Em 2010, a revista americana The New Yorker dedicou um longo espaço a uma reportagem curiosa, apresentando as técnicas de um médico conhecido como “Guru do Riso”. O indiano Madan Kataria vinha alcançando fama por cativar celebridades e arrastar multidões a palestras onde apresentava formas peculiares de induzir pessoas ao riso. Ele liderava um movimento internacional que apontava a risada como cura para praticamente qualquer doença, fosse física, fosse psicológica ou espiritual.
No futebol, o cardápio da diversão é sempre bastante vasto. A edição 1497 de PLACAR, lançada em março de 2023, que teve na capa o atacante uruguaio Luis Suárez — então badalado reforço do Grêmio —, trouxe nas páginas 18 a 25 a mais pura isca para boas risadas. Convidamos 50 jornalistas para o desafio de fazer um exercício de futurologia: prever qual seria a escalação titular da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2026, três anos e três meses antes do início da maior competição de toda a história: “Eis aí a seleção de 2026”, destacamos, ousadamente, com o suposto onze inicial posado. As bolas fora eram inevitáveis.

O colegiado de 2023 da Revista Placar – Reprodução/Placar
Naquele momento, o brasileiro se via como em um divã, fazendo queixas da própria vida depois de mais um fracasso em Copas, buscando se recuperar da dolorosa eliminação para a Croácia nas quartas de final do Mundial do Catar — três anos e meio se passaram e ainda nos perguntamos por que havia tanta gente no ataque faltando benditos quatro minutos para acabar a prorrogação. As projeções dos profissionais de imprensa foram de bolas de segurança, passando por apostas certeiras até chegar à melhor parte: os chutes tortos — e bem tortos que merecem ser revisitados com bom humor.
“Vixe, quanto furo. Mas furos meus e de todo mundo, não é?”, brinca Celso Unzelte, que em sua seleção projetou as presenças de Emerson Royal e Guilherme Arana nas laterais, jogadores que vivem momentos de baixa na carreira e não estarão no Mundial. “Na lateral, eu errei junto com os outros, porque estávamos todos carentes. Reconheço que o voto no Royal envelheceu mal, mas também ninguém se firmou na posição. Me defende aí, vai”, emenda Unzelte.

O colegiado de 2023 da Revista Placar – Reprodução/Placar
Poderia até soar como desculpa a fala do professor Unzelte, mas é mesmo um fato: sobraram dúvidas nas laterais durante todo o ciclo Estados Unidos, México e Canadá. Só na era Ancelotti, 13 jogadores foram testados no setor — sete deles na direita e outros seis na esquerda. Mesmo assim, ainda não há convicção sobre quais deles estrearão no dia 13 de junho, contra o Marrocos, em Nova Jersey.
Militão era o favorito para assumir a titularidade no carente setor, mas agora é nome riscado da lista final. Ele chegou a voltar aos gramados no início de abril, após quatro meses sem jogar, em uma retomada promissora com gols e elogios públicos do técnico do Real Madrid, Álvaro Arbeloa — que o chamou de “melhor zagueiro do mundo” —, mas sofreu uma dura recaída da lesão no músculo bíceps femoral da perna esquerda durante uma partida contra o Alavés.

