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Capas de Rogério Ceni em 2004 e 2005 – PLACAR
Poucas lendas do futebol nacional foram tantas vezes capa de PLACAR quanto Rogério Ceni. Goleiro do São Paulo entre 1993 e 2005, o atual técnico do Bahia se destacou por suas defesas, seus gols de falta e pênalti e pela personalidade forte.
Sempre direto e bem articulado, Ceni concedeu algumas das entrevistas mais memoráveis da revista entre os anos 90 e 2000. Neste 22 de janeiro de 2026, data em que Rogério completa 53 anos, o blog #TBT PLACAR o homenageia relembrando dois perfis sobre “O maior são-paulino de todos os tempos (2005) e “dono da bola” (junho de 2004).
À época, Rogério nem havia conquistado os principais títulos de sua carreira (a Libertadores e o Mundial de Clubes de 2005 e o tri brasileiro entre 2008 e 2008). Mas já era tratado como lenda tricolor – capitão e dono único da bola.
“Alguém tem que bater as faltas do time, não tem? O Marcelinho, no Corinthians, sempre batia. Ele pegava a bola, errava várias vezes, mas era ele. Aqui, todo mundo tem oportunidade. Está aí o campo para todo mundo treinar, mas no jogo alguém tem que chamar a responsabilidade. Eu me acho em condições de bater as faltas e prefiro assumir essa responsabilidade a passar para outro”, cravou em uma das entrevistas.
Os dois perfis tratavam da reação arredia de Rogério a seus críticos. “Não é difícil admitir falhas. O difícil é ter de admitir uma falha que uma outra pessoa, que não entende, julga que você teve. Uma coisa é falhar, a outra é errar. Só quem está dentro de campo que sabe da curva da bola, do vento, do zagueiro que atrapalhou e do centroavante que passou.”
Relembre, abaixo, duas reportagens de capa sobre o mito do São Paulo:
O maior são-paulino de todos os tempos
Rogério Ceni tem data marcada para se tornar o jogador que mais vestiu a camisa tricolor na história
Diogo Pinheiro, Arnaldo Ribeiro e Maurício Ribeiro de Barros
abril de 2005
Não será uma final, nem um grande clássico. Mas quando Rogério Ceni subir as escadarias que levam ao gramado do Morumbi no próximo dia 30 de abril, sentirá um tremor nas pernas. A ansiedade nada terá a ver com o Paraná, adversário pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro de 2005. É algo muito maior. Rogério certamente levará pelas mãos vários garotos, que logo terão seus lugares tomados pelos repórteres. Precisará desvencilhar-se de câmeras e microfones para saudar a torcida. “É o melhor goleiro do Brasil”, ouvirá com mais força do que nunca.
São Paulo: Polícia realiza operação contra venda ilegal de camarotes no Morumbis
Ao apito do juiz, o goleiro iniciará seu 598º jogo com a camisa titular do São Paulo Futebol Clube. É improvável que uma contusão ou suspensão adiem a festa ” são raras em sua carreira. Será o recorde absoluto na história do clube. Superará em uma partida o lendário Waldir Peres, que defendeu a meta tricolor de 1973 a 1984. Rogério se tornará o maior são-paulino da história.
Titular há quase uma década e capitão do time, o goleiro baterá uma marca que perdura por quase 21 anos. Em tempo de clube, atuando, ele já superou Waldir em oito meses “estreou em 25 de junho de 1993, contra o Tenerife, no Torneio Santiago de Compostela, na Espanha.
A marca não pode mesmo passar desapercebida. Pelo contrário, merece todos os holofotes. As mudanças recentes nas relações de trabalho entre jogadores e clubes ” o fim da lei do passe no Brasil e a Lei Bosman na Europa alforriaram a classe ” transformaram o mercado da bola. Ninguém fica mais tanto tempo em um mesmo clube. Contratos são quebrados, vínculos também. Três anos com a mesma camisa são quase uma eternidade. Rivais como Corinthians, Palmeiras, Flamengo e Vasco, por exemplo, não têm jogadores em seus atuais elencos capazes de igualar-se ao são-paulino. Podem, porém, se gabar de terem recordistas ainda mais consistentes.
No alvinegro paulista, o lateral-esquerdo Wladimir fez 805 jogos. Ademir da Guia vestiu a camisa do Palmeiras 901 vezes. No Rio de Janeiro, Júnior é o recordista do Flamengo (857 partidas) e Roberto Dinamite lidera o ranking vascaíno (impressionantes 1 065 partidas). Todos, como se vê, craques de outros tempos.
