Toda quinta-feira, um tesouro dos arquivos de nossas cinco décadas de história
Edílson na capa da edição 1147, de janeiro de 1999 – PLACAR
Edílson, o Capeta… e Bola de Ouro. Uma das atrações do programa Big Brother Brasil, o ex-jogador de 55 anos fez história no futebol brasileiro por diversos clubes, mas foi no Corinthians que viveu seu auge e conquistou seu maior prêmio individual, em 1998.
Contratado pelo Timão no ano anterior junto ao Kashima Reysol-JAP, o baiano rapidamente passou de carrasco nos tempos de Palmeiras a ídolo da fiel. Livrou o Corinthians do rebaixamento em 1997, e no ano seguinte foi o herói do segundo título brasileiro do Timão.
A final contra o Cruzeiro representou um tira-teima na corrida pela Bola de Ouro da PLACAR, entregue ao melhor jogador da competição pela revista desde 1970. O Capetinha disputava cabeça a cabeça com Fábio Junior, o goleador celeste, mas a discussão acabou quando Edílson driblou o amigo Dida e fez o Morumbi balançar.
Final do Paulistão de 1999 foi marcada por briga generalizada após embaixadas de Edilson - ROGERIO PALLATTA/PLACARO histórico drible de Edílson em Karembeu em Corinthians 2 x 2 Real Madrid em 2000 - Ricardo Correa/PLACAREdílson, do Brasil durante jogo contra a Turquia, na Copa do Mundo de Futebol, no Estádio de Saitama - Acervo/PLACAREdílson, do Flamengo, comemorando gol durante a Copa dos Campeões de 2001 - Acervo/PLACAREdilson, do São Caetano durante jogo contra o São Paulo, partida válida pelo Campeonato Brasileiro de Futebol 2005, no Morumbi - Acervo/PLACAREdilson, jogador do Corinthians, durante treino no Parque São Jorge - Acervo/PLACARRogério Ceni, goleiro do São Paulo, e Edílson, do Flamengo, durante jogo do Campeonato Brasileiro de Futebol, no Estádio do Morumbi - Renato Pizzutto/PLACARMarcos, do Palmeiras, e Edílson, do Corinthians, no jogo do Campeonato Paulista, no Estádio do Morumbi - Acervo/PLACAREdilson durante jogo do Brasil contra a Turquia, na semifinal da Copa do Mundo de 2002 - Acervo/PLACAREdílson, jogador do Cruzeiro - Acervo/PLACARApresentação de Vampeta e Edílson, para o Vitória da Bahia - Acervo/PLACAREdílson, do Corinthians, no jogo contra o Cruzeiro, pelo Campeonato Brasileiro de 1998 - Acervo/PLACARMarcelinho Paraíba e Edílson, do Brasil, comemorando gol contra o Panamá, amistoso, Estádio Arena da Baixada - Acervo/PLACARMarcelinho Carioca e Edílson, comemorando um gol, no jogo da semifinal do Campeonato Paulista - Acervo/PLACAREdilson, do São Caetano, durante a partida contra o Vasco, realizada no Estádio de São Januário, válido pelo Campeonato Brasileiro - Acervo/PLACAREdílson, jogador do Vasco - Acervo/PLACAREdílson, jogador do Flamengo - Acervo/PLACAREdílson, do Flamengo, disputando lance contra jogadores do São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, no Estádio do Morumbi - Acervo/PLACAREdílson, do Flamengo, com a camisa da Seleção Brasileira de Futebol - Acervo/PLACAREdílson, do Flamengo, com seu filho Mateus no Shopping Aeroclube Plaxa Show - Acervo/PLACAREdílson, do Flamengo (RJ), durante treino - Acervo/PLACAREdílson, do Corinthians, no jogo contra o Rio Branco, pelo Campeonato Paulista de 1999 - Acervo/PLACAREdílson, do Corinthians recebendo de Luciano Huck no Programa H, a "Bola de Prata", de PLACAR - Acervo/PLACAREdilson no jogo Corinthians contra o São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro de 1999, no Estádio do Morumbi - Acervo/PLACAREdílson e Vampeta, do Flamengo, em 2000 - Acervo/PLACAREdIlson e Luiz Felipe Scolari durante jogo do Brasil contra a Turquia na semifinal da Copa do Mundo de 2002 - Acervo/PLACARApresentação dos jogadores Vampeta e Edílson pelo Vitória - Acervo/PLACAR
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Na época, o “bom malandro” driblava em campo e nos bastidores. As desavenças com Marcelinho Carioca e o técnico Vanderlei Luxemburgo marcaram a campanha do título, bem como a presença do Capetinha em programas de TV para promover seu grupo de pagode.