Militão sofreu grave lesão na coxa esquerda e precisou ser operado – Sergio Pérez/EFE
Sem ele, Roger Ibañez (Al-Ahli), o experiente Danilo (Flamengo) e Wesley (Roma) passam a ser as principais opções. Na esquerda, Alex Sandro (Flamengo) e Douglas Santos (Zenit) disputam posição. Emerson Royal foi o escolhido pela maior parte do colegiado, mas já sob olhares desconfiados. Recebeu 15 dos 50 votos, o titular menos lembrado. Hoje, amarga a reserva do Flamengo. Arana, que perdeu a Copa de 2022 por lesão, caiu vertiginosamente e é banco no Fluminense.
Outra curiosidade peculiar está na defesa: o titular Gabriel Magalhães (Arsenal) foi lembrado menos do que Bremer (Juventus), só convocado uma vez por Ancelotti, e perdeu disputas até para apostas como Robert Renan. Mas houve outros chutes bem mais curiosos, como os laterais João Moreira, Arthur, Vinicius Tobias, Khellven e Garcia. Moreira teve passagem por empréstimo pelo Porto e fez oito jogos pela seleção de base portuguesa. Já Garcia, ex-Palmeiras, joga pelo modesto Famalicão. Tobias, que havia estreado pelo time principal do Real Madrid na altura da publicação, está há duas temporadas no Shakhtar Donetsk.
“O Arthur era sub-20 ainda, estava naquela convocação experimental do Ramon [Menezes]. No Leverkusen, ele teve lesão, então acabou tendo uma adaptação prejudicada. Acho que é um jogador ainda com potencial futuro, mas isso explica ele não ter tido oportunidades”, justifica Leonardo Bertozzi. “Acho que o Vanderson ainda pode se recuperar a tempo, mas o Renan Lodi perdeu muito espaço para ele próprio nos últimos anos, honestamente”, cita Bruno Andrade.
Considerando a maioria dos votos, a seleção formada por PLACAR teve: Ederson; Emerson Royal, Éder Militão, Marquinhos e Guilherme Arana; Casemiro, Bruno Guimarães e Neymar; Rodrygo, Endrick e Vinicius Junior.
Apesar de apostas em diversos setores, a dupla de volantes de confiança na era Ancelotti, pilar desde que o treinador iniciou o trabalho em maio de 2025, foi um ponto favorável ao colegiado: “Num geral, acho que tenho grandes acertos: o Danilo Santos (Botafogo), que pode ganhar a vaga na Copa, e o Bruno Guimarães. Um erro gigante meu foi com o João Paulo, que não explodiu como imaginava. Uma nota 6 está honesta”, pondera Vitor Sérgio Rodrigues.
O meio-campista do Botafogo foi a grata surpresa na última data Fifa, disputada nos Estados Unidos no mês de março. Elogiado contra a França, o jogador com passagens por Palmeiras e Nottingham Forest encantou pela atuação no duelo diante da Croácia, vencido por 3 a 1. “O bom jogo contra os croatas pode ter mexido com algumas convicções de Ancelotti, e a escolha de jogadores como Ibañez e Danilo pode conferir ao time mais equilíbrio defensivo, algo que o próprio técnico já disse ser fundamental para um time campeão”, analisa Bertozzi.
O goleiro João Paulo, ex-Santos e atualmente na reserva do Bahia, também foi lembrado pelos jornalistas André Hernan e Maurício Barros. Para a posição, Ederson era visto pela maioria como o sucessor natural de Alisson. O goleiro do Fenerbahçe, que recebeu 24 dos 50 votos, estará no grupo de 26 que irá à próxima Copa, mas tem mais chances de amargar a reserva pela terceira edição consecutiva do que de jogar, apesar de a posição ainda levantar dúvidas pela situação física de Alisson, que teve a temporada comprometida por lesões. A outra aposta era por mais espaço para Bento, que também deve estar no grupo final.
A maior incógnita pairava sobre Neymar. Pela maioria dos votos, o jogador cavou vaga na seleção montada àquela edição. O maior artilheiro da história da Amarelinha, com 79 gols em jogos oficiais, ganhou 27 votos, sendo a maior parte deles para atuar como meia e não mais como atacante, posição que de fato hoje exerce no Santos.

Neymar foi derrotado em sua última partida antes da convocação – Alexandre Battibugli/Placar
Mas nada foi como era antes para ele após a Copa. Neymar só fez quatro jogos no ciclo de quatro anos, nenhum deles sob a batuta de Ancelotti, que reforçou quase que como um mantra a cada entrevista a necessidade de o jogador estar 100% fisicamente para voltar à seleção.
“Eu já não acreditava no Neymar em 2023, estava em declínio físico. Não acho que tenha condição para disputar uma Copa em alto nível por suas atuações e os problemas que ele tem para jogar partidas seguidas. Para mim, o 10 era o Rodrygo (que sofreu lesão de ligamento cruzado anterior no joelho direito)”, comenta Alexandre Senechal, um dos 23 que apostaram na ausência do camisa 10.

Rompimento do ligamento cruzado e o menisco exterior do joelho direito tirou Rodrygo da Copa – Juanjo Martín/EFE
“Não fui tão mal assim, não é?”, cutuca Marília Ruiz, que também escalou a seleção sem Neymar. “Eu gosto desse meu meio, hein? Danilo, Gerson e Bruno Guimarães. Pesou para o Gerson o fato de ter feito escolhas erradas, mas poderia ser um meio-campo interessante e bem fortalecido. E digo mais: o Endrick deveria ser titular. Tirando o Arana, minha seleção dava jogo”, completa.
Mesmo com 17 anos à época, Endrick despontou como a aposta de risco favorita do colegiado, figurando entre os 11 titulares. O hoje jogador do Lyon só havia estreado poucos meses antes como profissional pelo Palmeiras, sendo decisivo na reta final da conquista do Brasileirão de 2022, o suficiente para terminar o ano negociado com o Real Madrid, onde se apresentaria a partir de julho de 2024. “O Endrick é uma aposta sentimental”, disse Eric Faria à época.
Agora, ele é cotado não só para estar no grupo, mas como possível titular por conta de outra baixa inesperada: Estêvão. O atacante do Chelsea foi diagnosticado com uma lesão grau quatro no posterior da coxa direita — estágio em que o músculo se rompe completamente e, em alguns casos, pode perder sua ligação com o osso, com ruptura do tendão —, pediu ao clube inglês para não realizar cirurgia, conseguiu liberação para tratamento no Brasil, mas, mesmo assim, ficou fora até da pré-lista de 55 nomes dado o tempo de recuperação.