Rogério já está no São Paulo há 15 anos. E lá deve ficar até aposentar as luvas, estendendo a marca e ficando mais próximo dos recordistas dos rivais. Ele é o único goleiro dessa lista ” goleiros, aliás, são agora os candidatos preferenciais a permanecerem muito tempo em um mesmo clube, pois o mercado não os caça com a mesma voracidade com que procura defensores, meias e atacantes.
Meia vida
Rogério conta que passou a sonhar com a marca quando entrou para a lista dos dez jogadores que mais vestiram a camisa do São Paulo (em outubro de 2002, numa vitória de 3 x 0 sobre o Figueirense, ele igualou a marca de 428 jogos de Zetti, de quem foi reserva por cinco anos no São Paulo.) Até então, o goleiro acreditava que o recorde jamais seria batido. Agora, ele afirma que será ainda mais difícil de ser superado. “Eu dou muito valor para isso.
Na primeira semana de setembro completam-se 15 anos que estou no São Paulo (desde sua chegada às categorias de base; em tempo de clube, ele só perderá para Teixeirinha, que ficou 16 anos e sete meses no São Paulo). Passei quase metade da minha vida aqui. Se somar os jogos como reserva, já vesti a camisa do São Paulo e entrei no estádio quase 800 vezes. Eu cheguei sozinho com 17 anos e consegui sobreviver a tudo que cerca o meio do futebol. Você vê tantos jogadores que despontam e caem, ou se perdem por um motivo ou por outro”, diz Rogério.
Além da marca histórica com a camisa do São Paulo, Rogério Ceni almeja também superar Waldir Peres em títulos pelo clube. Para isso, ele espera conquistar um Brasileiro e uma Libertadores. Rogério não esconde que não quer encerrar a carreira sem um título importante como titular. Ele atribui a “falha” no cartel em parte ao atual mercado do futebol. “Às vezes, você perde peças importantes no meio de uma competição. Nós jogadores sabemos que isso faz falta. Falta alguém enxergar um pouco mais à frente. Eu procuro entender a situação do clube, os diretores, o treinador, mas por causa de um pequeno detalhe você deixa de ganhar”, diz, tentando explicar o fato de o São Paulo chegar perto de conquistas nos últimos anos e não triunfar.
“Não adianta só ter uma visão de funcionário do clube, que trabalha e fica alheio. Eu sei que a cobrança é grande. Sobra mais para mim do que para os jogadores mais jovens”, diz, justificando a postura crítica, que muitas vezes lembra mais um dirigente do que um atleta.
Rogério tem ambições de continuar no futebol, e a carreira de dirigente lhe parece mais atraente que a de técnico. Ser uma figura histórica do São Paulo favorece uma eventual passagem de jogador a cartola no clube. As análises do goleiro em relação ao time transparecem a vocação. “Agora que o Luizão machucou, o Grafite com problemas, com quem jogaremos na Argentina?”, perguntava um dia após a vitória do São Paulo frente ao Universidad de Chile, no Morumbi ” 4 x 2, um gol dele de falta. “Eu falo que a gente não tem elenco suficiente, que precisa se reforçar…”, dizia.
O pai de gêmeas
Aos 32 anos (com contrato até 2008, ganhando cerca de 180 mil reais mensais), Rogério se diz no melhor de sua forma. “Me sinto muito melhor para jogar hoje em dia do que há cinco, seis anos. Para treinar, não. Mas para jogar, sim”. A maturidade tem a ver também com mudanças em casa. Há três meses, Rogério teve de adaptar o seu dia-a-dia como atleta profissional ao nascimento de suas filhas gêmeas Beatriz e Clara. Se não for véspera de jogo, o goleiro diz que fica acordado de madrugada, dorme, levanta, carrega as meninas no colo e ajuda sua mulher Sandra a cuidar das crianças quando elas estão com cólica (a ponto de o técnico Leão pedir para ele arrumar uma babá).
Por isso, as horas de concentração no CT do clube e nos hotéis passaram a ser encaradas de outra forma. “Eu continuo não gostando, mas estou aproveitando para descansar na concentração. Está sendo importante para eu me recuperar, para comer com calma e dormir bastante”, diz. Para matar a saudade das filhas, Rogério exibe orgulhoso as fotos dos bebês na tela do seu telefone celular. Mas se fora de campo se derrete com as filhas, dentro a história é completamente diferente.
Com temperamento forte, muitas vezes cobra os companheiros com rispidez e dá declarações que podem desagradar colegas e dirigentes. “Não me considero melhor que ninguém. Tenho meu jeito de ser e trato os outros muito bem. Não tenho problemas com meus companheiros e admiro muitos jogadores dos times adversários. Se um torcedor do time rival não gosta de mim, é compreensível. Mesmo assim, há muitas pessoas que torcem por outros times e me cumprimentam.”
