Morreu nesta segunda-feira, 19, aos 77 anos, Volmar Santos, figura histórica do futebol brasileiro e fundador da Coligay, a primeira torcida organizada LGBTQIA+ do país a ganhar notoriedade nacional.
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Por Redação

Morreu nesta segunda-feira, 19, aos 77 anos, Volmar Santos, figura histórica do futebol brasileiro e fundador da Coligay, a primeira torcida organizada LGBTQIA+ do país a ganhar notoriedade nacional.
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“É com imensa dor que nos despedimos de Volmar Santos, torcedor criador da Coligay, a primeira torcida organizada gay do Brasil. Ele foi um pioneiro, um sonhador, um símbolo de coragem e amor pelo Grêmio. Seu legado de respeito, diversidade e resistência será lembrado para sempre por todos os tricolores”, publicou o Grêmio em suas redes sociais.
Músico, carnavalesco, colunista social, radialista e empresário, ele estava internado em Passo Fundo-RS devido a problemas cardíacos. O velório acontece já nesta segunda, na capela do cemitério Santa Cruz, enquanto o enterro ocorre na terça-feira, 20, às 9h30.
Volmar Santos não foi apenas um torcedor, mas um articulador político e cultural, além de responsável por quebrar barreiras nas arquibancadas dos estádios de futebol em pleno período de ditadura militar. Ele administrou a Coligay com rigor, proibindo brigas e excessos para garantir que o foco permanecesse no apoio incondicional ao Grêmio.

A histórica matéria sobre a Coligay nas páginas de Placar – Reprodução/Placar
Sua liderança garantiu que, mesmo sob a vigilância da polícia da ditadura e os olhares tortos de dirigentes e rivais — como registrado na matéria da Placar, que transcrevia provocações de colorados na Rua da Praia —, o grupo resistisse até o início dos anos 1980.
Nos últimos anos, Volmar recebeu o reconhecimento que lhe foi negado no passado. Foi homenageado pelo Grêmio e viu a história da Coligay virar tema de livros e exposições no museu do clube.
Sua morte encerra o capítulo físico de um pioneiro, mas a memória registrada nas páginas de 1977 permanece como documento de que a paixão pelo futebol não tem, e nunca teve, uma única forma de amar.
A edição de número 370 de PLACAR, lançada no dia 27 de maio de 1977, contou a história sendo feita nas arquibancadas do Rio Grande do Sul e do Brasil, quando um grupo de cerca de 60 torcedores, liderado por Volmar, chamado de “minoria” e “pesadelo dos gremistas”, resistia pelo sonho de fazer história.
A reportagem assinada pelo jornalista Divino Fonseca não apenas registrou a existência do grupo, mas amplificou a voz de Volmar em um momento de silenciamento. Na época, proprietário da boate Coliseu — de onde surgiu o nome “Coligay” (uma junção de Coliseu e gay) —, Volmar rebatia críticos que tratavam a torcida como uma brincadeira passageira.
“Modismo? Nossa torcida veio para ficar”, disse à PLACAR na ocasião, seguido de uma das frase que se tornariam marcantes: “O que eles não entendem é que somos gremistas. Toda essa torcida já estava aí no estádio.”

