Obter do real uma visão muito simples, que acuse, em vez de ofuscar, o número e a complexidade dos detalhes.
— Louis Lavelle

Desde menino, acompanho futebol. Como tantos brasileiros, eu vibrava com seu momento decisivo: o gol, desfecho da tensão, alegria de uns e tristeza de outros. A depender da partida, guardo na memória alguns grandes lances, para mim especiais. Estive no histórico Maracanã, quando assisti ao milésimo gol de Pelé, seis dias após o meu aniversário de sete anos, e também, em 1976, ao lençol de Roberto Dinamite sobre o zagueiro botafoguense Osmar. Com o passar dos anos, outras descobertas integraram minha formação futebolística, não como especialista, mas como admirador: a estratégia dos treinadores, o modo como os times controlam a posse de bola e chegam aos lances decisivos.
Há alguns anos, durante as últimas competições nacionais e internacionais, comecei a me interessar, além do apito inicial, pelas histórias de perdas, acidentes, doenças, promessas, reencontros e recomeços. O jogo permanecia o mesmo desde menino. Meu olhar, entretanto, já não era. Talvez essa seja uma das transformações mais significativas da narrativa esportiva contemporânea: o gol deixou de ser apenas um acontecimento técnico para tornar-se o clímax de uma história com início muito antes da partida.
Nesta Copa do Mundo, por exemplo, quando o atacante mexicano Raúl Jiménez marcou três gols, eu não assistia somente a um centroavante comemorando; lembrava-me do choque de cabeça quase fatal, da cirurgia de emergência, do longo processo de recuperação e das dúvidas sobre sua capacidade de voltar ao futebol. O gol, portanto, deixou de representar apenas um ponto no placar e se tornou o símbolo visível de uma trajetória improvável.
O mesmo ocorreu com o atacante marfinense Yan Diomandé, considerado um dos destaques da Copa de 2026. Depois de saber da morte trágica da irmã, sua maior incentivadora, tornou-se impossível assistir às suas partidas da mesma maneira. Cada lance dele revelou-me uma dimensão profundamente humana: imaginar como sua vida prosseguiu após a perda.

Yan Diomande é um dos destaques da Costa do Marfim Divulgação/Costa do Marfim
No futebol brasileiro, também temos histórias semelhantes, como a promessa de comprar uma casa para os pais, feita pelo meio-campista Roni ao irmão Tupã, falecido devido a problemas cardíacos em 2016. O ato transforma sua carreira em algo maior, além da ascensão profissional e do sucesso.
Esses exemplos revelam uma mudança importante na maneira como o esporte passou a ser contado. Durante décadas, os jogadores eram apresentados quase exclusivamente por sua posição em campo. Nos anos 1980, quando eu era frequentador assíduo do Maracanã e já possuía maior consciência sobre uma partida de futebol, lembro-me de que os jogadores eram identificados pelos números na camisa. Assim, eu reconhecia suas posições e me interessava por suas qualidades técnicas. Hoje, complemento esses interesses com suas histórias: o menino e sua promessa de realizar um sonho interrompido, o sobrevivente de um grave acidente, o jovem vencedor da pobreza ou aquele capaz de continuar depois de uma perda irreparável.
O enredo, assim, já estava sendo montado na minha cabeça. Um gol nasce muito antes da bola estufar as redes. Para quem conhece a história desses jogadores, a partida começa anos antes, nos percalços da vida: uma doença, um acidente, a perda de alguém amado ou a fidelidade a uma promessa. Talvez seja aí que as histórias revelem sua verdadeira força: tornar presentes profundidades da realidade que os fatos isolados não revelam.
Para dar vida às coisas, observa Northrop Frye, a literatura não se limita a reproduzir a realidade; ela precisa ser fiel à própria literatura. Talvez essa observação ajude a compreender uma transformação ocorrida também nas transmissões esportivas. O jogo continua sendo o mesmo, mas a forma de narrá-lo mudou. Antes do apito inicial, conhecemos perdas, promessas, derrotas, reencontros e esperanças.
A narrativa não altera os fatos; altera a maneira de percebê-los. Há profundidades na realidade que somente uma atenção verdadeiramente humana consegue tornar presentes.
Possivelmente, um exemplo marcante dessa transformação seja o do técnico espanhol Luis Enrique. Quando ouvi, durante as transmissões do Mundial de Clubes, o relato da morte de sua filha Xana, aos nove anos de idade, vítima de um câncer originado nas células formadoras dos ossos, imaginei ouvir mais uma narrativa de superação. Chamou-me a atenção a serenidade de Enrique e a recusa em transformar a dor em espetáculo.
Em entrevistas concedidas após retornar ao futebol, afirmou considerar-se um homem afortunado pelos nove anos vividos ao lado da filha. Disse também manter as fotografias de Xana espalhadas pela casa, como sinal de sua permanência nas conversas e nas lembranças da família. Em outra ocasião, resumiu tudo numa frase: não precisava conquistar uma Champions League para lembrar da filha.
Há, nessa afirmação, outro tipo de troféu: não a taça erguida diante das câmeras e da empolgação da torcida, mas aquela aureolada pelo testemunho de continuidade da vida, sem deixar de amar quem partiu.
Essa é, possivelmente, uma das declarações mais humanas já feitas por alguém do esporte internacional. Ela rompe a ideia de que o sucesso seria capaz de compensar todas as dores. Não. A dor da perda e a dor da lembrança caminham juntas numa mesma estrada, eternamente. Santo Agostinho, em Confissões, Livro IV, revela sua dor pela morte de um amigo: “Com tal dor, entenebreceu-se-me o coração. Tudo o que via era a morte. A pátria era para mim um exílio, e a casa paterna, um estranho tormento. Tudo o que com ele comunicava, sem ele, convertia-se-me em enorme martírio. Os meus olhos indagavam-no por toda parte, e não me era restituído.”
Descobrimos que o gol nunca foi apenas um gol. Como toda grande narrativa, ele reúne, numa mesma imagem, acontecimentos anteriores ao próprio gol. Por isso, algumas comemorações permanecem na memória, enquanto tantas outras desaparecem. Não apenas porque decidiram campeonatos, mas porque, durante alguns segundos, tornaram visível uma história humana inteira.
Os grandes campeonatos continuarão a ser decididos nos grandes quadrantes verdes por diferentes times e jogadores. Talento, preparação e estratégia permanecerão decisivos. Porém, os aspectos técnicos da partida já não explicam sozinhos por que milhões de pessoas permanecem diante da televisão. Entra em jogo outra percepção: por trás da camisa (chamada, não por acaso, de manto por tantos torcedores), permanece alguém que conheceu o medo, a perda, a esperança, a persistência e o recomeço. Talvez seja essa a maior conquista das narrativas esportivas contemporâneas: revelar, no instante de um gol, profundidades da realidade quase sempre ocultas ao nosso olhar.
* Luiz Bragança de Pina é escritor, professor e mentor de roteiro cinematográfico e articulista.