Rogério Ceni tem facilidade para lembrar números e datas. Uma das que não esquece é o dia em que marcou o primeiro gol de sua carreira: 15 de fevereiro de 1997. O jogo foi contra o União de Araras, pelo Paulista, quando o São Paulo venceu por 2 x 0. “Foi o ponto inicial da mudança radical na minha vida de goleiro. Foi um dos dias mais polêmicos que eu vi na TV. Todo mundo debatia se o goleiro deveria ou não cobrar faltas.”
Quando balançou as redes pela primeira vez em sua carreira, Rogério não imaginava que um dia seria um especialista em fazer gols. Desde então, o são-paulino já marcou 38 vezes, 33 delas cobrando falta. Foram também 11 gols de pênalti (seis deles em decisões por pênaltis ” Rogério só perdeu um na carreira, no Brasileiro do ano passado, contra o Coritiba). “Ele bate muito bem na bola. Como um cara que não pega tanto na bola durante o jogo como a gente, sai lá do gol, meio frio, e tem um aproveitamento melhor? É incrível, chega a assustar”, afirma o meia Carlos Alberto, do Corinthians, também cobrador de faltas.
A média de gols de falta marcados pelo goleiro em oito anos supera até a de um dos maiores ídolos do futebol brasileiro. Em 23 anos como profissional, Zico marcou 86 gols (média de 3,7 por ano). Outro especialista no assunto, o meia Alex, que hoje está na Turquia, marcou 27 gols de falta em dez anos carreira (média de 2,7 por ano). Com 33 gols em 8 anos (desde que passou a cobrar faltas), Rogério ostenta a invejável média de 4,1 gols de falta por temporada.
“Nunca me preocupei em ter essa estatística, mas eu acho que o Rogério já me superou”, diz o ex-jogador Neto. Talvez a freqüência com que vejamos os gols de Rogério tenha nos tornado algo insensíveis ao fenômeno ” um goleiro que é também artilheiro. E ouvir tal comentário da boca de Neto, um dos maiores batedores de falta da história, nos ajuda a lembrar que, definitivamente, não estamos diante de fato comum. Rogério pega muito lá atrás e tornou-se peça-chave da artilharia tricolor. Se atacantes já tremiam diante dele, seus colegas goleiros hoje sentem a mesma coisa. Não, isso não é normal.
Sutis diferenças
Compare Rogério e Waldir, os donos do gol são-paulino
Fora dos gramados, os dois mais assíduos atletas da história são-paulina têm uma semelhança visível: a facilidade para perder cabelo. No futebol, a trajetória de Rogério Ceni e Waldir Peres, entretanto, é diferente. Apesar do longo tempo no gol do São Paulo, Waldir chegou a jogar em outros clubes, como o Corinthians, o que Rogério refuta. “Eu acredito que não tenha chance de vestir a camisa de outro time grande de São Paulo. Respeito os outros clubes, mas a rivalidade não permite. Eu não me sentiria à vontade.”
Waldir, 54 anos, que há 13 é treinador de futebol, sofreu 514 gols pelo tricolor (média de 0,86 por jogo). Em sua estréia no time, empatou por 1 x 1 com a Portuguesa, pelo Brasileiro de 1973. Em 11 anos de São Paulo, ele venceu três Paulistas (75, 80 e 81) e um Brasileiro (77).
Rogério estreou na semifinal de um torneio na Espanha. Ele pegou um pênalti na vitória por 4 x 1 sobre o Tenerife. Sua média de gols sofridos no São Paulo é de 1,25 por partida. Até agora, ele foi vazado 734 vezes. Dos títulos de maior expressão que disputou como titular, conquistou dois Paulistas (98 e 2000) e um Rio-São Paulo (2001) ” neste ficou de fora da decisão por estar na Seleção.
“Eu sou fã do Rogério. Ele é um excepcional goleiro, mas bem diferente de mim. Ele tem um ótimo posicionamento e um excelente reflexo. Eu tinha como característica a elasticidade, o arranque e a velocidade. É difícil comparar um com o outro. Antigamente, o goleiro era mais exigido. Fazia de dez a 12 defesas por jogo”, diz o atual recordista, que cita José Poy e Gilmar como seus grandes incentivadores no São Paulo e na Seleção. “Os dois me ajudaram muito no início.” Sobre o fato de Rogério fazer gols e ele não, Waldir é bem direto. “Na minha época, se o goleiro saía da área, o técnico mandava ele à m…!”
