A Copa do Mundo de 1930 foi um torneio marcado por uma série de particularidades. O primeiro campeonato mundial de futebol organizado pela Fifa foi fruto do esforço de Jules Rimet – o terceiro e mais importante presidente da história da organização – em reunir as potências do esporte numa competição exclusiva, rompendo com o torneio Olímpico (o futebol ficou fora do programa dos jogos de 1932).
O país sede foi o Uruguai, uma escolha óbvia, pois os charrúas da camisa cor de céu eram soberanos no futebol dos anos 20, donos do bicampeonato olímpico (1924-1928) que ostentam como mundial até hoje no peito. Para completar, celebravam o centenário de sua independência/constituição, o que motivou toda uma celebração pela nação.
Treze seleções participaram da primeira Copa da história: sete times Sul-Americanos (Uruguai, Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Peru); quatro representantes Europeus (França, Bélgica, Iugoslávia e Romênia) e dois da América do Norte (Estados Unidos e México).
O Egito também foi convidado e ia participar, mas teve problemas no traslado de navio e acabou cancelando sua viagem, na qual iria de carona com a Iugoslávia. Japão e Sião, da Ásia, também desistiram mesmo sendo convidados.

O mítico estádio Centenário, em Montevidéu, no dia da final da Copa de 1930 – Reprodução
O herói de Copa do Mundo que não tinha uma mão
Héctor “El Manco Divino” Castro: Nascido em Montevidéu, Hector Castro teve uma infância dura. Filho de um casal de espanhóis, conciliava os estudos noturnos com o trabalho para ajudar a família, até largar a escola aos 10 anos de idade. Apesar da miséria, Héctor sonhava com uma carreira na medicina, sonho este interrompido precocemente quando sofreu um violento acidente quando trabalhava como carpinteiro.
Aos 13 anos, Héctor Castro perdeu o antebraço direito em um acidente com uma serra elétrica, enquanto trabalhava para ajudar sua pobre família. Parecia ser o fim do sonho para ele, que queria se tornar médico. Na verdade, foi o início de uma das histórias mais lendárias do futebol sul-americano.
Desiludido com o acidente, Castro passou a jogar futebol como válvula de escape para afastar a tristeza e, assim, percebeu aos poucos que levava jeito para a coisa. Iniciou sua carreira pelo modesto Centro Atlético Lito, onde dividira cancha com José Pedro Cea, seu futuro companheiro de Nacional e Seleção.
El Manco brilha na estreia e na final

Reportagem de PLACAR sobre o Uruguai campeão de 1930
Apelidado de “El Manco Divino”, o atacante uruguaio aprendeu a usar o corpo como ninguém. Virou ídolo do Nacional e presença certa no elenco da Celeste Olímpica. Porém, sofria com a eterna reserva nas conquistas do time durante a década de 1920.
Na Copa do Mundo de 1930, a estrela de “El Manco” brilhou: titular de última hora na vaga de Scarone (lesionado), Hector marcou o primeiro gol da história do estádio Centenário na estreia da Seleção, o tento solitário na vitória por 1 a 0 sobre Peru. Contudo, voltou para o banco nas partidas seguintes.
Jogou a final, novamente de surpresa, e mesmo tendo sido ameaçado na noite anterior teve uma atuação decisiva, dando assistência para Dorado abrir o marcador para os donos da casa e marcando de cabeça (do alto dos seus 1,69m de altura) o gol do título, fechando o 4 a 2 sobre a Argentina e se eternizando como ídolo charrúa e o primeiro herói de uma conquista de Copa do Mundo.
* Tércio Brilhante é jornalista formado pela Universidade de Fortaleza e apaixonado por Copa do Mundo
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