Com o fundo rosa, o registro da Torcida Coligay do Grêmio nas páginas de Placar – Reprodução/Placar
A edição destacou a estrutura impressionante organizada por Volmar: uma Kombi para transporte, túnicas coloridas e uma charanga animada que, segundo relatos da época, ajudou a empurrar o time do Grêmio, então em um jejum de títulos estaduais que durava desde 1968.
A fama de “pé-quente” da Coligay, consolidada após a vitória no Gauchão daquele ano, foi fundamental para que a torcida fosse “tolerada” em um ambiente hostil.
Para o que der e vier
Não passam de minoria – mas, às vezes, fazem mais ruído que a maioria. São uns 60 torcedores, formando a Coligay – junção de um nome de uma boate com o tipo de frequentadores que ela abriga. Para muitos gremistas, isso é um pesadelo – tanto quanto é a delícia dos colorados. Mas numa coisa a Coligay é inatacável: está – como diz o hino do clube – ‘com o Grêmio onde o Grêmio estiver’.
Há algo de novo aqui nas arquibancadas do Rio Grande. Começou a chamar vagamente a atenção no dia 9 de abril passado, durante o jogo Grêmio x Santa Cruz, no Olímpico. Um tanto afastado das outras torcidas organizadas do clube – a Força Azul e a oficial Eurico Lara -, aquele grupinho de torcedores, se desperto algum sentimento de quem o observava à distância, foi o de surpresa: superava em animação as outras duas, batendo seus tambores e berrando o tempo todo em um jogo que o time levava fácil.
Um ou dois jogos depois, porém, não restava mais fúvidas. A cozinha foi reforçada, eles passaram a levar faixas identificativas, a bailar – rebolando e levantando graciosamente o pezinho – e, quando uma bola aspava a trava defendida pelo goleiro do Grêmio, juntavam as palmas das mãos e soltavam agudos gritinhos de moção. Ultimamente alguns têm ido até de cáftãs, longos e folgados.

Voltar (à dir.) em um raro registro fotográfico – Reprodução/Placar
É a Coligay, a mais nova torcida organizada do Grêmio – o mais recente golpe no lendário machismo gaúcho.
Fundada pelos frequentadores da Boate Coliseu, um dos três templos da comunidade gay em Porto Alegre, a cada jogo engrossa – ou melhor, expande – suas fileiras, chegando a apresentar cerca de 60 figurantes nos Gre-Nais.
Os gremistas não poderiam se sentir mais contrariados. Obrigados a aceitar a divisão de seu espaço com tão exótico grupo, muitos já não têm gosto nem para as discussões com os colorados nas rodinhas da Rua da Praia.
– Era só o que faltava. Logo neste ano, quando estava dando tudo certinho, com o nosso time bem mais ajeitado que o deles, aparece essa gente para desmoralizar tudo.
– Para que essa tristeza, rapaz? A torcida de vocês sempre foi isso aí. Só que agora vocês resolveram abrir o jogo. A Coligay é apenas a comissão de frente -, gozam os colorados.

Alguns dos integrantes da Coligay, torcida criada em 1977 – Ricardo Chaves/Placar
– Olha, eu por mim comandava uma pauleira contra eles, mas toda vez que falo nisso na arquibancada o pessoal manda deixar para lá, que é feio brigar dentro da própria torcida. Mas não considero aqueles caras torcedores. Eles só querem aparecer.
– É, depois é Pelotas quem leva a fama, não?
– Vocês não fiquem gozando muito, porque já ouvi dizer por aí que as coloradas não vão querer ficar para trás. Vem aí a Interflowers. Vai ser uma afirnação total na arquibancada – comentam os gremistas.
E por aí vão.
Entre o oficialismo gemista e a indignação não é menor. Um pouco antes do jogo contra o Juventude, no estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, o presidente Hélio9 Dourado passeava pela pista e sorria diante dos aplausos das torcidas organizadas. Ao passar diante da Coligay, diminuiu o passo, franziu o cenho, depois prosseguiu. Ainda desconhecia as características do grupo. Hoje, nega-se a abordar o assunto.
Mas José Buaes, 45 anos, há 11 chefiando a Eurico Lara, com sala no estádio, apoio dos dirigentes e tudo mais, diz logo o que pensa:
– Lamentável, lamentável! Uma vergonha! Quem poderia imaginar que isso viesse a acontecer com o noss Grêmio?
Tudo muito diferente do que Buaes idealizou para o clube em matéria de torcida.