Feitos e Falhas
O ex-treinador do Império do Futebol, time da primeira divisão paranaense (último clube dirigido por Waldir), afirma ser difícil lembrar sua maior falha na meta são-paulina. “Era normal ter duas ou três por ano. Sempre fui muito cobrado”, diz, passando ao largo do que muitos julgam seu maior frango: contra a União Soviética, na Copa de 1982. Segundo ele, seu melhor momento no clube foi a conquista do Brasileiro de 1977, decidido nos pênaltis, diante do Atlético-MG, em Belo Horizonte.
Rogério lista vários feitos no São Paulo, como o gol de falta na decisão do Paulista de 2000, contra o Santos, no Morumbi, e a semifinal do Rio-São Paulo de 2001, quando defendeu três pênaltis e fez o que considera a defesa mais difícil de sua carreira ” um chute forte do atacante Roni, no contrapé, mostrando uma agilidade e recuperação incríveis.
Sobre falhas, lembra do dia em que chorou no vestiário do Pacaembu, após a derrota por 3 x 1 para o Palmeiras no Campeonato Brasileiro do ano passado. “Foi a primeira e única vez que fui vaiado pela torcida. Eu chorei de raiva no vestiário porque não consegui cumprir minha obrigação dentro de campo”, afirma. Apesar de admitir que teve uma falha gritante ao rebater uma bola neste jogo, o goleiro tem dificuldades em aceitar as críticas.
“Não é difícil admitir falhas. O difícil é ter de admitir uma falha que uma outra pessoa, que não entende, julga que você teve. Uma coisa é falhar, a outra é errar. Só quem está dentro de campo que sabe da curva da bola, do vento, do zagueiro que atrapalhou e do centroavante que passou”, afirma. Contra o São Caetano, quando foi tentar sair jogando e permitiu que Luís Cláudio interceptasse o lançamento e fizesse o gol, Rogério diz que não falhou. “Eu errei, mas não falhei.” Alguém ousa contestá-lo?
Rogério Ceni na Seleção
A trajetória dos dois goleiros na Seleção Brasileira também é diferente. O desempenho no gol do São Paulo garantiu a Waldir Peres 32 jogos pela Seleção Brasileira e a participação em três Copas do Mundo. Ele foi titular apenas na Copa da Espanha, em 1982. Não atuou na Alemanha, em 1974, e na Argentina em 1978. Rogério jogou 11 partidas pela Seleção e foi para um Mundial. Na Coréia e no Japão, em 2002, foi pentacampeão sem atuar.
Seleção é um assunto que Rogério aparentemente trata de forma diferente da maioria dos jogadores. “Ir para a Copa de 2006 não é um objetivo ou uma obsessão. Se eu for, vou ficar contente. Se eu não for, não vai mudar minha vida. Vou continuar feliz. Eu não condiciono o sucesso da minha carreira a ir ou não para a Seleção”, diz ” até porque Parreira e Zagallo já deram mostras suficientes de que não curtem o “estilo Ceni de ser”.
Rogério Ceni, do Brasil, batendo falta contra a Colômbia, no Estádio do Morumbi – Alexandre Battibugli/PLACAR
A sombra mansa
Companheiro de quarto do titular, que joga até machucado, Roger se conforma com a reserva
Para chegar aos quase 600 jogos com a camisa do São Paulo, Rogério atuou em muitas partidas machucado ou sem estar com a condição ideal. “Com dor, eu jogo 90% dos jogos. Futebol profissional não é nada saudável. Exige sacrifícios. Mas quando assumo o compromisso de jogar, a responsabilidade é minha. Vou até o fim”, diz.
O são-paulino lembra até de uma partida contra o Santos, em 1998, pelo Rio-São Paulo, quando o então técnico Nelsinho Batista queria que ele ficasse de fora por causa de uma lesão. “Eu disse que queria jogar e joguei. Foi 1 x 1, em Presidente Prudente, e nos classificamos para a semifinal. A palavra do médico conta muito, mas é a do jogador que vale.”
Esse fato aconteceu quase um ano após a chegada ao Morumbi de Roger, reserva do goleiro. “No começo era difícil aceitar (ser reserva de Rogério), mas com o tempo você amadurece. Eu, hoje, sou muito feliz no São Paulo”, diz Roger, 32 anos, ao ser questionado sobre a condição de eterno reserva do companheiro de time.
Roger chegou no São Paulo em 1997. Desde então ficou fora do clube um ano (entre 1999 e 2000 jogou no Vitória e na Portuguesa) e só entrou em campo quando Rogério estava suspenso ou (muito) machucado.
