O técnico Carlo Ancelotti utilizou boa parte da entrevista coletiva desta segunda-feira, 18, para explicar os motivos da escolha por Neymar e o aproveitamento do jogador do Santos entre os 26 convocados para a próxima Copa do Mundo.

Se por um lado o italiano deixou sinais claros sobre a escalação do meia-atacante como um falso 9, posição que hoje não atua no Santos, também despistou quanto a titularidade do convocado, com recado sutil: tudo será resolvido no campo, no dia a dia.

“Escolhemos o Neymar não porque pensamos que vai ser um bom reserva, mas porque pode agregar com suas qualidades à equipe. Que jogue um minuto, cinco minutos, que não jogue, que jogue 90 minutos, que cobre o pênalti… Quantos minutos? Não sei. Qualidade de minutos? Creio que temos que focar na qualidade dos minutos, de maneira coletiva no campo”, disse o treinador, durante o megaevento no Museu do Amanhã, no Rio.

“Quero ser claro, honesto e limpo: ele vai jogar se merecer jogar. O treino vai decidir isso. Acho importante não fixar toda a expectativa em cima de um só jogador”, completou em outro momento.

Presente em todas as demais pré-listas com o treinador, mas ausente nas listas definitivas nos dez jogos em que Ancelotti comandou a equipe, outro sinal claro a Neymar é de que a era de privilégios acabou. À PLACAR, Ancelotti já havia dito que não abriria mão de regras claras de convívio e liberdade aos jogadores.

O caso ocorrido na Copa da Rússia, em 2018, apesar de não citado, é usado como uma referência do que não deverá ocorrer durante o período de concentração dos atletas – algo considerado quase sagrado por Ancelotti, que buscou o isolamento do hotel The Ridge, localizada em Basking Ridge, no estado de Nova Jersey, distante de centros mais populosos e agitados.

O local tem apenas sete mil habitantes e isolamento, diferente do ocorrido durante a concentração em Sochi, na Rússia, quando a pedido do jogador, a CBF permitiu que seus pais e amigos ficassem hospedados no mesmo resort que a delegação.

“Fizemos a avaliação do Neymar o ano todo. Ele é um jogador importante, vai ser importante nessa Copa do Mundo. Tem o mesmo papel e obrigação que os outros 25. Tem a possibilidade de jogar, não jogar, entrar, estar no banco. Tem a mesma responsabilidade que os outros. É um jogador experiente”, comentou o treinador, que falou sobre o posicionamento mais centralizado.

“A avaliação de todo o ano foi só a parte física, sempre falamos disso. Sempre foi um tema físico para ele. Jogou os últimos jogos com continuidade. Ele pode melhorar a sua condição física até o primeiro jogo da Copa. Experiência nesse tipo de competição, o carinho que tem no grupo pode ajudar no ambiente a sacar o melhor”, continou.

A visão de Ancelotti de que a posição ideal para o atleta do Santos com a amarelinha é curiosa, já que só atuou como falso 9 em poucas partidas pelo clube paulista, todas sob o comando do antigo técnico argentina Juan Pablo Vojvoda, demitido em março.

Perguntado pelo jornalista Paulo Vinicius Coelho sobre os critérios de avaliação, já que João Pedro, do Chelsea, que ficou fora, tem 15 gols na Premier League, enquanto o jogador tem somente 15 na temporada, Ancelotti se limitou a dizer que “a comparação é difícil”.

“Temos que considerar muitas coisas. O futebol no Brasil é muito difícil. É difícil comparar. Há as características individuais dos jogadores. Ficamos tristes por João Pedro, pela temporada que fez na Europa merecia estar na lista, mas infelizmente, com todo o respeito possível, escolhemos outros jogadores”, concluiu.

Neymar trabalhará pela primeira vez na carreira sob o comando de Ancelotti. Em seu livro Liderança tranquila (Editora Grande Área, 2018), há uma reflexão feita pelo próprio treinador sobre um erro que considera ter cometido com 0 craque italiano Roberto Baggio, em 1995, ao não contratá-lo para o Parma por não vê-lo inserido em uma função tática. O caso pode ter servido de inspiração.

“No caso de Baggio, podíamos tê-lo contratado para o Parma, mas ele queria jogar como um mediapunta (meia-atacante) e eu não queria mudar o sistema de jogo, que era um 4-4-2. Por isso, disse a Baggio que não poderia trazê-lo. Foi um erro. Naquele momento, eu não tinha experiência para pensar o que penso hoje: é preciso adaptar o sistema ao jogador, e não o jogador ao sistema”, explicou à PLACAR em janeiro.