Eternizado na memória do torcedor brasileiro pelo pênalti perdido que deu à seleção o tetracampeonato na Copa do Mundo de 1994, o ex-atacante italiano Roberto Baggio pode ter tido influência indireta na convocação de Neymar para o Mundial que acontecerá nos Estados Unidos, México e Canadá.

Em seu livro “Liderança tranquila” (Editora Grande Área, 2018), Ancelotti faz uma reflexão sobre um erro que considera ter cometido com Il Codino Divino em 1995, ao recusar sua contratação no Parma por não vê-lo inserido em seu rígido esquema tático na época. O treinador falou a respeito do caso e da relação com a não convocação de Neymar à PLACAR em janeiro.

“No caso de Baggio, podíamos tê-lo contratado para o Parma, mas ele queria jogar como um mediapunta (meia-atacante) e eu não queria mudar o sistema de jogo, que era um 4-4-2. Por isso, disse a Baggio que não poderia trazê-lo. Foi um erro. Naquele momento, eu não tinha experiência para pensar o que penso hoje: é preciso adaptar o sistema ao jogador, e não o jogador ao sistema”, explicou na ocasião.

Durante minha passagem pelo Parma, tive a chance de contratar Roberto Baggio. Àquela altura, utilizava o esquema 4-4-2, mas como Baggio queria jogar atrás do atacante, e, portanto não no 4-4-2, decidi não o contratar. Hoje vejo que fiz mal em descartá-lo. Não queria que ele jogasse lá na frente, e sim como um meia que avança. Recusei-me a mudar meu conceito sobre futebol porque não tinha confiança, era inseguro. Não possuía experiência, estava um pouco preocupado e no fim percebi que havia cometido um erro. Deveria ter conversado com Baggio e encontrado uma solução.

Ancelotti, Roberto Baggio e Baresi durante a Copa do Mundo de 1994 - Juventus FC via Getty Images

Ancelotti, Roberto Baggio e Baresi durante a Copa do Mundo de 1990 – Juventus FC via Getty Images

Na mesma obra, Ancelotti detalha como o episódio moldou sua carreira dali em diante dizendo ter “aprendido a lição” e que passou a “valorizar a qualidade”, tornado-se mais flexível com os sistemas de jogo.

Quando assumiu a Juventus, ele conta ter mudado a ideia tática de escalar a equipe no 4-4-2, seu sistema preferido, para encaixar Zinedine Zidane na equipe titular, “construindo um sistema ao redor dele”. Com a chegada do francês, passou a atuar com três zagueiros e quatro meio-campistas.

Aprendi a lição e passei a valorizar a qualidade, sendo mais flexível com os sistemas de jogo quando fui para a Juventus. Tive de mudar minha ideia de futebol para encaixar Zidane, construindo um sistema ao redor dele em vez de forçá-lo a se adaptar ao meu preferido 4-4-2. Passamos a atuar com três zagueiros, quatro no meio de campo, Zidane à frente deles, e mais dois atacantes. Sacrificamos a defesa porque não queria colocar Zidane no lado esquerdo usando o esquema 4-4-2, onde ele não se sentia à vontade. Portanto, Zidane jogava atrás dos dois atacantes, atuando entre o meio de campo e os atacantes, entre as linhas quando atacávamos e ajudando um pouco os meios-campistas quando defendíamos.

Após confirmar Neymar entre os 26 nomes para a Copa, Ancelotti utilizou boa parte da entrevista coletiva para explicar os motivos da escolha e o aproveitamento do jogador.

Se por um lado o italiano deixou sinais claros sobre a escalação do meia-atacante como um falso 9, posição que hoje não atua no Santos, também despistou quanto a titularidade do convocado, com recado sutil: tudo será resolvido no campo, no dia a dia.

“Escolhemos o Neymar não porque pensamos que vai ser um bom reserva, mas porque pode agregar com suas qualidades à equipe. Que jogue um minuto, cinco minutos, que não jogue, que jogue 90 minutos, que cobre o pênalti… Quantos minutos? Não sei. Qualidade de minutos? Creio que temos que focar na qualidade dos minutos, de maneira coletiva no campo”, disse o treinador, durante o megaevento no Museu do Amanhã, no Rio.

“Quero ser claro, honesto e limpo: ele vai jogar se merecer jogar. O treino vai decidir isso. Acho importante não fixar toda a expectativa em cima de um só jogador”, completou em outro momento.

Momento da convocação de Neymar foi celebrado por diversos presentes - EFE/ Andre Coelho

Momento da convocação de Neymar foi celebrado por diversos presentes – EFE/Andre Coelho

A visão de Ancelotti sobre a função ideal para o atleta do Santos com a amarelinha é curiosa, já que ele atuou poucas vezes como falso 9 pelo clube paulista, todas sob o comando do antigo técnico argentina Juan Pablo Vojvoda, demitido em março.

“Eu acho que ele tem que jogar [na faixa] mais central, não como extremo porque os extremos no futebol de hoje são jogadores que você precisa que ajudem também a nível defensivo. Quando joga um pouco mais por dentro, o trabalho defensivo é muito menor do que quando atua como um extremo. E também acho que um jogador com muito talento, mais perto do gol, tem mais oportunidade de marcar gols. [Falso 9] pode ser a sua posição ideal”, explicou Ancelotti à PLACAR na entrevista publicada em janeiro.

Neymar trabalhará pela primeira vez na carreira sob a batuta de Ancelotti. O primeiro encontro entre eles acontecerá a partir do dia 27 de maio, quando os jogadores e a comissão técnica se apresentam na Granja Comary, em Teresópolis, para iniciar a preparação para a partida contra o Panamá, marcado para o dia 31, no Maracanã.