“Adaptation” (adaptação, em tradução do francês). A palavra mais repetida por Didier Deschamps, 57, durante cada a uma das entrevistas concedidas aos jornalistas ao longo do duradouro ciclo de 14 anos como treinador da seleção da França é também, curiosamente, a que melhor o define.

Campeão como jogador em 1998 e como técnico em 2018, mas por incontáveis vezes contestado e apontado por críticos como um tipo previsível ou demasiadamente burocrático, Deschamps pode até não ter um legado autoral como o de Pep Guardiola ou Marcelo Bielsa, que inspiraram gerações com suas próprias “escolas”, mas domina como poucos a arte de se reinventar. De se adaptar.

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Prova disso é que ele chega à sua terceira semifinal de Copa – igualando o recorde de Luiz Felipe Scolari (2002, 2006 e 2014) e do alemão Helmut Schon (1966, 1970 e 1974) – em uma inédita versão arrojada. O novo estilo é embalado pelo talento de um quarteto ofensivo formado por Mbappé, Dembélé, Olise e Doué (ou Barcola, dada a indefinição entre os dois últimos). Os Bleus encaram a Espanha nesta terça-feira, 14, às 16h (de Brasília), no AT&T Stadium, em Dallas.

“Agora são três semifinais consecutivas. Parece natural, mas é sempre difícil. É importante ter grandes jogadores. Meu crédito vai para eles, mas talvez eu também faça bem o meu trabalho”, brincou Deschamps, em entrevista concedida logo após a vitória por 2 a 0 contra o Marrocos na última quinta-feira, 9, em Foxborough.

Deschamps abraça Kylian Mbappé após a vitória sobre Marrocos - EFE/EPA/WILL OLIVER

Deschamps abraça Kylian Mbappé após a vitória sobre Marrocos – Will Oliver/EFE

A partida foi uma montanha-russa de emoções para o treinador. Quem estava no Gillette Stadium viu um comportamento atipicamente inquieto, que contrastava com sua habitual serenidade e postura comedida na área técnica. Era o temor pela antecipação do fim de um ciclo que, agora, pode terminar de forma perfeita com o título da Copa do Mundo e a quebra de recordes. Independentemente dos próximos resultados, ele se tornará o técnico com mais jogos na história dos Mundiais (26 ao todo, contando as duas partidas finais do torneio).

A nova – e última – valsa entre Deschamps e os torcedores franceses é classificada como um evento quase sobrenatural, dada a apatia da seleção na Eurocopa de 2024, quando foi eliminada pela mesma Espanha na semifinal.

“São muitos anos, muitas conquistas e, de certa forma, foi meio desgastante para ele e para o público conviver com a mesma figura por tanto tempo”, analisou Éric Frosio, jornalista francês correspondente do L’Équipe.

“A Euro apresentou um estilo de jogo ruim. Simplesmente não fazíamos gols, e a derrota para os espanhóis foi a gota d’água para a torcida, que já não o aguentava mais. Mas houve um milagre, uma reviravolta: a chegada de Barcola, a transformação de Dembélé e, enfim, a formação de uma equipe espetacular. Ele entendeu que era necessário sair dos esquemas chatos e do pragmatismo para viver uma trajetória final linda”, completou Frosio.

A competição foi uma espécie de ponto de partida para mudanças, principalmente encontrando Michael Olise como substituto ideal para a sucessão de Antoine Griezmann. Se há dois anos a França tropeçava, hoje sobra. Joga sem fazer força e levanta comparações jogo após jogo se ficará marcada como a melhor equipe e geração de todos os tempos.

São seis vitórias em seis jogos, 16 gols marcados e apenas dois sofridos. Os franceses ainda têm o privilégio de ter no banco de reservas nomes que seriam titulares em boa parte das seleções, como Barcola, Cherki ou Thuram. Segundo o site de estatísticas Sofascore, o time foi quem mais criou grandes chances (27) no torneio.

“É interessante como ele soube dar a volta por cima e se reinventar a cada vez. Basicamente, o grande trunfo dele é que ele passou por muitos momentos complicados. Em 2013, ele quase foi demitido da seleção francesa se não passasse pela repescagem para a Copa do Mundo no Brasil. Ele também teve complicações em 2015, foi difícil. Depois, durante a Copa do Mundo de 2018, antes de vencerem a Argentina, francamente havia muitas dúvidas sobre a seleção da França. Em 2021, houve um problema na Eurocopa e foi uma espécie de crise. E depois, em 2024, mesmo chegando à semifinal, muita gente criticou a forma como a França jogou”, lembrou o jornalista francês Solen Cherrier, do La Tribune.

“Mas Deschamps em uma palavra que é o seu mantra, o seu conceito principal: ‘adaptação’. Ele se adapta a tudo. O Deschamps é isso: tem uma capacidade incrível de sentir o momento e saber nunca se acomodar. Ele tenta sempre mudar, se adaptar”, acrescentou.

Hoje aclamado, o legado de Deschamps é tão grande que gerou reconhecimento até mesmo no presidente Emmanuel Macron, que escreveu um artigo dirigido ao treinador, afirmando que “sentiria falta de sua força silenciosa, de sua calma diante da adversidade e de suas qualidades humanas excepcionais”.

