O dia 23 de abril marca a celebração de São Jorge no calendário católico. No futebol, a data é um retrato da presença cultural que atravessa países e assume formas distintas.

Na Europa, o santo aparece em bandeiras e escudos herdados da história das cidades. No Brasil, especialmente no Corinthians, faz parte da rotina do clube, de sua sede e à forma como a torcida vive o próprio time.

Quem foi Jorge da Capadócia (São Jorge)

Jorge da Capadócia foi um militar romano do final do século III, filho de família cristã, da região da Capadócia, na atual Turquia. Durante o governo do imperador Diocleciano, que promoveu perseguições aos cristãos a partir de 303 d.C., Jorge teria se recusado a renunciar à fé. Assim, foi preso, torturado e executado.

Nos primeiros séculos do cristianismo, mártires eram reconhecidos por histórias que circulavam nas comunidades. É nesse contexto que Jorge passou a ser venerado, com culto organizado a partir do século IV, especialmente em Lida, na Palestina, onde hoje está construída a Igreja de São Jorge.

A imagem do cavaleiro que derrota o dragão, porém, surge mais tarde. Essa ideia é fruto dos séculos XII e XIII, na literatura medieval, especialmente na Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze. A narrativa cresce no contexto das Cruzadas, por se tratar de um guerreiro cristão vencendo um símbolo do mal.

São Jorge e o Corinthians

A relação entre o Corinthians e São Jorge nasce na década de 1920, quando o clube buscava um terreno após o fim da concessão do Estádio da Ponte Grande. Durante as discussões internas, um dos fundadores do clube, Antônio Pereira, defendeu a compra de uma área conhecida como Fazenda São Jorge, na zona leste da capital paulista.

Parque São Jorge, a sede do Corinthians - Divulgação

Parque São Jorge, a sede do Corinthians – Divulgação

A proposta encontrava resistência até que, segundo registros históricos, Pereira levou uma imagem do santo para uma reunião e associou a decisão à proteção de São Jorge. O gesto, assim, alterou o rumo da negociação. Em 1926, o Corinthians concluiu a compra do terreno e uma missa foi celebrada para marcar a aquisição.

Nas décadas seguintes, a ligação se aprofundou e São Jorge passou a ser tratado como padroeiro do clube. A Sede do Corinthians, o Parque São Jorge, hoje conta com uma capela, imagens e esculturas espalhadas pelo espaço.

Curiosamente, o clube, fundado por católicos, se tornou um ambiente ecumênico com o tempo. Próximo às imagens de Jorge, há também representações de Ogum e de Nossa Senhora Aparecida.

São Jorge, Ogum e o escudo do Corinthians

No Brasil, São Jorge é amplamente associado a Ogum, orixá das religiões afro-brasileiras ligado à guerra, à proteção e à abertura de caminhos. No Corinthians, essa convergência religiosa chegou até ao escudo atual.

Orfeu Maia explica símbolo do Corinthians sobre ponto de ogum – Reprodução / Meu Timão

Orfeu Domingues Alves Maia, artista responsável por modernização do escudo corinthiano em 1979, revelou ter utilizado como referência o chamado ponto riscado de Ogum. O traço é utilizado em rituais de umbanda e candomblé, associado a proteção e força espiritual.

O escudo, de 1939, com âncora e remos, não foi alterado em seus elementos principais, mas teve a organização gráfica alterada nesse processo.

Período da fila e a fé nas arquibancadas

O período entre 1954 e 1977 , 23 anos sem títulos, foi decisivo para consolidar essa relação. Sem conquistas, a torcida intensificou práticas de devoção. Ao conquistar o título do Campeonato Paulista de 1977, sobre a Ponte Preta, no Morumbi, torcedores pagaram promessas ao invadir o gramado, como relata o historiador Luiz Antônio Simas, no livro: “São Jorge: o santo do povo e o povo do santo”.