“Eu tenho meu espaço. Meu desempenho, apesar de jogar pouco, colabora para que o nível do Rogério não caia. Acho que, no futebol brasileiro, só o São Paulo e o Palmeiras (com Marcos e Sérgio) têm dois goleiros em condições de ser titular. Se eu fosse ele (Rogério) também não deixaria (eu jogar)”, afirma.
Apesar disso, o reserva são-paulino diz não ter mágoas do companheiro e pensa em encerrar sua carreira no Morumbi. “Eu considero o Rogério o goleiro mais regular do Brasil. Temos a mesma idade, quando viajamos dividimos o mesmo quarto, gostamos das mesmas músicas. Não tenho problemas com ele”, diz.
Sobre a personalidade forte do amigo, o reserva diz que é resultado de sua objetividade. “Ele é bem informado e claro nos objetivos. Quer ganhar sempre. Se às vezes ele é ríspido com outro jogador, é por isso. Todos entendem. Ninguém fica magoado.”
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O dono da bola
Pegador de pênalti, artilheiro, capitão e unanimidade da torcida. Dono do São Paulo ele já é. Só falta agora o jogador mais poderoso do Brasil virar presidente
Arnaldo Ribeiro e Maurício Ribeiro de Barros Com reportagem de Eugênio Goussinski
junho de 2004
“Rogério, por favor, posso tirar uma foto sua com o meu filho?” Foi esse o pedido que Rogério Ceni mais ouviu e atendeu depois da atuação heróica contra o Rosário Central, quando defendeu dois pênaltis e converteu o seu, classificando o São Paulo para as quartas-de-final da Libertadores. Só que, desta vez, quem implorava pela foto com o ídolo não era o “herdeiro” de algum cartola ou um pequeno fã torcedor. Era Souza, jogador do São Paulo como Rogério, num acesso de tietagem, ávido por satisfazer o filho.
Venerado, respeitado, temido ou invejado por dirigentes, torcedores e colegas, Rogério Ceni, 31 anos, 14 de São Paulo, virou uma espécie de dono do time. É o capitão, cobrador de faltas, porta-voz, símbolo… Ninguém ousa contestá-lo. No jargão futebolístico, ele manda prender e manda soltar no Morumbi.
Quando assumiu o São Paulo, uma das preocupações do técnico Cuca foi descobrir até onde ia a liderança de Rogério Ceni e se ela, de alguma forma, ameaçava seu projeto para o time. “A liderança que o Rogério tem no São Paulo é necessária e ele a exerce até o limite máximo que sua condição de jogador permite. Mas não há como ultrapassar este limite. No clube, existe uma hierarquia.”
Então, vamos tentar descrever o que é essa “liderança exercida até o limite máximo”. No São Paulo, desde que Rogério assumiu a camisa 1, em 1997, os presidentes mudam, os técnicos também, os jogadores nem se fala, e Rogério Ceni continua sendo o batedor de faltas e o capitão da equipe, não importa quem esteja ao seu redor ou, até, acima dele.
“Alguém tem que bater as faltas do time, não tem? O Marcelinho, no Corinthians, sempre batia. Ele pegava a bola, errava várias vezes, mas era ele. Aqui, todo mundo tem oportunidade. Está aí o campo para todo mundo treinar, mas no jogo alguém tem que chamar a responsabilidade. Eu me acho em condições de bater as faltas e prefiro assumir essa responsabilidade a passar para outro.” Esse é Rogério Ceni.
O único treinador a impedir Rogério de cobrar faltas no São Paulo foi Mário Sérgio, em 1998. Mário Sérgio. “Quando cheguei ao São Paulo, chamei o Rogério para uma conversa. Expliquei meu ponto de vista; que as cobranças de falta expunham demais o time e que ele poderia aproveitar o tempo das faltas para aprimorar outros fundamentos. Ele não só aceitou como jamais tentou mudar essa situação”, diz Mário Sérgio.
Mas hoje (28 gols de falta no currículo de Rogério), ele diz que faria diferente. “Olhando o aproveitamento dele em cobranças de falta de lá pra cá, eu reformularia minha posição.” Mário Sérgio só tem elogios ao ex-pupilo. “Rogério é um líder, claro, que demonstrou sempre ter um grande caráter. Inclusive no dia que saí do clube ele mandou para a minha casa uma camisa autografada, que guardo com muito carinho.”
Rogério Ceni sabe agradar para ser agradado. Se deu bem com todos os treinadores. No seu site www.rogerioceni.com.br, você encontra diversas declarações como essas de Mário Sérgio. “Ele “é excepcional, como pessoa e profissional. É um atleta de caráter exuberante e muito humilde.” Esse é Paulo César Carpegiani.
