Sofrer uma lesão durante a prática esportiva é uma situação comum para atletas, independentemente da modalidade ou do nível de competição. O desafio, porém, não termina quando o jogador deixa o departamento médico. O retorno à atividade precisa ser gradual para que o corpo esteja preparado para recuperar a intensidade e os movimentos exigidos pelo esporte. Nesse processo, uma das principais dúvidas é: quando o atleta está, de fato, pronto para voltar?
A resposta depende do tipo e da gravidade da lesão, além da evolução de cada atleta durante a reabilitação. Ellen Exmalte, fisioterapeuta e especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil), explica que o retorno acontece por etapas, com aumento progressivo da dificuldade e da carga dos exercícios.
“Quando um atleta se lesiona, a gente inicia o processo de fisioterapia. Então, com uma fase mais de controle da dor e do edema – se ele existir -, começa a ativação muscular. A gente vai evoluindo na questão dos exercícios, tanto na dificuldade quanto na complexidade, na questão da carga. E quando o atleta volta a realizar algumas atividades, isso é feito de forma gradual.. Então, se o atleta precisa correr, por exemplo, ele vai fazer, inicialmente, um trote. E aí, ele se sentindo bem, passamos para a fase seguinte. Tudo, na verdade, é uma progressão”, pontua.

Arrascaeta, no gramado, acusa lesão na clavícula – Juan Mabromata/AFP
Além da recuperação física, o aspecto psicológico também pode influenciar o retorno. É comum que atletas se sintam menos confiantes ou mais receosos ao realizar determinados movimentos após um período afastado. Esse fator tende a ser ainda mais relevante em lesões de maior gravidade, que exigem meses de recuperação.
“Em casos de lesões mais complexas, essa questão da confiança é bem relevante. Então, uma lesão de LCA (ligamento cruzado anterior), por exemplo, leva em torno de nove meses para retornar àprática”, explica Ellen. Segundo a especialista, a exposição gradual às atividades ajuda o atleta a recuperar a segurança para executar novamente os movimentos exigidos pela modalidade.
Outro ponto de atenção é o retorno aos esportes ainda com algum nível de dor ou incômodo. No alto rendimento, fatores como calendário de competições, comissão técnica e outros compromissos podem aumentar a pressão para que o atleta esteja novamente em atividade em um período mais curto.

Militão sofreu uma grave lesão na coxa esquerda e precisou ser operado – Sergio Pérez/EFE
“Às vezes, o calendário não permite que um trabalho de fisioterapia seja 100% concluído. Então, em alguns casos, o atleta pode ainda sentir um incômodo. Mas, pensando numa reabilitação clássica, com todos os passos sendo seguidos corretamente até o retorno, o objetivo é que o atleta esteja preparado para realizar as atividades sem limitações relevantes”, afirma a especialista.
Um exemplo recente é o atacante Vitor Roque, do Palmeiras, que conviveu com problemas no tornozelo ao longo do primeiro semestre e posteriormente passou por cirurgia. O caso ilustra a importância de observar a evolução dos sintomas mesmo após o retorno às atividades.
Para Ellen, sentir algum desconforto não significa necessariamente que uma lesão tenha piorado, mas alguns sinais exigem atenção, principalmente quando há aumento significativo da dor após o exercício, surgimento de edema, limitação de movimento ou alterações na forma de executar determinado gesto esportivo.

Wesley chora com a lesão que o tirou da última Copa do Mundo – Reprodução/TV Globo
“O retorno aos gramados ou às quadras não deve ser encarado apenas como o momento em que o atleta recebe autorização para voltar a competir. A recuperação envolve uma sequência de etapas para que o corpo seja novamente exposto, de maneira progressiva, às demandas específicas da modalidade. Quanto mais próximo das condições reais de competição estiver o processo de reabilitação, maior a possibilidade de o atleta recuperar não apenas a capacidade física, mas também a confiança para desempenhar novamente seu esporte”, finaliza a fisioterapeuta.