Torcedor com a bandeira do Corinthians, comemorando o título do Campeonato Paulista de Futebol de 1977 - Ronaldo Kotscho/PLACAR

Torcedor com a bandeira do Corinthians, comemorando o título do Campeonato Paulista de Futebol de 1977 – Ronaldo Kotscho/PLACAR

Essa presença se manifesta nas arquibancadas a partir dos anos 1970, com bandeiras da imagem do santo na arquibancada e até um samba-enredo da Gaviões da Fiel no Carnaval de São Paulo de 1976. Na letra do enredo “Vai Corinthians”, a escola usou: “Vai Corinthians, Vai não para de lutar, Vai torcida fiel , Saravá São Jorge, que ele vai nos ajudar”.

Hoje, antes das partidas, o clube organiza um ritual na Neo Química Arena, com a entrada da imagem de São Jorge. Normalmente, o responsável pela condução é o historiador do clube, Fernando Wanner.

Corinthians salvou São Jorge?

A ideia de que “Corinthians salvou São Jorge” surge com Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal e arcebispo-emérito de São Paulo. O frade relatou a história em seu livro Corintiano Graças a Deus, sobre a revisão do calendário litúrgico após o Concílio Vaticano II.

Na década de 1960, a Igreja Católica reduziu a centralidade de santos com base histórica considerada limitada. São Jorge, assim, permanecia reconhecido, mas com menos destaque no calendário universal católico.

“Corintiano Graças a Deus”, Livro de Dom Paulo Evaristo Arns – Divulgação / Corinthians

Dom Paulo relata ter escrito ao papa Paulo VI, destacando a presença do santo no Brasil, especialmente em São Paulo e entre torcedores do Corinthians. “Santo Padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil. Sobretudo ante a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo”, disse.

A resposta atribuída ao papa, foi: “Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem o Corinthians”. E, segundo relatos, São Jorge não foi “rebaixado” e, mais recentemente, nos anos 1990, foi prestigiado novamente com o papa João Paulo II.

Dom Paulo Evaristo Arns em entrevista à PLACAR em 1982

Barcelona e mais São Jorge no futebol europeu

Na Inglaterra, a relação com São Jorge antecede o futebol e está ligada à formação do Estado. Desde a Idade Média, o santo é adotado como padroeiro nacional, especialmente a partir das Cruzadas, quando passou a ser associado à proteção militar. A cruz vermelha sobre fundo branco se tornou símbolo de exércitos ingleses e, posteriormente, bandeira do país.

Na Geórgia, a ligação é ainda mais forte. O próprio nome do país é tradicionalmente associado a São Jorge, que é padroeiro nacional. A bandeira georgiana, com cinco cruzes, deriva dessa tradição, e o santo aparece no brasão de armas. No futebol, a seleção nacional carrega em seu escudo um cavaleiro derrotando um dragão.

Kirill KUDRYAVTSEV / AFP

Torcid da Geórgia na Eurocopa de 2024 – Kirill KUDRYAVTSEV / AFP

No caso do Barcelona, a presença de São Jorge vem da cidade e da região. O escudo do clube conta com a cruz do santo, em alusão ao brasão de Barcelona. Em 2022/23, uma das camisas do Barça teve o desenho da cruz de São Jorge.

O dia 23 de abril, celebrado como Diada de Sant Jordi, em catalão, é uma das principais datas culturais da Catalunha. Padroeiro da Comunidade Autônoma, São Jorge já esteve representado em camisa da seleção catalã.

A principal arena da cidade é o Palau Sant Jordi, instalação multiuso construída em virtude dos Jogos Olímpicos de Verão de 1992.

Cruz de São Jorge no terceiro uniforme do Barcelona para 2022/23 - Divulgação / FCB

Cruz de São Jorge no terceiro uniforme do Barcelona para 2022/23 – Divulgação / FCB

Na Itália, a relação passa principalmente por Gênova. A cidade, uma das primeiras a utilizar a cruz de São Jorge como símbolo marítimo e militar ainda na Idade Média, sedia Genoa e Sampdoria, que mantêm essa herança em seus escudos, camisas e identidades visuais.

O Milan também utiliza a cruz de São Jorge em seu escudo, ligada à tradição da cidade de Milão. A Inter, em ocasiões específicas, já utilizou a cruz em uniformes comemorativos.