Sincero como sempre, Edílson contou à reportagem de PLACAR qual era seu ponto fraco. “Preciso melhorar o meu chute. Sinto dificuldade porque não tive um trabalho de base. Ter mudado de posição também me prejudicou. Eu era meia, dava os passes para os outros marcarem gols.”
O blog #TBT PLACAR, que toda quinta-feira recupera um tesouro de nosso acervo, reproduz na íntegra a reportagem de Amauri Barnabé Segalla, publicada na edição de janeiro de 1999.
O ano do Capeta
Edílson, o melhor jogador do Campeonato Brasileiro 98, é um especialista em criar e resolver problemas
Por Amauri Barnabé Segalla
O técnico Wanderley Luxemburgo estava furioso. Edílson mais uma vez disse que não jogaria no ataque e, de novo, ameaçou abandonar a equipe. Se no começo da discussão ele ainda chamava o chefão de “professor”, agora já o tratava por “você”. Luxemburgo trocou o “você” por “moleque”. Quando os gritos atingiram decibéis de danceteria e os dois já nem se ouviam mais, Edílson resolveu dar um tempo. Viu que o treinador estava molhado e que ele próprio suava a cântaros. “Professor, por que a gente não dá um pulo lá em casa pra escutar um pagode e resolver logo essa parada?”, perguntou o jogador. O todo-poderoso Luxemburgo, até então inflexível, respondeu com uma gargalhada.
No início do ano, Edílson não rendia como meia e chegou até a ir para a reserva no Campeonato Paulista. Luxemburgo queria escalá-lo na frente, mas ele não queria. O problema só foi resolvido na intimidade de um churrasco na casa do jogador, em Salvador. Edílson aceitou fazer um “teste” no ataque corintiano, formado pelos limitados Mirandinha e Didi. “Com o Edílson funciona mais uma conversa informal do que uma dura daquelas”, diz Luxemburgo. Rápido, driblador e habilidoso, logo se transformaria no jogador mais importante do time. Marcou gols importantes contra o Grêmio e contra o Santos, carregando o time para as Finais. E fez o primeiro gol do bicampeonato brasileiro.
Bola de Ouro de PLACAR e o melhor jogador do Campeonato Brasileiro, Edílson da Silva Ferreira, 27 anos, não confiava no seu chute.
“Eu não queria jogar na frente porque meu maior defeito é justamente a conclusão em gol”, afirma. O ex-centroavante da Portuguesa, Cabinho, o “olheiro” que o descobriu numa pelada em Salvador, lembra que percebeu logo que aquele molequinho precisava melhorar o chute. “Ele driblava todo o mundo como um foguete, mas não sabia fazer gols”, conta Cabinho, que, na verdade, estava na pelada para observar o irmão de Edílson, Eleomar. O “olheiro” preferiu ficar com Edílson e resolveu mandar o pé-murcho para o Tanabi, clube do interior de São Paulo. Em seis meses, Edilson já estava no Guarani. Em um ano, era titular do Palmeiras.
No Palmeiras, também não faltaram confusões. Sorriso de mestre-sala, papo fácil, do tipo que faz um amigo em cada mesa de bar, Edílson é bom de briga, mas, como autêntico baiano, tem jogo de cintura e malandragem suficientes para dobrar qualquer situação. Em 1993, ardia a fogueira de vaidades de Edmundo, Roberto Carlos, Antônio Carlos e Cia. Cismado que Edmundo não lhe passava a bola, Edílson, ele próprio um fominha convicto, foi tirar satisfação. Pronto para brigar, o “Animal” mostrou as garras. Trocaram socos e pontapés antes de serem separados por seguranças. Um mês depois, quando os dois ainda não se falavam, Edílson decidiu acabar com aquilo. “E aí, Edmundo, não quer ser meu padrinho de casamento?” Edmundo aceitou. São amigos até hoje.