Torcedores precisaram driblar resistência até mesmo dos próprios gremistas – Ricardo Chaves/Placar
A dele é composta, como ele diz, por cem meninos sadios, normais. Durante os jogos, manuseiam um letreiro móvel, com palavras de força para o time, de incentivo à compra de títulos patrimoniais e até de congratulações pelo nascimento do primogênito de algum dirigente. Quando a irritação toma conta da massa e ela começa a chamar o juiz de bicha, os meninos da Eurico Lara – que aliás começaram a usar a faixa diferenciadora depois do surgimento da Coligay – acionam suas potentes buzinas para abafar a inconveniência. Para poderem pertencer a essa torcida são obrigados a apresentar o boletim escolar todos os meses e, duas vezes por ano, levam seus pais ao estádio para confraternizar com a diretoria numa churrascada.
Qum não suportou esse rígido esquema familiar saiu em 1974 para formar a Força Azul, que também nunca contou com a simpatia de Buaes.
Mas, embora cause vergonha, a Coligay – agora contando com alguns reforços vindos da Força Azul – não sofrerá pressões da diretoria. Ao menos é o que garante Buaes.
– Enquanto eles ficarem nisso, tudo bem. Não tomaremos conhecimento. É como se não existissem. Conheço essa gente e sei que qualquer pressão provocaria a explosão da bicharada. Na base da solidariedade, elas invadiriam este estádio às centenas e seria um escândalo. Melhor deixar como está.
E nem seria permitida qualquer repressão. Segundo o comissário Teotásio Pielewski, chefe do setor de meretrício e vadiagem da Delegacia de Costumes, isso é encargo seu.
– Estamos de olho nos rapazes e até agora não notamos nenhuma atitude inconveniente. Se algum provocar os outros torcedores, será retirado. Só isso. Nem a faixa que os identifica como homossexuais é ilegal.

Integrantes da Coligay vestiam uma espécie de túnica listrada, cada um com uma letra da palavra Grêmio – Ricardo Chaves/Placar
A palavra do comissário por certo servirá para aliviar a turma. Na semana passada, ao mesmo tempo em que contratava por 2 mil cruzeiros mensais o afamado percussionista Neri Caveira para botar ordem na charanga, ela se movimentava em busca de um leão-de-chácara e até de um advvogado para evitar possíveis confusões na arquibancada.
Em sua ânsia de organização, a Coligay não se vexa de recorrer a machões – caso do percussionista e do leão-de-chácara -, o que, somado tudo o mais que ele já conseguiu, talvez desminta a previsão do chefe da Eurico Lara, José Buaes: “Isso é modismo, passa logo”.
Modismo? Revolta-se Volmar Santos, 29 anos, chefe da Coligay, soqueando a palma da mão.
– Nossa torcida veio para ficar. O que eles não entendem é que antes de tudo somos gremistas, que vibramos de paixão pelo nosso clube. Todosa essa turma que está aí já vinha ao estádio há muito tempo, e a única fdiferença é que a gora estamos reunidos, torcendo numa boa, na nossa, entende?
Aponta os 15 instrumentos de bateria, a sirena, as faixas; lamenta que nesta manhã fria – domingo retrasado, dia do jogo Grêmio x Novo Hamburgo -, um amistoso – só tenham vindo 25 representantes, e adianta: em breve virão os instrumentos de sopro e uniformes estilizados para todos os componentes.
– Acabar? Pelo contrário. Já temos uma kombi que leva representantes nossos para cidades do interior, muitos vão em seus carros, de ônibus. E tem mais: já falei com muitos cabeleireiros meus amigos, eles ficaram encantandos com o sucesso que a torcida está fazendo e prometeram aderir e convidar seus amigos. Só queremos paz e alegria, mas já vou avisando a quem quiser mandar contra nós: tem muita gente importante, que não pode aparecer, nos dando apoio.