Muitos treinadores consideram contraproducente entregar a faixa de capitão do time ao goleiro, pela dificuldade que um jogador da posição tem para dialogar e pressionar o árbitro durante a partida. Mas a tarja não sai do braço de Rogério Ceni… “Primeiro, não sou eu quem determina quem será capitão; é o treinador. Mas normalmente a faixa é dada ao jogador mais velho, que está há mais anos no clube ” e que tem voz ativa, não adianta ser introvertido”, afirma Rogério.
E o que os colegas de time acham desta “onipresença”? “O jeito do Rogério é assim e isso não vai mudar. Ele nunca vai gostar de perder coletivos, vai querer bater todas as faltas e laterais. Mas ele mesmo diz que é uma forma de ajudar o coletivo, dividir o trabalho com os outros”, diz Roger, reserva de Rogério no São Paulo há seis anos. “Claro que este estilo do Rogério nunca vai agradar a todos”, acrescenta.
Roger diz que, apesar do longo convívio, ainda toma cuidados para não melindrar o companheiro. “Sou quem tem maior abertura com o Rogério. Após os jogos, ele comenta comigo suas atuações e pergunta se eu achei que ele falhou em algum lance. Mas nunca tomo a iniciativa de perguntar, espero ele se abrir. Aí, dou minha opinião.”
Rogério diz se considerar amigo de todos no clube. Entende que nem o fato de ganhar muito mais do que a maioria (cerca de 180 mil reais mensais) é motivo para inveja ou discórdia. “Eu trato todo mundo bem. Procuro ser o mais repetitivo possível com os jogadores que chegam de outros clubes e com aqueles que estão subindo das categorias de base”, diz. “Passei por tudo aquilo que eles estão passando hoje. Fui conquistando meu espaço. Ganhava 3/4 de salário mínimo, acordava às 5 da manhã, pegava carona para treinar e tive de entrar em campo 530 vezes para chegar nesta situação. Devo ser motivo de orgulho.”
De fato, a trajetória de Rogério Ceni no São Paulo é quase irreparável. Ela só teve um arranhão, em 2001, quando, por uma suposta proposta recebida do Arsenal (desconsiderada pela diretoria do clube), ele se desentendeu com o então presidente Paulo Amaral. Resultado: foi afastado por 28 dias e só voltou depois de pedir desculpas.
“Foi um momento horrível. Se eu fosse presidente do São Paulo teria vergonha de dirigir um caso de uma maneira tão ruim. Quem pune um grande jogador de seu clube por 28 dias não está apto, na minha visão, a dirigir um clube como esse.”
Coincidência ou não, Rogério Ceni foi utilizado como cabo eleitoral na última eleição do clube, em abril. O candidato da situação, Marcelo Portugal Gouvêa, renovou o contrato do goleiro (que venceria em julho) por quatro anos, às vésperas do pleito. Paulo Amaral, o presidente que afastou Rogério em 2001, era o candidato da oposição, mas desistiu da disputa dias antes.
Rogério Ceni comemorando gol contra o Santos, na finalíssima do Campeonato Paulista de 2000 (Renato Pizzutto)
O grupo de Gouvêa pressionou os conselheiros dizendo que, se Amaral vencesse, Rogério Ceni deixaria o clube. “A decisão do conselho foi de esfera política, não teve relação com o fato envolvendo o Rogério”, diz Amaral, que não é propriamente um fã do goleiro. “Rogério, sem dúvida entrou para a história do São Paulo, mas assim como outros grandes atletas também entraram.”
“Não se falou em Paulo Amaral na reunião em que renovamos o contrato do Rogério. Disse a ele que estava satisfeito por três motivos: por não haver empresário na mesa; por ter acertado tudo em dois minutos; e por todo reconhecimento que tinha pelo Rogério, como homem e profissional. Ele me abraçou emocionado e eu retribui.” Esse é o relato de Marcelo Portugal Gouvêa. A multa contratual foi estipulada em 10 milhões de dólares, valor exorbitante para um goleiro.
“As pessoas criaram esse negócio de que tive um peso político na eleição, mas acho o seguinte: se você tem um atleta, ele joga oito anos no time titular, você acha que ele é capacitado e você renova o contrato dele, eu não vejo situação política envolvida. Renovamos por mais quatro anos porque acho que tenho condições de manter esse padrão de jogo até os 35 anos.” Essa é a análise de Rogério Ceni.