O homem da taça 

Antes de se tornar treinador, Deschamps viveu uma carreira exitosa como meio-campista. Revelado pelo Nantes, foi um dos pilares do Olympique de Marseille no início dos anos 1990, conquistando duas edições do Campeonato Francês e a inédita Champions League de 1993. A vitoriosa passagem pelo clube o levou à Juventus, da Itália.

Na Velha Senhora, manteve a sua marca vencedora, conquistando mais nove títulos, dentre eles uma Champions League e três Campeonatos Italianos. Ainda defendeu o Chelsea, da Inglaterra, e o Valencia, da Espanha, onde se aposentou como jogador, em 2001.

Pela seleção francesa, experimentou o vexame de ser eliminado pela Bulgária, em casa, na repescagem para a Copa de 1994, mas quatro anos depois ergueu a taça na inédita conquista sobre o Brasil, em 1998.

Deschamp comemora o 1º título francês em Copas – Pisco Del Gaiso/Placar

Curiosamente, o capitão da equipe era Laurent Blanc, que, suspenso, não jogou a final. Vestindo a braçadeira contra o Brasil, Deschamps nem cogitou passar a honra a Blanc, que se postou ao seu lado, e ele próprio ergueu a inédita taça. Fez o mesmo na Eurocopa de 2000, diante da Itália.

Longe dos gramados? Nem pensar

Deschamps mal havia se aposentado quando iniciou sua nova trajetória como treinador, no Monaco. À frente do clube entre 2001 e 2005, seu primeiro trabalho como treinador já foi memorável, com uma conquista da Copa da Liga em 2003 e o vice da Champions League 2003/04. Na ocasião, o clube do Principado foi superado pelo Porto.

Após a passagem pelo Monaco, Deschamps assumiu a Juventus em 2006. Desta vez, porém, a missão era ainda maior: levar a Velha Senhora de volta à elite do futebol italiano após o rebaixamento. Dito e feito, o treinador cumpriu sua missão e venceu a Serie B 2006/07.

Em 2009, retornou às suas raízes e assumiu o Olympique de Marseille como treinador. Por lá, manteve a escrita que teve enquanto treinador e conquistou seis títulos: um Francês, três Copas da Liga e duas Supertaças da França. Após a vitoriosa passagem, Deschamps recebeu o convite e assumiu a seleção francesa após a saída do ex-companheiro Laurent Blanc, que fracassara na Euro-2012.

O ‘Dunga francês’

Capitães na final da Copa de 1998, treinadores Dunga e Didier Deschamps se encontraram nesta quarta-feira no Stade de France

Capitães em 1998, treinadores Dunga e Didier Deschamps se encontraram como treinadores – Divulgação

A contratação de Deschamps fez lembrar a aposta da CBF em seu ex-capitão Dunga (que dirigiu o Brasil entre 2006 e 2010 e posteriormente entre 2014 e 2016), ainda que o francês já tivesse um bom currículo na nova função. Ex-volante de liderança natural e apreço pela disciplina, Deschamps não viveu um bom início à frente da França.

Com uma campanha irregular nas eliminatórias para o Mundial de 2014, a classificação veio apenas nos playoffs diante da Ucrânia. Após perder por 2 a 0 na partida de ida, fora de casa, a vaga na Copa parecia distante. Sob inúmeras críticas, Deschamps utilizou-as como munição para a volta, disputada no Stade de France, e superou os adversários por 3 a 0. Com isso, assegurou seu lugar na Copa de 2014 e teve seu contrato renovado até a Eurocopa de 2016.

Mesmo com uma campanha invicta na fase de grupos e uma vitória por 2 a 0 nas oitavas de final contra a Nigéria, a eliminação veio logo em seguida. Nas quartas, a França perdeu por 1 a 0 para a Alemanha e deu adeus ao torneio.

Dois anos depois, Deschamps chegou para a Eurocopa cercado de desconfiança, críticas e desafetos com a imprensa. Ao longo do torneio disputado em casa, o treinador mudou a equipe, viu seus jogadores crescerem e fez a final do torneio. Na decisão, porém, os Bleus perderam por 1 a 0 para Portugal e viram o título escapar.

Neste momento, a pressão por sua demissão foi forte, mas a federação bancou sua permanência.

Bleus no topo do mundo: o sonho do tri

Didier Deschamps, técnico da seleção francesa, é levantado em comemoração da vitória na final da Copa do Mundo de 2018

Deschamps é levantado em comemoração da vitória na final da Copa de 2018 – Getty Images

Seis anos depois, a glória finalmente chegou: a Copa do Mundo de 2018. Apesar uma campanha quase irretocável nas eliminatórias, Deschamps comandou a França na conquista de seu bicampeonato. Com isso, se juntou ao seleto grupo de campeões do mundo como jogador e treinador, composto por Zagallo (1958, 1962 e 1970) e pelo alemão Franz Beckenbauer (1974 e 1990).

Quatro anos depois, teve novamente a chance de conquistar o torneio no Catar, mas acabou derrotado pela Argentina em uma das melhores finais de toda a história e ficou com o vice após perder nos pênaltis. Sonho adiado para 2026.

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