Deitados nas arquibancadas do antigo estádio Olímpico Monumental, antiga casa do Grêmio – Ricardo Chaves/Placar
Fala em um livro de oro, em jantares beneficentes e mais não revela a propósito, a não ser que muitos dos integrantes da Coligay são pessoas bem nascidas.
– Gente de fino trato, entende?
Como gerente da boate, Volmar – gaúcho de Passo Fundo – já ouviu insinuações de que estaria apenas fazendo publicidade, utilizando para isso inocentes úteis. Repete a hipótese com um meneio de cabeça. Lembra que é sócio do clube há dois anos e que vai ao estádio desde garotinho.
O que levou a pensar na organização da nova torcida, garante, foi a frieza que caracteriza os torcedores do Grêmio.
– Eles só incentivam quando o time vai bem. E é lógico, quando parti para recrutar gente, tinha de pensar em gente como eu. Acho que a nossa classe é mais animada, mais descontraída por natureza, não é verdade? Veja só que beelza, a turma não para nunca.
Sob o comando do compenetrado Neri Caveira, a cozinha ataca na batucada, abafando os tímidos repiques da Força Azul, a 50 metros. Formar essa banda foi fácil, comenta Volmar. A notícia do surgimento da Coligay log se espalhou (“Sabe como é a classe, né?) e o pessoal da escola de sama e de colégios pareceu. Alguns colorados quiseram participar da coisa, mas foram vetados. Para entrar tinha de ser gay e gremista.
– Já ouvi dizer que nossa ideia não é original, que o Fluminense tem a Flu-Gay e o Cruzeiro uns tais de Raposões Independentes. Não tem importância, não estamos aqui por vaidade, para aparecer – mas para torcer à nossa maneira. Agora, tem uma coisa. Travesti, aqui não entra. Aí, seria avacalhação.
Afinal, garante o chefe, exceto colorados, todo o gay é benvindo, é amigo. Ele já pode notar nesses quase dois meses de atividade que a Coligay tem servido inclusive pararevelar o que se chama de enrustidas – gente que não resiste à batucada e ao ambiente de confraternização e resolve “se assumir”.
– São todos maravilhosamente recebidos. Mas, por honestidade, devo reconhecer que a maioria que passa perto de nós faz cara de desaprovação e sai a passos rápids. Normal, não? Seria pretensão demais achar que todo gremista deva ser.
Aproxima-se um integrante do grupo que se diz comissário de bordo da Varig., fala da atividade gay nos Estados Unidos e na Europa e levanta uma tese: o fato de uma torcida desse gênero surgir justamentenum clube de raízes elitistas, como o Grêmio, não é coincidênci; pessoas de maior embasamento cultura, diz, adquirem sua liberação com menor dificuldade.
Volmar não se mostra muito seguro quanto a isso. Mas garante, que, depois de fundar a torcida, começou a se dar conta de que estava envolvido numa coisa muito importante.
– Pela primeira vez, num Estado machista como o nosso, os homossexuais se manifestam em público. Não é pouca coisa, não? Às vezes. chego a ficar assutado. Mas, pelo que já se viu, Porto Alegre está madura para nos aceitar.
Diz isso e sai a pular, com sua camisa tricolor, seu chapéu enfentado e sua bandeira de fina seda. É hora de incentivar os jogadores. Estes, por seu lado, falam com reserva em relação à Coligay, a maioria reagindo como lúra:
– O quê? Eu opinar, que é isso? Olha bem pra minha cara.
Walter Corbo, que recebeu faixa de incentivo em sua estreia, mostra espanto:
– Que raro, no?
Tarciso se conforma:
– O mundo tá mesmo virado. A gente não pode se surpreender com mais nada.
Jorge, o chefe da Força Azul, não se perturba.
– É tudo Grêmio – afirma. E, bem-humorado, diz que só vê um inconveniente:
– Qualquer dia desses os juízes vão se achar com razão para se postar na frente da arquibancada e gritar aquela palavra que sempre ouviram.