A participação de Rogério na política do São Paulo reforça as especulações de que o goleiro pode tentar se tornar presidente do clube quando parar de jogar. “Eu gosto de política. As pessoas comentam e perguntam e eu quero, quando encerrar minha carreira, ajudar o clube de alguma maneira.” Mas como presidente, Rogério? “Acho possível, sim. Ninguém melhor que o atleta, que está há tempo no clube para ajudar esse clube, pelo menos no futebol.” Rogério Ceni é sócio do São Paulo há dois anos. Para se tornar presidente, ele precisa antes virar conselheiro.
Romance na sede social
E isso não parece tarefa difícil. Rogério tem trânsito no clube. Freqüenta a sede social do Morumbi. Costumar comer pizza no portão 5 do estádio, vai à lanchonete Habib”s, comparece aos eventos beneficientes, cumprimenta a todos. “O social do Morumbi foi o quintal da minha casa quando eu era menino, dos 17 aos 20 anos, porque a única diversão que nós tínhamos era um vôlei no domingo, passar o dia na lanchonete…”
Foi ali também, no restaurante do São Paulo, que Rogério conheceu Sandra, sua mulher. “Foi em 1991. Eu não era nada, nem sonhava em ser goleiro titular do São Paulo, por exemplo.” Os dois casaram em 2000 e, agora, após renovar o contrato por quatro anos, Rogério pensa em ser pai.
Rogério com seus xodós, os cães labradores Alf e Elvis –
Sandra é psicóloga e trabalha no governo do estado de São Paulo. Os dois vivem numa casa confortável no bairro do Morumbi, que está sendo reformada no momento, com os labradores Alf e Elvis. Rogério preserva-se o máximo possível. Não dá entrevistas em casa e dificilmente recebe colegas de time, por exemplo. “Em casa, é o único lugar onde eu me sinto tranqüilo. Eu gosto do meu canto para pensar, para ver o que é certo, o que é errado, mas adoro receber gente.” Entre os convidados habituais de Rogério estão os músicos Nasi e Edgard Scandurra, do Ira!, e Nando Reis.
Com Sandra, Rogério gosta, acima de tudo, de sair para jantar. Coloca suas roupas de grife, de preferência da Hugo Boss, e, de terno e gravata, vai a um restaurante. Se for possível, argentino, onde possa comer uma boa carne e tomar uma taça de vinho (a única bebida alcoólica que diz consumir de vez em quando), ouvindo tango.
Como quando veste as suas camisas de goleiro personalizadas (Rogério as vende no seu site, junto com as camisas dos adversários que recebe em troca nos jogos), Rogério Ceni gosta de ser diferente em tudo. Se quiser, ofendê-lo, chame-o de comum. O goleiro que bate faltas, candidato a presidente, amante de rock e tango, fã de terno e gravata e estudante de inglês, odeia essa palavra.
Recordista insatisfeito
Fora os gols de falta, ele pode se tornar o atleta que mais vestiu a camisa do São Paulo. Mas quer títulos
Mais de 500 partidas pelo São Paulo ” precisamente 529, até o jogo contra o Cruzeiro, dia 23 de maio. Rogério pode se tornar o atleta que mais vestiu a camisa do clube, superando Waldir Peres (veja quadro ao lado). Quer mais? Ele já marcou 28 gols de falta e três de pênalti. Pouco? O time nunca perdeu quando ele fez gols. Insuficiente? Rogério Ceni acha que sim.
“As marcas estimulam. Mas preciso ganhar um Brasileiro, uma Libertado-res, para ficar com a consciência tranqüila”, afirma. De fato: jogando, Rogério só conquistou três títulos significativos ” os Paulistas de 1998 e 2000 e o Rio-São Paulo de 2001.
Ganhar uma Copa no banco, como em 2002, não o satisfez. Levantar uma taça, atuando, passou a ser sua obsessão. E para atingir esse objetivo restou o São Paulo. “Eu nasci para jogar no São Paulo”, diz Rogério, ressaltando que não é “insubstituível”. Para ele, o futuro goleiro tricolor será Márcio, que se destacou no Paulista e que agora está emprestado ao Grêmio.
Falem bem, mas falem de mim
Engolir uma crítica. Essa é, talvez, a maior dificuldade de Rogério, que costuma aceitar apenas opiniões (contrárias) de “especialistas”. Ou seja: ex-jogadores. Ou melhor: ex-goleiros. O seu mais recente desafeto é o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, da Folha de S. Paulo, que de ex-jogador não tem nada. Ele escreveu uma coluna chamando Rogério de “presepeiro”. Traduzindo: o cara que só joga para a torcida, prejudicando muitas vezes a equipe e enervando os companheiros com seu estilo espalhafatoso de tentar resolver as coisas sozinho. “A grande repercussão de minha coluna prova que o tema do “presepeiro” estava latente, na boca da galera. Fiquei impressionado como tinha gente com bronca dele”, diz Gonçalves.