Estrela ofuscada
O sucesso de Edílson no Corinthians ofuscou outra estrela. Marcelinho Carioca, o grande ídolo da história recente do clube, também teve problemas com o craque que foi bem apelidado de “Capetinha”. A dupla não demonstra, fora do futebol, o mesmo entrosamento dentro de campo. Se nunca brigaram, também não dividem a mesa de jantar. É um relacionamento frio e distante. “Não quero roubar o lugar de ninguém no coração da torcida”, diz Edílson. “Ainda não tivemos oportunidade para uma amizade maior”, afirma Marcelinho, cada vez mais isolado do grupo de jogadores. No episódio da discussão entre Luxemburgo e Marcelinho, que provocou o afastamento do meia por dezoito dias, Edílson tomou o partido do treinador. E deixou isso bem claro para Marcelinho.
Seus grandes amigos no time são os volantes Vampeta e Amaral. Vampeta mora no mesmo flat e divide o quarto na concentração. Acompanha Edílson na gravação de programas de TV. Apesar de ser solteiro, costuma ir ao karaokê e ao cinema com a família do amigo. “As maiores paixões da vida dele são o Vampeta e o nosso filho Matheus, de 1 ano e meio”, diz Ivana Ferreira, casada há cinco anos com Edílson. “Tenho muita identificação com o Vampeta e com o Amaral porque eles são humildes e bem-humorados como eu”, confirma Edílson
Empresário e manager do grupo de pagode Raça Pura, Edílson passou os últimos dois meses envolvido com o lançamento do CD O Pinto, o primeiro do conjunto. Como tudo dependia da sua aprovação, desde a agenda de shows até a escolha dos programas de TV, Edílson passava o tempo na concentração pendurado no celular. Recebia ligações dos seus sócios até no vestiário, após as partidas. Luxemburgo se irritou e ameaçou proibir o celular. Quando o técnico se aproximava, Vampeta ou Amaral piscavam para o amigo. Edílson fingia que estava no telefone com a mulher e não discutindo negócios.
Dança do Pinto
Apesar de ter faro comercial ” além de estar interessado em empresariar outras bandas de pagode, é dono de uma agência de automóveis em São Paulo ” Edílson não tem se esforçado para promover sua banda, como a gravadora queria. Conforme combinado, ele deveria dançar o Pinto (mais uma daqueles danças rebolativas da Bahia), toda vez que fizesse um gol. Esquece sempre. Contra o Santos, na terceira partida da Semifinal, Edílson já estava terminando a comemoração quando Vampeta lembrou a ele que deveria fazer o tal do Pinto. Mas já era tarde.
Filho do músico Carlos Ferreira, que ganhou a vida tocando para hóspedes de hóteis luxuosos de Salvador, Edílson adora dividir uma mesa de bar com a rapaziada e cantarolar um pagode esperto. Ele conseguiu emprestar sua alegria contagiante para um elenco complicado e vaidoso como o do Corinthians. “Com aquele jeitão de baiano malandro, o Edílson derrubava qualquer cara feia”, afirma o lateral Silvinho. Experiente (além de ser bicampeão brasileiro pelo Palmeiras, jogou no Benfica, de Portugal, e no Kashiwa Reysol, do Japão), Edílson chamou a responsabilidade nos momentos mais difíceis e tornou-se ponto de referência para outros jogadores, formando, com o zagueiro Gamarra e o volante Rincón, o trio de sustentação da equipe.
O título não garante a permanência de Edílson no Corinthians. Comprado pelo Banco Excel, em outubro de 1997, por 5 milhões de dólares, ele depende do interesse do Banco Icatu, o novo patrocinador da equipe. “Enquanto a definição não sair, vou ficar na praia tomando água de coco com a turma do pagode.” Afinal, para que esquentar a cabeça?
Vida privada
“Preciso melhorar o meu chute”
Edílson reconhece que poderia ter marcado muito mais gols
Esse Campeonato Brasileiro tem algum significado especial?