Estêvão ficou ausente até mesmo da pré-lista enviada por Ancelotti no último dia 11 – John Walton/PA Images via Getty Images
“No ataque, eu coloquei o Vitor Roque como referência. Foi uma aposta, como muitos apostaram no Endrick, mas ninguém apostou no Estêvão. Com tantas lesões, daqui a pouco não sobrará ninguém”, lembra Marcel Rizzo. Além de Endrick e Vitor Roque, já sem chances por causa de uma contusão no tornozelo esquerdo, outros nomes lembrados foram Pedro, Gabriel Jesus, Richarlison e Yuri Alberto.
“Sigo como um fiel defensor do Yuri, especialmente também porque a posição de 9 segue uma incógnita. Há bons nomes, é verdade, sobretudo o João Pedro, mas falta um ‘indiscutível’. Apesar de ter uma boa desculpa, aqui, só aqui, aceito a derrota: eu errei”, brinca Bruno Andrade.
“Se nem o Ancelotti achou [um camisa 9], que culpa eu tenho de votar num cara que não tem chance de ir pra Copa?”, emendou Senechal.
Empolgado pelas boas atuações de Luccas Paraizo pela base da Portuguesa, Flávio Gomes apontou o jovem jogador de seu time do coração para compor o tridente ofensivo ao lado de Vinicius Júnior e Pedro. Ele se junta à curiosa aposta de Wellington Campos no zagueiro Léo Pelé. O bom acerto de Campos se dá pela presença do então jovem volante Andrey Santos, que estará no grupo.
Os mais lembrados pelo júri foram os garantidos Vini Jr. e Marquinhos, que receberam 48 dos 50 votos cada um. Curiosamente, no exercício de futurologia, a reportagem fez uma breve menção à possível chegada de Ancelotti, tratado como um sonho distante, mas que hoje não só dá entrevistas em português como fala em renovar por mais um ciclo.

Mais votado ao lado de Marquinhos, Vini Jr ganha status de protagonista – Cristobal Herrera/EFE
Agora, não é necessário nenhum “guru do riso” para entender a máxima de que a melhor parte do futebol nem sempre está nas quatro linhas, mas no bom fato de não nos levarmos tão a sério. “Acho que o slogan da minha seleção poderia ser: ‘Como eu não ia dizendo…’. A meu favor estão o mundo em 2023 e o de 2026. E só”, conclui Alex Sabino.
Alguém ainda ousa acertar a escalação da seleção na Copa?
Eles tentaram de novo
Para dez jornalistas, esta será a escalação da seleção brasileira que estreará na Copa:
ALEXANDRE SENECHAL (OWTV)
Alisson; Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Vinicius Jr. e Raphinha
ALINNE FANELLI (BandNews FM)
Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Raphinha, Matheus Cunha e Vinicius Jr.
BRUNO ANDRADE (ESPN)
Alisson; Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Raphinha, Vinicius Jr., Matheus Cunha e João Pedro
CELSO UNZELTE (ESPN)
Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro e Bruno Guimarães; João Pedro, Vinicius Jr., Matheus Cunha e Raphinha
LEONARDO BERTOZZI (ESPN)
Alisson; Roger Ibañez, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro, Bruno Guimarães e Danilo; Matheus Cunha, Raphinha e Vinicius Jr.
LUIZ TEIXEIRA (Grupo Globo)
Ederson; Roger Ibañez, Thiago Silva, Marquinhos e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Matheus Cunha; Vinicius Jr., Endrick e Raphinha
MARCEL RIZZO (Estadão)
Alisson; Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Vinicius Jr., Raphinha e Matheus Cunha
MARÍLIA RUIZ (Band e Paramount+)
Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Matheus Cunha; Raphinha, Vinicius Jr. e João Pedro
VITOR BIRNER (ESPN)
Alisson; Roger Ibañez, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Raphinha e Vinicius Jr.
WELLINGTON CAMPOS (Itatiaia)
Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Bruno Guimarães, Casemiro e Neymar; Endrick, Matheus Cunha e Vinicius Jr.

Capa da edição 1535 de PLACAR, com Endrick em destaque – Reprodução/Placar









