quinta-feira, 9, às 17h (de Brasília), no Gillette Stadium, em Foxborough.
Quem é Bouaddi?
Nascido em Senlis, comuna na região dos Altos da França, Bouaddi cresceu jogando futebol em Creil, ao norte do país, até chegar ao Lille aos 14 anos. Estreou como titular no profissional com apenas 16 anos e três dias, em uma partida pela Conference League, e ganhou destaque internacional em 2024, com uma atuação decisiva na vitória do Lille sobre o Real Madrid, então comandado por Carlo Ancelotti.

Bouaddi na elogiada atuação contra o Real Madrid, de Endrick, em outubro de 2024 – Mohammed Badra/EFE
O jovem chegou à Copa do Mundo já com uma bagagem impressionante para a pouca idade: mais de 100 jogos na carreira em três temporadas. “Eu entendo por que Bouaddi foi uma revelação para algumas pessoas, mas não para nós”, disse o treinador Mohamed Ouahbi durante uma entrevista coletiva. “Ele joga com muita maturidade e classe”, completou em outro momento.
A maturidade tática e a precocidade é atribuída a uma capacidade intelectual muito acima da média. Apesar do rápido sucesso no futebol, Bouaddi concluiu o ensino médio bem antes do previsto, aos 16 anos – tendo inclusive vencido um concurso de oratória no Palácio do Eliseu, a residência oficial do presidente da França. Atualmente, ele já iniciou sua graduação em matemática.
“Ele não precisou de muitos treinos para entender como o time joga. O futebol de hoje exige atletas que reflitam e compreendam o jogo, e ele captou imediatamente o que eu quero”, explicou Ouahbi.
Na estreia no Mundial, chamou a atenção a forma como o jovem atuou contra o Brasil, tido como o favorito do Grupo C. Foram 60 passes certos em 66 tentativas, um aproveitamento de 91% no quesito, segundo dados do Sofascore, dominando com a maturidade de um veterano os espaços em um meio-campo ocupado por Casemiro, Bruno Guimarães e outros nomes mais experientes.

Bouaddi teve a missão de marcar Vinicius Junior na estreia marroquina na Copa – Sebastião Moreira/EFE
“O jovem jogador de Marrocos tem características que lembram Busquets, Xavi e Iniesta”, comparou a agência de notícias EFE.
Já no confronto vencido por 3 a 0 contra o Canadá, pelas oitavas de final, suas contribuições defensivas saltaram aos olhos: um desarme, uma interceptação, dois cortes, três recuperações de bola e cinco de sete duelos individuais vencidos, tanto pelo alto quanto pelo chão.
“Eu sei qual é o meu papel. Estou aqui para trazer equilíbrio à equipe. Sei que não é minha função marcar três gols seguidos, embora adoraria fazer isso. Se um dia acontecer, ficarei muito feliz”, explicou o jogador.

Em Houston, participação tática e defensiva foi considerada fundamental para vitória contra os canadenses – Christopher Neundorf/EFE
Curiosamente, ele jamais balançou as redes na carreira profissional, seja pela seleção principal ou pelo Lille. Ainda assim, desperta uma disputa intensa no mercado entre equipes como Arsenal, Real Madrid e Chelsea.
Inicialmente avaliado em 43 milhões de libras (cerca de R$ 318 milhões), Bouaddi pode ser negociado ao fim do torneio por cifras muito maiores. O presidente do Lille, Olivier Létang, indicou que seria necessário um valor acima de 100 milhões de libras (mais de R$ 700 milhões) para liberar Bouaddi, citando como parâmetro o mercado inflacionado da Premier League. O contrato do meio-campista com o clube francês vai até o meio de 2029.
A escolha pelas raízes, e por Marrocos
Considerado uma das maiores promessas da base francesa, a opção de Bouaddi por atuar pela seleção africana virou tema recorrente nesta Copa do Mundo. Pelos Bleus, ele somou mais de 20 partidas nas categorias sub-16, sub-17, sub-18 e sub-21, mas escolheu representar Marrocos após um longo processo de convencimento da federação local, país onde nasceu seu pai.
O caminho foi semelhante ao tomado por nomes como Hakimi e Brahim Díaz, que priorizaram as raízes familiares a oportunidade de atuar por uma seleção competitiva.
“Claro que conhecemos o Bouaddi. Ele é um produto puro do sistema de formação da França. Jogou em quase todas as categorias de base. Nasceu na região de Paris, cresceu lá e depois foi para o Lille”, relatou Guy Stéphan, auxiliar técnico da seleção francesa e braço direito de Didier Deschamps.

Meio-campista durante os treinos da seleção marroquina em Nova Jersey – Sebastião Moreira/EFE
“Ele fez uma escolha e nós a respeitamos. Sei que estou me repetindo, mas ele é um jogador muito bom. Como muitos outros, optou por representar outro país. Não é a primeira vez e não será a última”, acrescentou Stéphan, tentando minimizar a polêmica, embora pontue que o jovem teria forte concorrência no elenco atual da França:
“Temos um grupo muito forte nessa posição. Quando você tem Tchouaméni, Rabiot, Koné, Kanté e Zaïre-Emery, fica difícil tirar alguém. É uma questão de qualidade e quantidade. Mas ele continua sendo um grande jogador”.
Do outro lado, Bouaddi espera continuar ajudando Marrocos a fazer história e, quem sabe, escrever um roteiro diferente de 2022, quando acabaram eliminados na semifinal justamente para os franceses.