Foi o melhor Brasileirão da minha vida. Em 1993, fiz um bom campeonato no Palmeiras, mas eu não tinha o respeito de hoje. Eu era apenas uma revelação. Trabalhar sob cobrança é muito mais difícil. Principalmente no meu caso, que marco muitos gols, sou jogador de habilidade, muito bem remunerado.
Cobrança por parte de quem? Da torcida, do Luxemburgo, da imprensa?
Dos próprios companheiros. A expectativa é a de que jogadores como eu, Vampeta, Gamarra estejamos sempre bem. Existem jogadores no Corinthians que dependem muito das nossas condições. Se estamos bem, eles também estão.
Quais jogadores?
Os mais novos, como o Índio, o Gilmar, o Cris. Eles se espelham muito em nós. Não na maneira de jogar, mas na vida que a gente leva. Eles pensam assim: “Ah, se eu der o máximo, vou conseguir tudo o que o Edílson conseguiu”. Eles vêem o nosso prestígio, o nosso poder financeiro e lutam para conseguir a mesma coisa.
Em que pontos técnicos e táticos você melhorou em 1998?
Eu era um jogador indisciplinado taticamente. Achava que jogar bola era só vestir a camisa do time e fazer o que eu fazia nas peladas em Salvador. Eu me aperfeiçoei, sou um jogador mais maduro, sei perfeitamente a importância da parte tática.
E tecnicamente, você acha que também amadureceu?
Não muito, preciso melhorar o meu chute. Sinto dificuldade porque não tive um trabalho de base. Ter mudado de posição também me prejudicou. Eu era meia, dava os passes para os outros marcarem gols.
E você gostou de ter virado atacante?
No começo eu não queria. Tive diversas brigas com o Wanderley. Mas me adaptei bem. No meio de campo não tem mais espaço para o talento. Neutralizam os jogadores técnicos colocando marcadores fortes em cima deles. No ataque é mais fácil, porque os zagueiros são mais lentos, duros de cintura.
Você continua no Corinthians em 1999?
Não sei. Só voltaria a jogar fora do país por uma proposta muito, mas muito boa. E em times de ponta da Inglaterra, da Espanha ou da Itália. Japão eu não quero mais. E se for para ganhar só um pouquinho a mais, prefiro ficar no Corithians.
Quem é o dono da bola?
Por Alberto Helena
Entre Edílson e Fábio Júnior, a bola balança. Mas, sempre que possível, ela os procura, pois a bichinha adora craque. E ambos são craques. Cada um ao seu jeito, estilos herdados desta ou daquela linhagem de craques que se separam no talhe para juntar-se na escola brasileira de jogar futebol.
Edílson é o saci-pererê. Veloz, joga com sorriso aberto de moleque de rua. Quando dispara, bola colada no pé direito, perseguido pelos ferozes beques, lembra Grande Otelo, escapando morro abaixo dos vilões que lhe querem roubar o samba inédito. No instante em que atinge o beco sem saída, breca ” e o mundo breca junto. Finge que vai sair de banda, mas volta pelo mesmo caminho, agora desimpedido. Na porta do gol, o drible curtíssimo, da dimensão de uma folha de papel e o peteleco fatal, desmoralizante.
Já Fábio Júnior é menino de outra estirpe: um pouco Enéas, um pouco Flávio Minuano, quase seu contemporâneo, Ronaldinho, aquele tipo bem proporcionado ” alto, forte, acaboclado ” que, à primeira vista, passa sensação de lerdeza. Falsa impressão, pois com a bola nos pés, o instinto se funde à imaginação e os dribles se sucedem em flashes, que espoucam quase sempre no fundo das redes.
Bom de cabeça, elegeu a área como seu domínio. Ali, manda brasa como poucos. Mas, atingi-la é uma estratégia bem mineira: prefere ir pelas beiradas, como quem não quer nada. Então, de repente, dá o corte curto, e segue-se a invasão irresistível. Mas, afinal, a bola é de quem? Do menino baiano ou do menino mineiro? De ambos, claro, que, como no velho samba, em poucas linhas, são o Brasil inteiro.