Pelo perfeccionismo (Rogério ainda é o primeiro a chegar aos treinos e o último a sair), o goleiro não engole esse tipo de comentário e, muitas vezes, parece sentir-se à prova de contestação. “O Rogério é muito teimoso”, diz o ex-goleiro Zetti, seu antecessor. “Considero o Rogério uma grande pessoa, um líder que soube superar dificuldades, além de ser um excelente goleiro. Mas ele às vezes fala mais do que está em sua alçada e isso o prejudica.” E isso é palavra de ex-jogador, Rogério. Ou melhor: de ex-goleiro.
Goleiro tipo exportação
Nem Zetti e nem Leão. O maior ídolo de Rogério Ceni talvez seja Mark Knopfler, guitarrista da banda Dire Straits, uma das prediletas do goleiro. A música é a grande paixão dele, depois do futebol. Além de ouvir de tudo, ele toca violão e, acreditem, canta. “Eu sempre encaixo alguma coisa nova no meu aparelho de CD, mas tenho o padrão dos anos 70”, diz. Leia-se: Dire Straits (o clássico Sultans of Swing é sua música para qualquer hora), Pink Floyd e Whitesnake.
Entre os brasileiros, o goleiro prefere Fagner, Zeca Baleiro e o amigo Nando Reis. Mas Rogério encontra espaço até para o tango argentino. Cita seus prediletos: “Por una Cabeza” e “La Violetera”. As duas músicas fazem parte do filme Perfume de Mulher, com Al Pacino. Cinema, por sinal, é o outro hobby do goleiro. Rogério cita os filmes de sua videoteca: Coração Valente, Dança com Lobos e Sociedade dos Poetas Mortos. “São clássicos que vão resistir ao tempo. Quero que o meu filho possa vê-los.” Ele é do tipo que “vive o filme” quando está assistindo. “Vi o Filho da Noiva três vezes e chorei nas três. É um filme marcante”.
O goleiro já fez cursos de inglês e espanhol e considera aprender línguas mais importante do que fazer uma faculdade. “Se fosse fazer, cursaria Direito, mas não farei.” Quando parar de jogar, ele já tem do que se ocupar, caso o projeto de se tornar presidente do São Paulo não vingue: dar palestras sobre liderança pelo Brasil afora. Rogério já faz isso nos seus tempos de folga ” e gostou da experiência.
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Rogério Ceni em ensaio para PLACAR em 2000- Ricardo Correa/PLACARRogério Ceni, goleiro do São Paulo, jogando hoquei sobre patins - Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni, do Brasil, batendo falta contra a Colômbia, no Estádio do Morumbi - Renato Pizzutto/PLACARO goleiro Rogério Ceni, com diversas camisas que usou pelo São Paulo - Ricardo Correa/PLACARRogério Ceni com Valdir Peres depois de bater seu recorde de jogos pelo São Paulo -Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni fez um jogo em Copa do Mundo, contra o Japão, em 2006 - Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni, do São Paulo, durante o Brasileirão de 1999 - Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni em seus primeiros anos como batedor de faltas do São Paulo - Pisco Del Gaiso/PLACARRogério Ceni em seu início de carreira pelo São Paulo - Nelson Coelho/PLACARRogério Ceni, goleiro do São Paulo, em ensaio de 2006 - Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni, goleiro do São Paulo, em foto de capa de 2004 -Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni bate falta no Morumbi -Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni batendo falta contra o Corinthians, no Morumbi, em 2000 - Renato Pizzutto/PLACARRogério Ceni durante jogo contra o Coritiba em 2005 - Renato Pizzutto/PLACARRogério Ceni, goleiro do São Paulo, durante jogo contra o Atlético Paranaense no Morumbi - Renato Pizzutto/PLACARRogério Ceni, já na reta final de carreira no São Paulo - Renato Pizzutto/PLACARRogério Ceni com Juvenal Juvêncio na apresentação do atacante Luís Fabiano no São Paulo, no estádio do Morumbi - Renato Pizzutto/PLACARRogério Ceni no CT do São Paulo - Alexandre Battibugli/PLACARRogério Ceni, no jogo São Paulo contra o Atlético Mineiro, no Estádio do Morumbi, em 2000 - Renato Pizzutto/PLACARRogério Ceni em treino da seleção brasileira no Pacaembu, em 2000 - Renato Pizzutto/PLACAR